a telha

Um espaço para reflexões, ensaios, contos, crônicas, críticas musicais e o que mais der na telha

Caio Carvalho

Neuroses, humor tosco, arte e fascinação pela filosofia de vida dos filmes do Rocky Balboa. Entusiasta da bateria, do sax, da fotografia, da literatura e da sexologia. Sonha em poder, um dia, fazer uma jam session com o baixista Flea,o guitarrista Kevon Smith, o vocalista Eddie Vedder e o saxofonista Dana Colley.

Ensaio sobre as fezes II

A continuação sobre minha reflexão sobre as fezes, dessa vez discutindo a coprofilia, a coprofagia e o sexo anal.


Mão e charuto.JPG "Às vezes, um charuto é apenas um charuto"(Freud). Às vezes não (...)

Até quanto o tema “fezes” pode render assunto? No meu caso, rendeu um pequeno texto bastardo e um tanto improvável. Culpa do meu ódio doentio pelo cocô. Era tanto asco, tanta implicância, que eu não me contive: virou crônica. Mas meu espírito ainda está irrequieto. Um texto não basta. Ainda há coisas há serem ditas e analisadas sobre as fezes, por mais nojentas que sejam. Engula, então, essa ânsia de vômito e vá em frente. Continue lendo. Tem mais de onde veio essa merda...

Charuto sozinho.JPG

“Dominar-se a si próprio é uma vitória maior do que vencer a milhares em uma batalha” (Sakyamuni)

Não há melhor frase do que a primeira para descrever aquilo que você terá que passar para poder encarar um texto ou vídeos e contos eróticos sobre coprofilia e/ou coprofagia, caso você não esteja acostumado a fantasias e fetiches “extremamente mais undergrounds”. Aguentar tudo isso é uma difícil façanha, sim, no entanto, não chega a ser exatamente uma vitória. “Vitória” é muito dramático. Só seria se sua vida dependesse disso. Mas como ninguém está sendo obrigado a ver “copro-conteúdos” tendo uma arma apontada para a cabeça, fiquemos só com “uma difícil façanha” mesmo. Mas, primeiramente (para aqueles que não sabem), o que é coprofilia e coprofagia? Acredito que esta é ordem correta de citar essas palavras em um texto. A coprofilia é mais ampla, e ela pode chegar a uma prática coprofágica. Ambas envolvem, claro, a interação com fezes, sendo que a primeira diz respeito a uma excitação sexual provinda do contato (tanto físico como por meio do olfato e/ou visão) com a merda do(a) parceiro(a) sexual. Coprofagia, por sua vez, é a deglutição desse material fecal. Um casal coprófilo tem, dessa maneira, uma certa gama de possibilidades, como enumeram Regina Navarro Lins e Flávio Braga, n’O Livro de Ouro do Sexo: “defecar no parceiro, mesmo que seja durante o intercurso anal, sujando ou brincando com as fezes, defecar na roupa usando duchas ou enemas, evacuação manual” (2005, pág. 139)... E por aí vai. Há também os urofílicos (urina) e a galera do rainbow kissing (que envolve sangue da menstruação e esperma), mas isso é conteúdo pra outra oportunidade. O interesse aqui é nas fezes e nas práticas sexuais que a envolvem.

A coprofilia e você

“Conte-me, e eu vou esquecer. Mostre-me, e eu vou lembrar. Envolva-me, e eu vou entender” (Confúcio).

Acho que Confúcio nunca ouviu falar sobre coprofilia. Se ele tivesse escutado algo sobre isso, acho que a frase seria assim:

“Conte-me e eu tentarei esquecer na hora do almoço. Não precisa me mostrar, eu infelizmente já vou lembrar. Não precisa nem me envolver, eu não quero (e nem posso mesmo) entender”

Mais uma vez damos de cara com um dos principais motivos geradores de desentendimentos, brigas, atritos e guerras: a subjetividade alheia. Essa frase metida a engraçadinha é só uma exemplificação da comum reação a uma dessas práticas formadoras de párias, dessas cuja incompreensão geral chega a níveis mais do que absurdos. Mas Confúcio era preconceituoso? Não sei. Mas a frase funciona bem pra dizer aquilo que eu quero dizer. Em outras palavras: ninguém entende você e você não entende ninguém, salvo as situações de experiências e gostos afins. “Salvo”. Até gosto e experiências semelhantes são trabalhadas, sentidas de maneiras diferentes em cada um. Dessa forma, ninguém vai te entender 100%. Lacan já dizia: os outros conhecem a imagem que fizeram de você, mas não você. Nunca você. Entender o outro em toda sua completude é sobre-humano. Como diabos aquele cara gosta daquele trabalho? Como é que ele consegue tocar violão de maneira tão virtuosa? Como é possível ela ter largado o curso de psicologia pra fazer ciências sociais? E, claro, como é possível alguém sentir tesão por merda? Simplesmente concluir “ah, ele/ela gosta, e eu não, isso basta!” é o máximo que nós podemos alcançar. É o máximo que você pode conhecer. Pelo fato de você não entender o outro, respeitá-lo na sua condição subjetiva é o caminho mais sensato. Jesus disse: “amai-vos uns aos outros como eu vos tenho amado”. E eu digo (sem querer ser insolente, que fique claro): por mais que seja bonita a frase (e por mais que Cristo tenha sido um pensador deveras interessante e valioso), isso é pedir demais às pessoas, em minha opinião. Amar é o máximo que você pode fazer. Respeitar, sim, é o mínimo. Em outras palavras: “respeita-vos uns aos outros como eu vos tenho respeitado”. Isso sim é mais exigível.

Sobre esse assunto, há um texto bastante elucidativo que eu recomendo a todos. Encontrei-o num site de contos eróticos (muito deles verídicos, se não todos), quando eu estava atrás de textos narrativos que fizessem alusão à coprofilia e coprofagia. Acredito que seria interessante ver o depoimento de pessoas que são adeptas dessas práticas narrando suas peripécias e demonstrando o quanto gostam disso. O texto, o qual é uma dissertação, diferentemente da maioria dos outros textos do site, os quais são narrativos, é um verdadeiro banho de água fria. O autor (que assina no final com as iniciais I.S.M), antropólogo, professor universitário pós-graduado, pai de duas jovens e coprófago, argumenta contra a postura de duas jovens apresentadoras da MTV que certa vez, no programa PODSEx, foram taxativas ao se recusarem a dar esclarecimentos sobre a prática da coprofagia, argumentando “sensibilidade gástrica”. Nas palavras do nosso professor:

“Alegar que não seria de bom tom dizer sobre esta prática justamente em programa em que o tema escolhido era fetiche sexual denota as balizas pelas quais a percepção de sexualidade desta emissora e suas representantes são guiadas e encerra em si mesma a suposta “abertura” tão necessária ao jovem, que comumente recorre a programas deste tipo para se apoiar em seus saberes sobre sua sexualidade, desejos e prazeres, condenados pelas normas reprodutivas da vida sexual enfaticamente cristã que ainda nos regula”.

Para ele, é essa ojeriza das duas apresentadoras à coprofagia que denota o verdadeiro ato nojento e indigesto.

O ânus

Além da coprofilia (e da coprofagia), outra prática sexual relacionada às fezes é a famosa sodomia ou sexo anal, a forma de sexo provavelmente mais abominada que existe na face da Terra. “(...) muitas culturas proscrevem e estigmatizaram todas as formas de sexo anal, geralmente por causa da abjeta relação com a defecação, da falta de possibilidade de procriação e a suposta perda da masculinidade do passivo” (LINS, BRAGA, 2005, pág. 134). Este último ponto realmente é polemiquíssimo. O ânus como fonte de prazer do homem talvez seja um dos últimos tabus modernos (ou pós-modernos. Ninguém nunca sabe qual termo certo usar...) ainda não superados. Regina Navarro Lins e Flávio Braga jogam uma luz interessante a esse tabu quando explicam que sexualidade diz respeito à escolha do sexo do parceiro e não à região do corpo onde se sente prazer. Em outras palavras: “um homem sentir prazer com a estimulação do ânus não significa absolutamente homossexualidade. Esta se caracteriza pela escolha do objeto de amor – uma pessoa do mesmo sexo – e nunca pela área do corpo que proporciona prazer”. Tal caso é um pouquinho mais comum do que se imagina. Conheço casos de mulheres cujos namorados pediam para elas enfiarem o dedo no ânus deles enquanto elas os masturbavam. Na própria série “Sex and the City” houve um episódio em que uma personagem de uma das quatro atrizes principais, a Miranda, teve um relacionamento com um cara que gostava de dizer e ouvir coisas durante as preliminares e/ou no intercurso sexual. Coisas do tipo “ah, agora vou fazer isso (...)” ou “você adora quando eu faço tal coisa (...)”. O fato é que esse cara sentia prazer na estimulação do ânus, e Miranda sabia disso, só não sabia que ele ia ficar transtornado ao ouvir tão claro uma coisa que ele já sabia: “ah, você gosta quando eu enfio o dedo no seu ânus”. Resultado: ele não gostou de ouvir essa verdade de forma tão escancarada, e parou de ter relações com a Miranda. Acontece.

No que tange à associação entre sexo anal e defecação, é essa a relação que me faz ver com certo posicionamento abjeto o coito pelo ânus. Todos conhecem meu ódio extremo pelas fezes (...). Tenho uns amigos que já argumentaram de tudo quanto é jeito sobre como é bom fazer sexo anal. Mas eles não me convencem. Eu dificilmente vou meter meu pênis num buraco de onde sai bosta. Coisa de maricas? Insulto para o sexo masculino? Não. Eu só não consigo entender (viram?) como alguém consegue enfiar o membro viril em um local destinado à evacuação de cocô. Eu gosto de enfiar o meu bráulio onde é pra se enfiar o bráulio: nas vergonhas femininas, como diriam os literatos. Meu amigo, do cu sai merda! E provavelmente vai ter merda quando você enfiar seu bilau lá. A mesma coisa é sobre sexo oral... Na região anal. Meus amigos: “Caio, se uma gata dissesse a você que ela só daria pra ti se você chupasse o ânus dela, tu chuparia? Duvido que não!” Bom, só se ela fosse linda e extremamente gost... ops, tivesse um corpo extremamente escultural (eufemismo mode on!), como Nicole Bahls ou Kate Upton , eu chegaria a pensar três, quatro, cinco vezes nisso. Antes de seu ego masculino querer me chamar de tudo quanto é nome e me apedrejar só porque eu “pensaria três,quatro, cinco vezes”, eu pergunto: tu achas que só porque ela tem um corpo incrível, o ânus dela cheira à jasmin? Tu achas que só porque ela é linda, ela limpa impecavelmente o orifício anal dela? Antes de ser mulher, ela é um ser humano, meu amigo. Sim, eu sou neurótico. Não, você nunca vai entender isso. Assim como eu nunca vou entender porque você gosta tanto de sexo anal. Claro, não vou negar tudo o que eu disse até aqui. Se você gosta de sexo anal, vou fazer o que? Defenderei até a morte, igual disse Voltaire naquela frase famosa, o seu direito de fazer sexo anal. Mas eu particularmente não curto isso. E não é porque essa prática diz respeito a um “detestável crime contra a natureza” que eu não goste dela. É simplesmente por causa das fezes. Simplesmente. Referência:

LINS, Regina Navarro, BRAGA, Flávio. O Livro de Ouro do Sexo.- Rio de Janeiro: Ediouro, 2005.


Caio Carvalho

Neuroses, humor tosco, arte e fascinação pela filosofia de vida dos filmes do Rocky Balboa. Entusiasta da bateria, do sax, da fotografia, da literatura e da sexologia. Sonha em poder, um dia, fazer uma jam session com o baixista Flea,o guitarrista Kevon Smith, o vocalista Eddie Vedder e o saxofonista Dana Colley. .
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