a telha

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Caio Carvalho

Neuroses, humor tosco, arte e fascinação pela filosofia de vida dos filmes do Rocky Balboa. Entusiasta da bateria, do sax, da fotografia, da literatura e da sexologia. Sonha em poder, um dia, fazer uma jam session com o baixista Flea,o guitarrista Kevon Smith, o vocalista Eddie Vedder e o saxofonista Dana Colley.

Top 5: Roqueiros regueiros

Toda banda de rock que se preze, tem que ter seu próprio reggae. ‘Tá bom, tudo bem, é brincadeira. Toda banda de rock não precisa ter necessariamente um reggae, claro. Mas eu aconselharia qualquer uma a ter. Pelo menos um. Por que? No texto que se segue, explico o motivo e enumero quais músicas fizeram grandes nomes do rock soarem como regueiros.


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Por que toda banda de rock deveria ter um reggae? Bom, é uma referência respeitosa. Não obrigatória, claro, como eu disse, mas respeitosa. O rock e reggae são da mesma família. São primos de segundo grau. Ambos têm um parente em comum: o R&B, que é, como eu gosto de falar, a “matéria-prima mór da música negra”. Inventei esta categoria pois esse estilo foi intensamente remodelado no século XX , metamorfeando-se em gêneros musicais negros importantíssimos para a história da música. Dele irão se originar vários filhos: o rock’n’roll, o funk (o funk americano, claro), o soul e o ska. Três netos: o rock, o rap e o rock steady. E um bisneto: o reggae.

Das bandas de rock que possuem em seu histórico algum envolvimento com o reggae, existem dois tipos: aquelas cujo estilo normalmente não flerta com o ritmo jamaicano, ou seja, cujos termos algébricos sonoros são usam “partes literais” ou “coeficientes numéricos” regueiros, e aquelas que têm o costume de sempre que convém usar o ritmo consagrado por Bob Marley em suas composições, como o The Police, Paralamas do Sucesso, The Clash, etc. Com relação às bandas do primeiro grupo, existem vários exemplos – e é justamente sobre elas que eu vou traçar meus comentários.

1)Led Zeppelin

Começo por esses gigantes do rock setentista. O reggae deles é bem conhecido: D'yer Mak'er (até Claudinha Leite já cantou essa música). Lançada em 1973 no álbum “Houses of Holy” (considerado por alguns críticos como o “patinho feio” da discografia do Zeppelin – opinião que, para mim, é uma completa falta de lucidez), essa música revela um eu - lírico extremamente apaixonado por sua amada. Reparem na performance do baterista John Bonham nessa música. É interessante notar que ele não soa como um baterista regueiro. Ele permanece com sua identidade. Seu groove é pesado, mas ainda sim extremamente suingado, e em nenhum momento usa o aro da caixa, o que é comum em levadas de reggae. Degustar a textura do som dessa bateria é um prazer raro. Na verdade, as texturas de todos os instrumentos são incríveis nessa música. Pasmem: o próprio John Paul Jones, baixista da banda, já revelou seu desgosto por esse reggae. D'yer Mak'er não foi levado a sério por ninguém na época do seu lançamento, na verdade, só ganhando respeito mais tarde.

2)Scorpions

Lançada em 1979 no álbum “Loverdrive” (aquele com a polêmica e bizarra capa de um homem com a mão ligada, por meio de um chiclete, ao seio direito exposto de uma mulher), a música “Is There Anybody There?” é, na falta de um termo mais satisfatório, uma delícia. Não é um reggae “roots” (de raiz), claro – como todos os reggaes analisados nesse artigo são –, mas um reggae “de branco” (usando a tradução do nome do álbum “Reggatta de Blanc”, do The Police), com aquele característico e inconfundível suingue oriundo da batida da guitarra no contratempo da canção, batida esta chamada “skank” (no funk, essa linha da guitarra, também magrinha e rítmica, se chama “fatback”).

3)Red Hot Chili Peppers

“Joe”, música lado B do single “Desecration Smile” dos pimentões, quase ninguém conhece. Ela é bem suave e rasteira e, de todos os reggaes comentados aqui, ela é a que mais se assemelha ao dito reggae roots, o reggae original. Os timbres são realmente bem característicos, com direito a um arranjo de sax, trompete e trombone que me fez sentir como se eu estivesse perto das próprias radiolas dos festivais de reggae daqui de São Luís do Maranhão – a chamada “Jamaica Brasileira”, agora mais conhecida como a capital dos produtores-caloteiros-amadores-e-irresponsáveis-do-Metal-Open-Air. Nessas radiolas os DJ’s só tocam reggae de raiz.

4)Frank Zappa

O nosso excêntrico guitarrista bigodudo é dono de duas das paródias regueiras mais interessantes existentes na face da Terra. Ambas estão no álbum duplo ao vivo “The Best Band You Never Heard in Your Life” e se caracterizam por serem covers – covers reggae, claro – do Johnny Cash e do Led Zeppelin. A música do Cash escolhida foi “Ring of Fire”, cuja versão original soa muito... Digamos, “brega” (?) (que me perdoem os fãs de Johnny Cash) comparada ao cover (culpa do arranjo de metais da música original, eu creio), que é bem mais carismático – o que não implica em dizer que a versão do Cash é ruim. No entanto, acredito que a letra dessa música nasceu mesmo pra ser um reggae. Pena que ela, a “Ring of Fire” zappatiana, tem uma duração pequena (...). A música escolhida do Led Zeppelin foi Staryway to Heaven (!) e é executada como última música do álbum II, fechando o show sabiamente. Tal canção foi adaptada com um bom gosto tão incrível que não tem como não esconder um sorriso de aprovação quando se a escuta. E o final é perfeito: aquele puta solo do Jimmy Page da versão original é entoado por um naipe de metais de qualidade indiscutível, em um empolgante ska. Ouvir essa música até o final dá tanta satisfação quanto saber que se fez um sexo gostoso.

O bom humor de Zappa estampa bem as duas versões, e está mais bem destacado no cover de Johnny Cash. Na versão regueira do hit zeppeliano, tal toque lúdico está nos efeitos sonoros que são colocados estrategicamente ao longo da música.

5)Rush

Acho que vou pegar de maneira desprevinida alguns leitores com essa última banda. “O que? Rush? Tocando reggae? Que diabo é isso?”, me perguntarão os mais afoitos. Sim, o Rush já emanou acordes regueiros, mas de maneira um tanto, digamos, escondida, intocada no meio de suas músicas. Refiro-me às composições “Vital Signs” e “The Spirit of Radio”, presentes respectivamente nos álbuns “Moving Pictures” (1981) e “Permanent Waves” (1980). Ao ouvir o começo da primeira música, você jamais pensará que poderá ouvir um reggae saindo dela. Mas ele aparece em dois momentos, muito bem colocados, logo depois das agudas frases do Neil Peart: aos 01:16 e 02:42. Com relação à segunda, essa composição é famosa pelas viradas de bateria em uníssono com o baixo de Geddy Lee logo na introdução. Executá-las não é pra qualquer um e exige muito entrosamento entre os músicos. A parte reggae dessa música aparece de maneira rápida, porém marcante, perto do final, aos 03:50.


Caio Carvalho

Neuroses, humor tosco, arte e fascinação pela filosofia de vida dos filmes do Rocky Balboa. Entusiasta da bateria, do sax, da fotografia, da literatura e da sexologia. Sonha em poder, um dia, fazer uma jam session com o baixista Flea,o guitarrista Kevon Smith, o vocalista Eddie Vedder e o saxofonista Dana Colley. .
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