a telha

Um espaço para reflexões, ensaios, contos, crônicas, críticas musicais e o que mais der na telha

Caio Carvalho

Neuroses, humor tosco, arte e fascinação pela filosofia de vida dos filmes do Rocky Balboa. Entusiasta da bateria, do sax, da fotografia, da literatura e da sexologia. Sonha em poder, um dia, fazer uma jam session com o baixista Flea,o guitarrista Kevon Smith, o vocalista Eddie Vedder e o saxofonista Dana Colley.

Bourdieu e Deep Purple

O que o Deep Purple e o sociólogo francês Pierre Bourdieu têm em comum?


Deep_Purple-Burn-Frontal.jpg É fácil ter raiva de Bourdieu. Pelo menos pra mim é. Lê-lo é uma experiência que não me agrada. Não chego a dizer que ele é pedante. Não estaria sendo justo com nosso sociólogo francês. Seria uma acusação deveras exagerada, afetada e transtornada. Mas arrisco dizer que ele é de um elitismo que ensaia chegar às raias da prolixidade (espero que eu não tenha feito um pleonasmo). Mas afinal, quem sou eu para criticar Bourdieu? Bom, não precisa ser alguém especial para poder criticar, claro. A única desvantagem é que se você não for “alguém”, sua opinião e merda, dentro do mundo acadêmico, é a mesma coisa. A não ser que você seja um gênio ou tenha uma respeitada e considerada carreira construída em cima de produções e mais produções textuais, simpósios, seminários e congressos. Ou seja: esse não é meu caso.

Mas sim, voltemos a falar de Bourdieu. Entendê-lo não é fácil. Suas categorias não são fáceis de sacar – se você for estudá-las pelos próprios livros dele. Mas são brilhantes. Quando você consegue seguir um rumo pelo qual o entendimento desse sociólogo se faz pouco a pouco mais presente, você se depara com um arcabouço teórico do caramba. Acredito que seja claro o fato de que o rumo que eu tomei para entender esse cara foi por meio de outros. Simplesmente não consigo entender a prosa de Bourdieu. Seus comentadores, sim.

Há três categorias importantíssimas dentro do pensamento de Bourdieu, que só podem ser entendidas dentro de uma relação de interdependência entre elas: campo, capital e habitus. Campo diz respeito ao espaço do jogo social, ao espaço relacional. Domínio formado por concorrência, disputa interna. Como bem explica Eduardo Socha, “cada espaço corresponde [...] a um campo específico – cultural, econômico, educacional, científico, jornalístico etc -, no qual são determinados a posição social dos agentes e onde se revelam, por exemplo, as figuras de ‘autoridade’, detentoras de maior volume de capital.” Capital é tudo aquilo que faz um agente ser “o cara” dentro de cada campo específico. Refere-se tanto à riqueza e bens (capital econômico), quanto a conhecimentos adquiridos e reconhecidos (capital cultural) e amizades e contatos poderosos (capital social). Em suma: todos esses capitais convergem para o prestígio e o reconhecimento (capital simbólico). Já o habitus, categoria bastante complexa, é todo o “repertório” do indivíduo, oriundo de sua experiência e vivência no campo. Esse “repertório” lhe possibilita estratégias, vantagens, ideias, iniciativas, possibilidades. Nas (melhores) palavras de Maria Drosila Vasconcelos, habitus trata-se de “uma matriz, determinada pela posição social do indivíduo que lhe permite pensar, ver e agir nas mais variadas situações. O habitus traduz, dessa forma, estilos de vida, julgamentos políticos, morais, estéticos. Ele é também um meio de ação que permite criar ou desenvolver estratégias individuais ou coletivas.”

pierre_bourdieu11.jpgPierre Bourdieu

A fim de demonstrar a dinâmica que as categorias de Bourdieu possuem entre si, escolho o campo artístico para uma análise, mais especificamente o subcampo relativo aos bateristas. A distinção principal desse subcampo reside, primeiramente, em ter o domínio mínimo sobre a arte de tocar bateria em conjunto com outros instrumentistas. O prestígio, o nome, enfim, o capital simbólico, que os bateristas procuram no meio musical dependerá do volume do capital cultural concernente à sua área – a saber, conhecimento musical, tanto relativo ao domínio da execução da técnica da bateria, como também a uma possível sapiência da teoria musical; formação em certa instituição de ensino, como uma universidade ou um conservatório, etc. Além disso, o capital social é importantíssimo: contatos com outros músicos de renome, com donos de estúdios ou empresários de artistas influentes, com as revistas especializadas de bateria, relações de acordo com os representantes de empresas de produtos destinados aos bateristas (o que significa ser “endorsement” de alguma marca, ou seja, ser garoto propaganda da marca em troca de produtos dessa empresa, como pratos, baquetas ou baterias). Muito dessas possibilidades de apreensão de capitais, como vocês podem ver, se relacionam a vários fatores “extra-campo”, referentes ao campo midiático e ao econômico, por exemplo. Os habitus requeridos e adquiridos são bem evidentes, e derivam da experiência musical e profissional do baterista, como o conhecimento das regras de conduta para com os músicos, técnicos de som, dono de gravadora e até para com a própria música. Além da marca pessoal do baterista, como criatividade e o feeling. Tudo isso vai fazer parte do seu modus operandi.

Um exemplo, clássico pra quem é do campo, reside no fato de que o baterista não deve tocar o que a composição “não pede”. Querer colocar viradas desnecessárias ou excesso de notas em uma “levada”, apenas por colocar, não é comportamento aconselhável. Se a música “pede”, por exemplo, apenas uma condução 4/4 básica, com o bumbo nos tempos um e três e a caixa nos tempos dois e quatro, o baterista tem que ter bom senso e perceber que essa é a “levada” correta. As estruturas das regras de conduta, incluindo, como se pode perceber, decisões no que tange a uma escolha estético-musical correta, conduzem a maneira como o baterista deve agir, mas isso não quer dizer que esses mesmos bateristas não possam criar ou reinterpretar tais regras seguindo uma lógica própria. Por exemplo, Ian Paice, que toca bateria na consagrada banda Deep Purple, tocou de um jeito não muito “ortodoxo” em uma das faixas do álbum “Burn” (1984). Nessa faixa, de nome homônimo, suas viradas acompanham a melodia, seguindo-a, ao invés de antecipá-la e anunciá-la. Não dá pra saber se ele fez isso com a principal intenção de mostrar o quanto ele é bom – eu não conheço o cara... –, mas com certeza ele o fez no intuito de demonstrar aquilo que ele achava que a música “pedia”. Teve sucesso: o resultado ficou muito bom. Confiram:

Referência: http://revistacult.uol.com.br/home/2010/03/pequeno-glossario-da-teoria-de-bourdieu/


Caio Carvalho

Neuroses, humor tosco, arte e fascinação pela filosofia de vida dos filmes do Rocky Balboa. Entusiasta da bateria, do sax, da fotografia, da literatura e da sexologia. Sonha em poder, um dia, fazer uma jam session com o baixista Flea,o guitarrista Kevon Smith, o vocalista Eddie Vedder e o saxofonista Dana Colley. .
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