a telha

Um espaço para reflexões, ensaios, contos, crônicas, críticas musicais e o que mais der na telha

Caio Carvalho

Neuroses, humor tosco, arte e fascinação pela filosofia de vida dos filmes do Rocky Balboa. Entusiasta da bateria, do sax, da fotografia, da literatura e da sexologia. Sonha em poder, um dia, fazer uma jam session com o baixista Flea,o guitarrista Kevon Smith, o vocalista Eddie Vedder e o saxofonista Dana Colley.

Kierkegaard na porta dos desesperados

E se Kierkegaard participasse da Porta dos Desesperados?


Kierkegaard3.jpg Kierkegaard na Porta dos Desesperados do Sérgio Malandro. Trilha de fundo: “O Fortuna”, parte da cantata “Carmina Burana”, de Carl Orff. - Vamos lá, Kiki! Qual das três portas que você quer abrir? - Humm... Estou pensando... - Vamos com calma, vamos com calma, Kiki! Se lembre que atrás de um dessas portas está a “certeza de tudo”, meu chapa! A “certeza de tudo”, Kiki! - Hum... - Você não gostaria de ter a “certeza de tudo”, Kiki? -Hum... - Ele está desesperado, ele está desesperado, pessoal! Close nele, close nesse rapaz! Olhem só a agonia dele! - Hum... - Ele está desesperado! Você está desesperado, Kiki? ‘Tá desesperado? Então grita! -Hum... - Grita, Kiki! -Hum... - Mata mosquito! Mata mosquito! - ... - Vamos abrir a Porta dos Desesperados! Maestro, que rufem os tambores! “Qual porta? O sucesso da minha escolha está além do alcance da minha volição. Não há critérios seguros pelos quais eu poderia seguir. Estou totalmente à mercê do acaso, do que é externo a mim...” - Kiki, qual porta você vai abrir? “Vejo-me sufocado pela alternativa de me entregar, nem que seja por três segundos, aos caprichos de uma escolha encravada na maneira estética de viver a vida...” -Kiki?! “Lort!”* - Qual será... “Esta é a opção: entregar-me ao ato subjetivo último, a fé!” -... a porta... “Mas qual porta?” -... que você vai escolher? - A terceira! - Então vai! Vai! Abre que o prêmio é teu! Kierkegaard fechou os olhos. Deu uma expirada digna e farta e lançou-se a abrir a porta número 3. Abriu. Ganhou um videogame. - Um videogame! Muito bom, Kiki! Próximo da platéia?

“Lort! Torpe escolha!” - Outro da platéia! Você, menino! Sim, você, venha cá! Qual seu nome? - Jean. - ‘Tá nervoso, menino? - Aham! - ‘Tá nervoso? Então grita! - AAAAAHHHH! -Grita! -AAAAAHHHHHH! - Jean, você já sabe qual é o prêmio máximo. Já escolheu a porta que você vai abrir? -Aham! É a primeira! - Então vai, abre que o prêmio é teu! E abriu. Reluzindo inocentemente dentro do compartimento, e acomodado em uma almofada dourada de ceda, estava a “certeza de tudo”. E reluzindo ao prêmio máximo, estavam os olhos e os dentes de Jean, os quais tiveram sua importante participação na elaboração de uma expressão assaz ardilosa. O menino foi rápido: suas mãos já estavam no travesseiro do cobiçado galardão enquanto o próprio Sérgio Malandro ficava gritando: - Ganhou! Jean ganhou a “certeza de tudo”!ELE GANHOU! “Não! Bastardo! Patife! Tratante!” E enquanto Kierkegaard xingava Jean mentalmente, o menino erguia orgulhosamente a almofada com o prêmio para uma platéia animada e invejosa. Curtia, e curtia bem seus 16 minutos de fama, sabendo que logo mais, na privacidade de sua casa, desfrutaria aquele presente. Temos que conveniar com tal fato: para uma criança, já era bem consciente das coisas. Bem consciente (...). Kierkegaard, fulo da vida, deixou-se levar por sua inveja colérica e se jogou em cima do menino a fim de tirar à força o “cobiçado de todos”. Na confusão, Jean acaba por deixar cair o prêmio, o qual se quebra em dois pedaços iguais, os quais ficam bem distantes um do outro no chão. O filósofo dinamarquês desespera-se. Apressa-se a capturar ambas as partes, enquanto o menino tenta atrapalhá-lo, puxando as pernas assimétricas dele. Com a posse de uma das partes, trata logo de procurar a outra, que poderia estar em qualquer canto. Avista-a, depois de alguns segundos, logo em baixo de uma das câmeras do programa. Corre, afoito, para pegá-la. Jean, no entanto, mostra-se mais ágil e derruba-o. Kierkegaard cai feio e deixa cair a parte que já estava em suas mãos, fazendo-a quebrar-se em centenas de pedaços. O menino, puto com tudo o que aconteceu, vai para um canto e começa a chorar. Sérgio Malandro não sabe o que falar. E as câmeras apenas se limitam a filmar aquele pobre filósofo, enquanto ele, pateticamente, tenta ajuntar pequenas meias-verdades (...).

* Bosta, em dinamarquês


Caio Carvalho

Neuroses, humor tosco, arte e fascinação pela filosofia de vida dos filmes do Rocky Balboa. Entusiasta da bateria, do sax, da fotografia, da literatura e da sexologia. Sonha em poder, um dia, fazer uma jam session com o baixista Flea,o guitarrista Kevon Smith, o vocalista Eddie Vedder e o saxofonista Dana Colley. .
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