a telha

Um espaço para reflexões, ensaios, contos, crônicas, críticas musicais e o que mais der na telha

Caio Carvalho

Neuroses, humor tosco, arte e fascinação pela filosofia de vida dos filmes do Rocky Balboa. Entusiasta da bateria, do sax, da fotografia, da literatura e da sexologia. Sonha em poder, um dia, fazer uma jam session com o baixista Flea,o guitarrista Kevon Smith, o vocalista Eddie Vedder e o saxofonista Dana Colley.

Sobre discos ruins

O deplorável em forma de discos


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Discos ruins são quase as piores coisas materiais existentes na face da Terra. Quem me conhece (ou pelo menos já leu meus dois textos nada populares sobre fezes: Breve ensaio sobre as fezes e Ensaio sobre as fezes II ) sabe que estes discos só perdem para o cocô, o lixo e as baratas. Mas afinal, o que faz um disco, ou um álbum musical (para sermos mais técnicos), ser considerado ruim? Eu não faço a mínima idéia. Isso depende, como todos já sabem, do juízo de gosto, e o juízo de gosto não é lógico, e sim estético, como já dizia Kant. Tal juízo não produz nenhum conhecimento a cerca dos objetos, apenas o sentimento de prazer ou de desprazer, chamado pelo próprio filósofo prussiano de “sentimento de vida”. Sentimento este compartilhado por todos, mas nada universal no que tange às preferências. Não há nele validade de ordem objetiva. (Convenhamos: falar isso é o mesmo que explicar para o Stan Lee a estória do Homem-Aranha... Mas é necessário que seja dito, mesmo que brevemente). Aqueles discos que eu digo serem ruins, portanto, podem ser agradáveis a outra pessoa. Tudo bem, é a vida. No entanto, os álbuns que eu avaliarei aqui, na minha concepção (tudo aqui será baseado somente na minha concepção, é bom deixar claro), não são discos ruins “comuns”. Estou falando de gravações que não possuem nenhum tipo de bom senso, dessas que parecem que a banda teve a total intenção de melecar tudo, da pior maneira possível! Portanto, eu avalio que será raríssimo alguém ter qualquer apreço por algum dos dois discos aqui discorridos por mim. Mas como eu adoro o álbum “St. Anger”, do Metallica (considerado por muitos o fundo do poço da banda), estarei preparado para tudo e para qualquer tipo de comentário.

A título de organização, coloquemos as músicas da seguinte maneira: existem as composições de qualidade que são boas que você gosta/não gosta; as de qualidade que são ruins (isso não é nenhum contrasenso) que você gosta/não gosta; as músicas ruins que você acha legal (essas são o grande perigo) e as músicas ruins que você não curte mesmo. Não irei analisar álbuns de sertanejo universitário, de funk carioca, de axé, de forró a la Calcinha Preta, de pagode romântico, de bandas de rock coloridas, dos Teletubbies, da Xuxa e nem jingles políticos. Isso são exemplos, na minha humilde opinião (isso é só uma opinião, tentem não se zangar com o que vocês lerão agora), de músicas pertencentes aos dois últimos grupos. Nesta crônica, irei falar sobre músicas de qualidade que são ruins. Sim, estou tratando o juízo de gosto como se fosse um juízo lógico, “sentindo a necessidade de assentimento universal de um juízo cujo fundamento de determinação não é objetivo (lógico ou moral)”, como diz Marlon Baptista no texto “O juízo de gosto segundo Kant”. Mas em nenhum momento eu disse que não seria parcial.

O meu critério está sendo vago? Bem, eu não usaria essa palavra. Meu critério é simples e não abre mão da pura idiossincrasia. De uma maneira ou de outra, no final das contas, todas as críticas que se respeitam (as sinceras) vão se basear majoritariamente neste último elemento, sejam elas peritas (Rolling Stone, Bravo!) ou amantes, como as minhas (“amadoras” é um termo muito autodegradante).

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Vamos começar com o menos ruim dos discos aqui analisados: Zenyatta Mondatta (1980), o terceiro álbum de estúdio do The Police. Por mais que eu adore essa banda, por mais que o baterista Stewart Copeland continue nos presenteando nesse trabalho com precisão nas notas e com texturas sonoras de primeira, tenho que ser franco: este disco é um completo festival de medianidade e opacificidade. Tal álbum até começa ensaiando umas composições bem... Esforçadas, digamos assim, como “Don't Stand So Close To Me” (de refrão chato e de temática icônica sobre o professor seduzido por uma aluna) e “Driven To Tears”, reflexiva, que de longe é a melhor do álbum (mesmo com o solo de guitarra curto e bizarramente terrível de Andy Summers ), mas que não fazem diferença no resultado final. Na sequência, temos: "When The World Is Running Down, You Make The Best Of What's Still Around", contraditoriamente pessimista, cuja outra versão, melhor, mais sofisticada e mais esperta, presente no álbum duplo ao vivo “Bring on the Night”, da carreira solo do vocalista e baixista Sting, é mais válida de se apreciar; "Canary In a Coalmine", bem alegre, bobinha e de metáfora eficiente, mas tosca; "Voices Inside My Head", de melodia vocal sofrível; "Bombs Away" e “De Do Do Do, De Da Da Da", outras músicas também bastante esforçadas, mas consideravelmente insossas; “Behind My Camel”, uma instrumental que parece trilha sonora de filme B de terror; “Man In A Suitcase”, um ska que parece que foi arranjado pelo Restart; “Shadows In The Rain”, praticamente um projeto ainda inacabado de oásis; e, fechando com chave de manga (como diria Vieira, meu professor de química dos tempos de colégio), temos a outra instrumental e fraca “The Other Way Of Stopping”. Se vocês tem algum inimigo, dê a ele de presente “Zenyatta Mondatta”, sem dúvidas. Ou espere o álbum seguinte. Ele é bem pior.

O segundo disco se chama “Confusion is Sex” (1983) e quem assina embaixo é a banda de “rock alternativo” Sonic Youth. Tal álbum, o primeiro da carreira deles, faz parte perfeitamente daqueles trabalhos que conseguem surpreendentemente deixar o underground mais underground ainda. Bom, não, isso não foi exatamente um elogio. Tudo em excesso não é saudável, exceto a própria saúde. Tanto o underground radical como o mainstream extremo podem pôr em risco a qualidade da música produzida. A característica dissonante e aparentemente negligente – daí alternativa – desse primeiro álbum do Sonic Youth não é nova. Ela bebe da mesma fonte de vários outros artistas de vanguarda que curtiam aquela parada de uma música mais “livre” (leia-se aleatória, pelo menos no meu entender), como o pianista John Cage ou o saxofonista Ornette Coleman, sendo este último o precursor do free jazz, estilo que se origina nos Estados Unidos na década de 50 e 60. Os timbres, a ambientação e a lógica de disposição das notas nas composições do Sonic Youth não são exatamente os mesmos da proposta dessa galera, claro, mas a idéia de expandir as fronteiras daquilo considerado música está lá. A influência vem daí. Um exemplo dos frutos relativamente recentes do free jazz é o noise, estilo de música que usa em sua maioria sons considerados, em circunstâncias normais, puramente barulho, zoada. E é dessa mesma forma que o Sonic Youth inicia o seu “Confusion is Sex”: “(She is in a) Bad Mood” nos presenteia inicialmente com um som de guitarra tosco, desleixado e moribundo, que deslancha numa composição soturna, a qual me fez lembrar levemente da aura sombria de “Black Sabbath” – música que abre o primeiro álbum homônimo da idolatrada banda de mesmo nome – mas sem a consitência e a criatividade do Sabbath (e, mais do que obviamente, sem os poderosos riffs de Tony Iommi). Tal aura acompanha a segunda música, “Protect Me You”, mais blacksabbatheana ainda, pelo menos no que consta à ambientação. É interessante notar que ela não alcança clímax em momento algum, deixando a audição do álbum já bem tediosa. A terceira, “Freezer Burn/ I Wanna Be Your Dog”, mescla toscamente a construção de um clima de tensão com um cover dos Stooges, cover este que me faz lembrar os arranjos de certa banda de Seatle (...). O começo da quarta faixa, “Shaking Hell”, de lugubridade bizonha, me vem como um possível tema alternativo para o Besouro Suco, personagem de Michael Keaton, presente no filme “Os Fantasmas se Divertem” (Beetlejuice, 1989), mas tal faixa logo arrecada, depois de 1 minuto e 22 segundos, um ethos mais dramático, sugestivo e bem menos bizarro. A quinta,“Inhuman”, de arranjo porco e torpe, faz jus ao nome, e resume bem o som do Sonic Youth. “The World Looks Red” e “Confusion is next”, respectivamente a sexta e a sétima faixa, têm a alma punk dos Sex Pistols (apesar dessa última ter um começo apático e depressivo), mas um corpo que... Bem... Até os Sex Pistols soam mais limpos que o Sonic Youth. A nona, “Making the Nature Scene”, nos apresenta um profícuo riff de contrabaixo desperdiçado por uma condução equivocada do baterista Bob Bert (que toca somente nessa faixa e no cover dos Strooges, já que foi Jim Sclavunos quem gravou a maior parte dos takes informes de bateria) e pela interpretação chocha da vocalista Kim Gordon, que divide o status de crooner da banda junto com Thurston Moore. São estes últimos, aliás, que juntamente com Lee Ranaldo, são responsáveis pelas guitarras e pelo contrabaixo. Por fim, como nona faixa, temos a instrumental “Lee is Free”, a qual atesta desnecessariamente o que já está mais do que claro nas letras incógnitas e sinistras do álbum e nos arranjos que as envolvem: a fixação que a banda nutre pelo grotesco. Presentear alguém com “Confusion is Sex” é uma competente forma de demonstração de malevolência. Nada mais torturante que ouvir Sonic Youth. Nada mais.

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Referências:

BAPTISTA, Marlon Baptista. O juízo de gosto segundo Kant.


Caio Carvalho

Neuroses, humor tosco, arte e fascinação pela filosofia de vida dos filmes do Rocky Balboa. Entusiasta da bateria, do sax, da fotografia, da literatura e da sexologia. Sonha em poder, um dia, fazer uma jam session com o baixista Flea,o guitarrista Kevon Smith, o vocalista Eddie Vedder e o saxofonista Dana Colley. .
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