a telha

Um espaço para reflexões, ensaios, contos, crônicas, críticas musicais e o que mais der na telha

Caio Carvalho

Neuroses, humor tosco, arte e fascinação pela filosofia de vida dos filmes do Rocky Balboa. Entusiasta da bateria, do sax, da fotografia, da literatura e da sexologia. Sonha em poder, um dia, fazer uma jam session com o baixista Flea,o guitarrista Kevon Smith, o vocalista Eddie Vedder e o saxofonista Dana Colley.

Crônica | Uma simbologia rítmica do amor (ou a quebra de paradigmas musicais)

Solo de bateria combina com declaração de amor?


grrr.jpg Esse caso fictício – ou piada, como preferirem – não é meu, vou logo dizendo. Um amigo imaginou (nem me lembro mais quem), mas os enfeites são de minha autoria: um homem, após a cerimônia de seu casamento, revela que preparou uma apresentação musical no intuito de homenagear sua recém-esposa e dirige-se rapidamente ao espaço onde estão os instrumentos dos músicos contratados. “Legal, legal, que romântico!”, clamam aqueles mais sentimentais. “É um solo de piano, com certeza, eu me lembro que ele tocava muito bem!”, se orgulha aquela tia pomposa. “Oh, se for Bach no violão, eu morro!”, se esperança a esposa. Nada. Passou direto pelo violão, pelo piano. Sentou-se na bateria. “Esse solo é para você, meu amor”: trrrrrrrrRRRRRÁ, CRASH, tum, tum, tum, tum, pá, pá, pá, pá, splash, splash, tum, tum, tum, tum, TÁ... Trrrrrrrrá, trrrrrrá, trrrá, tratratra, plum – bish e por aí vai. E todos parados, com cara de espanto, vendo aquele romântico de terno e gravata sentado na bateria, aplicando toda sua técnica e criatividade. Ponto, o caso acaba aqui.

Engraçado, estranho, constrangedor? Bem... Já consigo imaginar uns tapando as orelhas, outros consolando a noiva, outros comendo logo os salgadinhos, outros sentindo vergonha pelo baterista recém-casado, outros dando risinhos. Imagino-me também lá, sentado no canto esquerdo da igreja e observando tudo. É vero, é vero, confesso que também lançaria o habitual “que porra é essa?”. Convenhamos: geralmente essas coisas não acontecem em cerimônias pós-casamento. Mas continuemos: depois de cinco, seis minutos, o solo se encerra (friso: a técnica dele era impecável!). Silencio do pior tipo. O baterista levanta e olha para sua esposa. Não, ele não está debochando. Ela dá indícios, porém, de que vai chorar. “Não, não foi essa minha intenção, você sabe”, explica ele pelos olhos. “Que coisa horrível... Um solo de bateria?”, ela pergunta usando o mesmo recurso do marido. “Sandra, não duvide de minhas intenções, deixe-me explicar, parece até que você não me conhece...”. “O que tem para explicar?”, e sai andando, enfurecida, para fora da igreja. O diálogo silencioso está encerrado. O constrangimento coletivo impregna ainda mais o local. Ninguém sabe o que fazer. Sabem o que falar. “Que papelão, ein?”, comenta baixinho a mesma tia pomposa. “Menina, e não é?”, responde sua companheira de assento.

Irritado com o burburinho que se iniciou, o baterista pega o microfone e diz: “entenderam tudo errado! Amor só se expressa com instrumentos melódicos? Pensei que minha esposa, que eu pensei que me conhecesse, entenderia, e que quem me conhecesse entenderia também. O rufo inicial em crescendo significou o quanto meu afeto por Sandra foi crescendo desde o primeiro dia que a conheci. Logo depois, ataquei dois pratos de 19”: foi quando me explodi de paixão por ela. Aplico um samba em andamento rápido pra simbolizar a efervescência de minha vida após isso. Em seguida, uma virada forte e um silêncio de quatro compassos: essa hora representa o momento em que nos beijamos pela primeira vez. A ausência de notas simboliza minha mente que se silenciou naquele momento. E depois... Ah, porra, pra quê dizer isso tudo? Ela nem está aqui para eu me explicar!” E sai pelos fundos. Que pena, queria ouvi mais.

É... Espero que ela consiga entendê-lo.


Caio Carvalho

Neuroses, humor tosco, arte e fascinação pela filosofia de vida dos filmes do Rocky Balboa. Entusiasta da bateria, do sax, da fotografia, da literatura e da sexologia. Sonha em poder, um dia, fazer uma jam session com o baixista Flea,o guitarrista Kevon Smith, o vocalista Eddie Vedder e o saxofonista Dana Colley. .
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