a telha

Um espaço para reflexões, ensaios, contos, crônicas, críticas musicais e o que mais der na telha

Caio Carvalho

Neuroses, humor tosco, arte e fascinação pela filosofia de vida dos filmes do Rocky Balboa. Entusiasta da bateria, do sax, da fotografia, da literatura e da sexologia. Sonha em poder, um dia, fazer uma jam session com o baixista Flea,o guitarrista Kevon Smith, o vocalista Eddie Vedder e o saxofonista Dana Colley.

A gagueira que habito

Uma pequena e simples crônica sobre um pequeno problema meu...


PORKY-PIG-ROUGH.jpg Você aí conversando/ você não deve sacar/ como é o mundo aos olhos de quem sofre/ ao falar (Caio Carvalho. Frase tosca inspirada nos primeiros versos de “Ponto de Vista”, de Herbert Vianna).

Gaguez. Segundo o Dicionário Aurélio Virtual, isso diz respeito a um “embaraço fônico característico dos gagos; gagueira, gaguice, pselismo [...]”. O que posso dizer? Parcas palavras para um problema tão indiscreto. Embaraço fônico? Incômoda frugalidade. Mas esperem, tem mais. Gaguejar (novamente, o Aurélio): “pronunciar as palavras com hesitação, sem clareza de sons, e repetindo as sílabas; tartamudear”. Hesitação? Repetição de sílabas? TARTAMUDEAR? É, melhorou. De todas as mazelas, Jó só faltou ser gago. Sorte dele o diabo ter esquecido essa praga. Sorte. Uma praga que, por sinal, Moisés potencialmente tinha – dizem as más e, certamente, confortavelmente não balbas línguas, que ele era gago. Em Êxodus 4:10, ele afirma: “Ah, Senhor! Eu não sou homem eloquente. Nem de ontem nem de anteontem, nem ainda desde que tens falando a Teu servo. Porque sou pesado de boca e pesado de língua”. Mas não, provavelmente Moisés estava só dando um migué pra não ter que bancar o libertador e (consequentemente) o orador do povo judeu, segundo especialistas. Ou talvez ele realmente não fosse bom pra falar em público. Mas tanto faz, de qualquer isso não muda um fato: a gagueira é uma droga. Ponto. Próximo parágrafo!

Grande porcentagem das coisas da vida nunca é do jeito que a gente quer. Por exemplo, eu estou tomando um remédio cujo efeito colateral é a queda de cabelo. Beleza. Eu me pergunto: por será que esses remédios não fazem cair os cabelos do saco ou da bunda? Pô, têm que ser justamente os cabelos da cabeça?! Se fossem até os do debaixo do braço eu já ia achar ótimo, mas não. São os da cabeça. Então... Seguindo essa lógica da vida, nasci um cara gago. Ou pelo menos semi-gago. Minha gagueira não é tão severa, admito. Digamos que meu pselismo seja de nível um ou dois. Mas mesmo assim não deixa de ser um grande estorvo. Minha fala flui, mas com certas palavras, certas expressões, a sílabas saem inaudíveis, devido a minha dicção ruim. Saem assim por que falo rápido. Coisa de neurótico (...). Para me tratar disso, procurei primeiramente a ajuda de um teatrólogo, que me entregou vários exercícios engraçados de fala, como: “a abracadabra da gaga macabra na cabala” ou “sem temer berberes rebeldes, Estevez, célebre tenente genebrês, desfere fremente ferretes rebenques”. Depois, fui para uma fonoaudióloga, que também me passou várias coisas. Se eu fosse disciplinado com os exercícios, talvez hoje eu não tivesse motivos pra fazer essa crônica. Mas não. Preciso voltar a praticar (...). Não estou dizendo: “sou um infeliz e coitadinho porque gaguejo”. Longe disso. Permaneço nessa situação por puro “comodismo”. Sei da minha parcela de culpa... Mas isso não impede que eu me divirta comigo mesmo através desse texto, não é? E, como disse Herbert Vianna, na já citada música “Ponto de Vista”, “não desejo pra ninguém nada de ruim, mas faltam cordas novas no meu violão”.

E por falar em se divertir com a gagueira, tem uma marcha bastante criativa, famosa nas festanças carnavalescas daqui de São Luís do Maranhão, intitulada “Gaguinho”, que é no mínimo genial. Pelo menos eu acho isso (...). Feita pelo compositor Wellington Reis, é simples, mas irresistível de cantar (e dançar) junto – como a maioria das músicas do bloco de carnaval ludovicense Vagabundos do Jegue é, com suas letras irreverentes e arranjos para metais que entram na cabeça do povão e não saem mais. Deem uma lida, talvez vocês gostem (ou não, já dizia Caetano):

Eu conheço um gaguinho Que ga-gagueja demais Quando ele fica zangado Aí ele ga-gagueja mais! Você nunca go... Você nunca go... Você nunca gostou de mim! Como o se cu... Como o seu cu... Como o seu cunhado gosta! Calma, gaguinho, calma, gaguinho! Ga-ga-gaguinho é tua mãe!

A gagueira é um problema multifatorial, nas palavras do Dr. Dráuzio Varella. Pode ter origem genética, orgânica, psicológica ou social (ou tudo isso junto. Já pensou?). Pra quem não convive ou não é amigo(a) de um(a) gago(a), entender o quanto é impotente ter esse problema talvez seja um pouquinho mais difícil. Mas só um pouquinho. Somos seres empáticos, afinal. Você consegue enxergar que é uma merda não conseguir falar o que se quer. Tem uma metáfora de péssimo gosto que eu infelizmente inventei que explica bem o quanto é duro ser gago: “gaguejar perante alguém ou alguns é colocar um microfone perto do seu ânus no exato momento que você peida”. O embaraço é elevado à bilionésima potência! Um prato cheio para os apreciadores do infortúnio alheio, possuidores do “fetiche-vídeo-cassetada”, como o vil Fortunato (o homem que saboreou tranquilo a explosão de dor moral de Garcia. Explosão esta “longa, muito longa, deliciosamente longa”) do conto “A causa secreta” de 1896, do irremediável Machado de Assis. Se eu estudasse na mesma classe que Fortunato na época de escola, tenho quase certeza que ele não faria bullying comigo, mas adoraria ver os outros fazendo em mim. Eu era um alvo perfeito: magrinho, com bigodinho ralo, de óculos, com mau hálito e, claro, gago. Eu ainda uso óculos, mas estou com uma armação melhor, ganhei uma barba, não tenho mais bafo (ufa!) e ganhei uns 10 quilos. A gagueira, entretanto, continua andando em uma estrada longa, muito longa, inconvenientemente longa.

O desenho do Gaguinho que muito bem acompanha essa crônica é de autoria de Mark Christiansen. Confiram os trabalhos deles nesse link: http://www.markscartoonart.com/


Caio Carvalho

Neuroses, humor tosco, arte e fascinação pela filosofia de vida dos filmes do Rocky Balboa. Entusiasta da bateria, do sax, da fotografia, da literatura e da sexologia. Sonha em poder, um dia, fazer uma jam session com o baixista Flea,o guitarrista Kevon Smith, o vocalista Eddie Vedder e o saxofonista Dana Colley. .
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/// //Caio Carvalho