a telha

Um espaço para reflexões, ensaios, contos, crônicas, críticas musicais e o que mais der na telha

Caio Carvalho

Neuroses, humor tosco, arte e fascinação pela filosofia de vida dos filmes do Rocky Balboa. Entusiasta da bateria, do sax, da fotografia, da literatura e da sexologia. Sonha em poder, um dia, fazer uma jam session com o baixista Flea,o guitarrista Kevon Smith, o vocalista Eddie Vedder e o saxofonista Dana Colley.

Santana: o precursor do axé?!

Hoje em dia, o axé, famosíssimo dentro das festanças carnavalescas do Brasil e das chamadas “micaretas” (carnaval fora de época), é o mais destacado representante da música brasileira no exterior, segundo a Folha de S. Paulo. Amado e odiado por muitos, tal estilo guarda relações com a música de Carlos Santana. Garanto que isso não é nenhuma heresia.


Santana-Woodstock2T.jpg Veja só: estava eu, outro dia, sentado no bar Veneto (lugar este que, por sinal, é bem popular entre os roqueiros da cidade de São Luís – Ué, o que foi? Pelo menos esse termo é melhor que “a galera do rock”) conversando com um casal de amigos numa boa, tranquilamente. Estava lá, tomando uma cerveja atrás da outra, quando meu companheiro de mesa de bar daquela hora, o jornalista Pablo Habibe, solta essa pérola: “Bem, tu sabe, né? O Santana foi o precursor do axé...”. Não agüentei: dei uma boa gargalhada. Aquilo soou muito engraçado. Não sei se o álcool na minha cabeça fez isso ser mais engraçado do que realmente é... Não sei, quem sabe. Mas de qualquer forma, tal frase tem, de fato, um certo poder cômico – mas será que ela teria um potencial para ser verdade?

Quando cheguei a minha casa comecei a pensar furiosamente nisso. “Tu só pode ‘tá de brincadeira, pô! Isso é molecagem”, refleti. Mas logo me contra-argumentei: “mas tu por acaso conhece outro que pela primeira vez misturou tambores com guitarra sem ser o Santana?” Bom, é nessa hora que eu caio em mim: lembro-me que Richie Valens e Daniel Flores (ou Chuck Rio), oficialmente, foram os primeiros a incutir influências latinas no rock, ou melhor, no rock’n’n roll. Richie Valens foi o verdadeiro pioneiro, com aquela famosa releitura de “La Bamba”, uma música do folclore mexicano. No entanto, ele não investiu mais nisso. A maioria gritante de suas músicas (e põe gritante nisso!) é apenas rock ‘n’ roll e vai na onda do Chuck Berry, do Elvis Presley, do Little Richard, do Bill Haley, etc. As pitadas um pouco mais distribuídas de latinidade no repertório foram dadas por Chuck Rio, tido como o “Padrinho do latin rock” (vocês provavelmente devem conhecer “Tequila”, música dele). Com relação às outras bandas de latin rock do final da década de 50 e do começo dos anos 60... Bom, havia aquelas que de latinidade só tinham as letras, como Los Teen Tops, com possivelmente uma ou outra música que saía desse padrão, e outras com as quais a fusão com os ritmos latinos era mais explícita, como Los Blue Caps.

Mas vocês vão perguntar: o que diabos isso tem a ver com axé? Nada. A matéria-prima desse pessoal é o rock’n’roll. O axé tem influências latinas, mas não é o estilo "wa bop a lu bop a lom bam boom"* que se mistura com elas. É o pop/rock. Aí você me pergunta: “e por acaso o Santana faz pop/rock?” E eu digo: vamos com calma. Santana pode não ter sido o pioneiro da fusão “rock-ritmos latinos”, mas foi um dos primeiros que mais explorou intensamente essa mistura. O que antes se via um pouco com Chuck Rio e raríssimamente com Richie Valens, foi só o que apareceu com Santana. Em 1969, ele lança seu primeiro álbum, intitulado “Santana”, no qual tempera o rock com suingue e timbres latinos como ninguém. E ele continuou fazendo isso por toda a década de 70 até hoje, moldando-se, em cada época, ao que era pop. Se ele não tivesse feito todas aquelas parcerias a partir de 1999, provavelmente ele entraria no ostracismo. Ele se moldou ao gosto das novas gerações – e ficou bom! Não é mais o Santana dos anos 70, tudo bem, mas ele se moldou com bom gosto. A semelhança entre ele e o axé é justamente essa: Santana e as bandas de axé misturam ritmos latinos e instrumentos elétricos com uma proposta pop – o que os distingue são os tipos de ritmos que eles misturam e as diferentes propostas pop de cada artísta para cada época e lugar. Ok, eu não vou forçar a barra e dizer que o guitarrista bigodudo é o pai do axé, mas consigo ver ele um pouco como um primo dele. Um pouco. A receita para se fazer axé não é a mesma que a do Santana, claro, mas há um padrão: ritmos latinos e africanos junto com guitarras – o direcionamento deste padrão é que faz toda a diferença.

Os verdadeiros pais do axé são quatro pessoas: primeiramente Dodô e Osmar, que pegaram a idéia de tocar frevo com guitarras elétricas em cima de uma Fobica (um Ford 1929), dando início ao que seria o trio elétrico; Morares Moreira, que teve a idéia de subir em cima de um trio elétrico (lugar destinado somente à musica instrumental) para cantar; e Luiz Caldas (do trio Tapajós), que misturou o frevo elétrico com o ritmo ijexá, dando uma nova cara a essa música pernambucana. Lá para os anos 90, o axé ganha a cara que possui até hoje – e por isso muitos o odeiam. Bunda e insinuações sexuais ganharam tanto ou maior importância do que a própria música, a qual passa a ter uma veia mais pagodeira. O axé merece respeito? Ouça “Fricote” de Luiz Caldas. Esse começinho do axé é bom, eu assevero.

*Essa expressão diz respeito ao começo da música "Tutti-frutti", do Little Richard.

Referências:

http://cliquemusic.uol.com.br/generos/ver/axemusic

Folha de S. Paulo, Ilustrada, sexta – feira, 28 de Março de 2008


Caio Carvalho

Neuroses, humor tosco, arte e fascinação pela filosofia de vida dos filmes do Rocky Balboa. Entusiasta da bateria, do sax, da fotografia, da literatura e da sexologia. Sonha em poder, um dia, fazer uma jam session com o baixista Flea,o guitarrista Kevon Smith, o vocalista Eddie Vedder e o saxofonista Dana Colley. .
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