a telha

Um espaço para reflexões, ensaios, contos, crônicas, críticas musicais e o que mais der na telha

Caio Carvalho

Neuroses, humor tosco, arte e fascinação pela filosofia de vida dos filmes do Rocky Balboa. Entusiasta da bateria, do sax, da fotografia, da literatura e da sexologia. Sonha em poder, um dia, fazer uma jam session com o baixista Flea,o guitarrista Kevon Smith, o vocalista Eddie Vedder e o saxofonista Dana Colley.

Sexo, religião e rock'n'roll

Considerado o álbum mais linear da carreira do guitar hero Steve Vai, "Sex & Religion" jamais, jamais deve ser subestimado, mesmo que muitos falem o contrário. Entenda o porquê.


SteveVai.jpg Diferentemente dos outros álbuns do Steve Vai, “Sex & Religion” possui músicas cantadas. O vocalista escolhido foi o fazedor de caretas e talentosíssimo Devin Townsend, cujo estilo de cantar transita com facilidade entre o extremamente agressivo e o extremamente calmo, dependendo da ocasião. Por ser um álbum no qual Vai teve que dividir sua performance virtuosa com a garganta do Townsend, acredito que o pupilo do Joe Satriani tenha ficado com um pouquinho menos de liberdade do que o normal (até porque não sei quem compôs as letras e as melodias vocais – nessas horas faz muita falta o encarte do CD). Resultado: o álbum é, de fato, bem mais direto e claro se comparado com outros trabalhos do guitarrista, mas isso não quer dizer que ele não tenha suas (grandes) doses de complexidade e abstracionismo.

Começando com uma intro de 1 minuto e 04 segundos (“An Earth Dweller's Return”), Vai prepara terreno para a música que vem a seguir, chamada “Here and now”, cuja competência e imponência vêm recheadas de sentimetos sobre coragem, sacrifício e vitória numa aura bem dramática. Em terceiro, temos a romântica e um tanto sacaninha balada “In My Dreams With You”, que possui um dos refrões mais revigorantes que eu já ouvi em todos meus 22 anos de vida. Em seguida, “Still My Bleeding Heart” nos lembra de certa forma, só que de maneira invertida, as cantigas líricas de amigo dos séculos XI e XII. Digo invertida porque ao invés do eu lírico ser uma mulher, como se vê nesse tipo de cantiga, ele é um homem que sofre por se apaixonar por alguém e por se ver numa situação em que terá que abandonar sua pessoa amada pra prestar serviço em alguma batalha, sabendo de antemão que poderá morrer: “I'll die like a soldier in your arms/I will be brave so you can be strong”. A quinta faixa, que dá nome ao álbum, é bem provocante e possui um arranjo de coro que parece muito com alguns trabalhos do Queen. Em sexto, a perturbante “Dirty Black Hole” tem horas que chega a soar como um verdadeiro fusion, só que mais pesado. A sétima é uma ótima balada com uma criativa levada de bateria, na qual o insanamente incrível Terry Bozzio usa dois chimbais, uma paderola e a cúpula do prato de condução, além, obviamente, do bumbo (no primeiro tempo) e da caixa (no segundo contratempo). A oitava, a instrumental “State of Gracea”, a mais fraca de todas, nos presenteia com a presença de cítaras e derbaks, se distanciando um pouco do resto do álbum. A nona, “Survive”, com letra sábia e otimista, tem um ótimo groove (a parte do “bum chaka chaka chaka bum chaka bum” não sairá da sua cabeça, não tem jeito). A décima, “Pig”, se revela bastante maluca ao longo de seus 03 minutos e 36 segundos. Em seguida, a instrumental “The Road to Mt. Calvary”, nome do local onde Jesus foi crucificado, vem a nós como um enigma instrumental, cheio de simbologias sonoras, com uma proposta semelhante ao de Stanley Kubrick no filme “2001 – Uma odisséia no espaço”: cada um pode interpretar da sua maneira. A décima segunda, “Down Deep into the Pain”, de letra bastante filosófica sobre a dor, se revela a melhor faixa do álbum. A letra é perfeita e o riff é perfeito, com direito no final a um diálogo entre Deus e o eu-lírico. E, por último, em “Rescue Me or Bury Me”, Steve Vai se deleita num solo de mais ou menos 4 minutos, após Townsend ter declaramado um violento poema de amor extremado. Convenhamos (e que me desculpem os fãs do Vai): a letra dessa música é bem mais interessante que esse solo virtuoso. Todas as letras do álbum, na verdade, são bastante interessantes. Nada de versos chatos e rimas bobas. Pena que o Steve Vai não continuou fazendo mais álbuns com o Devin Townsend (...). A junção dos dois deu (e muito) certo. Nota: 8,2.


Caio Carvalho

Neuroses, humor tosco, arte e fascinação pela filosofia de vida dos filmes do Rocky Balboa. Entusiasta da bateria, do sax, da fotografia, da literatura e da sexologia. Sonha em poder, um dia, fazer uma jam session com o baixista Flea,o guitarrista Kevon Smith, o vocalista Eddie Vedder e o saxofonista Dana Colley. .
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