a telha

Um espaço para reflexões, ensaios, contos, crônicas, críticas musicais e o que mais der na telha

O dia em que choveu pétalas de rosas na morada do diabo

por em 24 de jun de 2012 às 22:12

E se chovesse pétalas no inferno?

Pétalas II (talvez) (versão cortada).jpg
O inferno estava lá, já funcionando como tinha que funcionar. Nada de mais. Boa parte do pessoal já se encontrava de pé. Pois é: um novo dia no inferno começa. O telão do centro então já avisa: o calor permanecerá. Sempre permaneceu o mesmo, e pelo jeito jamais irá mudar. Não sei por que anuciam ainda a temperatura! Deboche, tenho quase certeza. O Governo? Tirania. Do diabo, sabem? O regime nunca mudara. Imagine só uma revolução no inferno! De longe, curiosíssimo, convenhamos. Mas não dá. Policiamento pesado, aquele. Nem reclamar pode. Tentaram uma vez para nunca mais. Isto foi no começo, quando ainda não se tinha uma noção clara do lugar. Coitados. Tiveram que comer fezes por três anos. Merda de todos do inferno!E é muita merda. E se recusassem a comer, os guardas de lá lhes seguravam à força e enfiavam-lhes um arame pela uretra, sem piedade. Isso sem contar o sofrimento que já tinham que passar sem ter feito nenhuma reclamação (...). Outro dia, se não me engano, apelaram aos santos enviando-lhes uma carta. Em vão. A resposta? “Sinto muito, mas isto já não está sob nossa jurisdição”. É, as coisas não são fáceis... Ainda mais se você for um desses condenados a passar uma eterna estada no inferno. Você literalmente come o que o diabo jogou fora; bebe somente sua saliva; dorme no chão sujo ao lado das labaredas que revestem este mesmo chão; é violado nasalmente pelo fétido cheiro de tudo quanto é coisa podre e infecta que pode haver naquele lugar; não há o que fazer, não há o que pensar, não há por que ter esperança. Esta é sua vida agora. Esta será sua sina. Jamais irá mudar. Jamais, ouviu?

O inferno é a suma homenagem ao sofrimento, agüente. “Tire seu sorriso do caminho que eu quero passar com minha dor”, escreveram certa vez nos muros decrépitos de lá, em letras rasgadas, esta frase de Guilherme de Brito. Pois é, tem gente no inferno que também curte MPB, ora. Mas justamente quem cometeria a insensatez de sorrir em um lugar desses? Pois sorriram. Mas de espanto, de estranheza; quase uma zombaria. É que viram uma pétala de rosa no chão. Sim, naquele chão imundo. Logo aquele chão imundo e infecundo. No entanto não demorou muito para que a frágil pétala fosse imediatamente consumida pelas labaredas, acabando-se, assim, a estranha novidade. Mas... Esperem! Engano. Logo mais adiante avistaram mais outra pétala, e mais outra, e outra, e outra, e outra, e outra... Céus! Está chovendo pétalas de rosas! Do céu vermelho do inferno já se podia ver um batalhão colossal delas adentrando na atmosfera abafada e seca. Elas desciam graciosamente, sem preocupação, como se estivessem se divertindo, como se estivessem dançando. Amarelas, laranjas e avermelhadas, iam de um lado ao outro, imitando as borboletas de Zé Ramalho. Rapidamente, elas foram preenchendo tudo o que a vista podia alcançar. Uma onda de aroma doce, leve logo brigou com o fedor característico do lugar pela atenção olfativa dos condenados. As pétalas acariciavam a pele queimada, suada e imunda destes últimos, em movimentos sutis, calmos, como se elas soubessem da dor que estes carregam nos corpos. O alívio e a estranheza, a contemplação e o medo (sim, por que não?), a gênese da alegria e a desconfiança trocaram olhares. “Que porra é essa?”, se indagavam. Os condenados viram aquilo sem entender nada. No entanto, à medida que o afago das pétalas foi alimentando os corpos de satisfação, muitos logo se renderam à situação. Sem nem pensar, fecharam os olhos e abriram os braços para as pétalas, deixando-as acarinhar e banhar ainda mais seus corpos, esquecendo instantaneamente do lugar de sua sina. Sorriam como nunca. Um sorriso sincero, espontâneo, de refrigério. Até se espantaram com o fato de ainda deterem a capacidade de sorrir... E de chorar, mas de alegria (...). Outros, no entanto, ainda se recusavam a acreditar no que estava acontecendo, olhando para tudo aquilo com os olhos arregalados de espanto, sem nenhuma reação, apenas perguntando um ao outro se o diabo tinha ficado doido. “Mas ora! Que tenha ficado!” E se juntaram ao primeiro grupo. Ainda houve aqueles cujo sofrimento enrugou profundamente a alma. “Pétalas nada irão fazer nada por mim”, e ficaram num canto. “Antes água do que isto”. Não os culpo.

Logo que caiam no chão, as pétalas eram tragadas pelas labaredas, em um encontro voraz, esfomeado, de súbita combustão. Mas logo vinham mais outras de cima (da onde, afinal?), e o espetáculo nunca parava. De longe, o diabo via tudo, de cima de uma montanha. Não estava gostando nada disso. Já ouviram aquela máxima de que felicidade alheia incomoda os outros? Pois é, foi o que aconteceu com o capeta. Aquela situação o perturbava. Era bonita, mas perturbava. Já ia mandar seus guardas darem uma surra naquela gente, quando as pétalas começaram a rarear. De trilhões, passaram à casa dos milhões. Dos milhões, às centenas. Das centenas, às dezenas. Das dezenas, a uma só. Uma. Que logo foi consumida pelo fogo. Não sobrou nenhuma. “Cadê, acabou”? Pelo visto, sim. “Ainda vem mais?” Não sei, quem sabe. Deu pena (...). Para piorar, as feridas começaram a arder agudamente de novo, o cheiro escroto e nauseante voltou a reinar, o calor ignorante se fez ser sentido novamente, e a fome e a sede voltaram a berrar. O diabo imediatamente mandou um dos seus funcionários fazer um inquérito sobre aquilo que acabaram de presenciar. E, para não perder o costume, mandou seus guardas darem uma surra naquela gente. Com tudo o que têm direito.

(...)

A chuva de pétalas não voltou a aparecer.
O inferno continuou funcionando como tinha que funcionar.
Os condenados continuam sofrendo.
Mas, de vez em quando, alguém ainda arrisca olhar para cima.


 

Artigo da autoria de Caio Carvalho.
Neuroses, humor tosco, arte e fascinação pela filosofia de vida dos filmes do Rocky Balboa. Entusiasta da bateria, do sax, da fotografia, da literatura e da sexologia. Sonha em poder, um dia, fazer uma jam session com o baixista Flea,o guitarrista Kevon Smith, o vocalista Eddie Vedder e o saxofonista Dana Colley. .
Saiba como fazer parte da obvious.

Comentários

Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do autor deste site sobre as matérias em questão.

Deixe o seu comentário

O e-mail é obrigatório mas não será mostrado no site ou cedido a terceiros. Seja cordial e educado. Comentários ofensivos ou pouco dignos não serão publicados.


Site Meter site statistics