a telha

Um espaço para reflexões, ensaios, contos, crônicas, críticas musicais e o que mais der na telha

Caio Carvalho

Neuroses, humor tosco, arte e fascinação pela filosofia de vida dos filmes do Rocky Balboa. Entusiasta da bateria, do sax, da fotografia, da literatura e da sexologia. Sonha em poder, um dia, fazer uma jam session com o baixista Flea,o guitarrista Kevon Smith, o vocalista Eddie Vedder e o saxofonista Dana Colley.

O cult indigesto: Bitches Brew, de Miles Davis

"O que? INDIGESTO? Herege!"


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Aviso: este texto possui doses tiranossauricas de parcialidade.

Certa vez, postei na página de um apurado e seleto grupo do facebook, o Jazz-MA , um pequeno desabafo contra aquele cultuado álbum Bitches Brew do trompetista norte-americano Miles Davis. Acusei o álbum de indigesto, mesmo sendo ele um marco importante na história da música do século XX, e perguntei qual era a opinião dos membros do grupo sobre essa obra. Recebi uma réplica educada e tão bem informada e sintética de Augusto Pellegrini que eu quero começar esse texto com essa resposta. Transcrevo-a aqui: “não concordo com o termo ‘indigesto’ aplicado ao Bitches Brew. Acho que ele poderia ser aplicado na época do seu lançamento em 1970, por se tratar da apresentação de uma contracultura jazzística total. Hoje em dia ele é apenas um marco de tantas coisas fusion e vanguardista que surgiram nesses últimos 40 anos. Bitches Brew é o tipo de álbum que precisa ser analisado com carinho para que o recado revolucionário do jazz-fusion possa ser entendido. É meio difícil definir, mas Jimi Hendrix (e Frank Zappa, e Jeff Beck, e outros) faziam o rock ‘jazzificado’ contando com elementos agudos de blues, ao passo que Miles Davis, Gil Evans, Joe Zawinul, Jeff Lorber e outros, faziam o jazz com elementos agudos do rock, o que se convencionou chamar de fusion. Se eu estiver errado, peço que me corrijam”.

Bom, creio, que depois de tal resposta, não posso falar merda a partir daqui. O terreno está preparado. Falar mal de Bitches Brew, como vocês podem ter percebido, não é lá uma boa idéia. É arriscado, não pega bem. A importância do álbum vai além de meu simples gosto, do seu, do de todo mundo. É um marco e não tem o que discutir quanto a isso. 1 X 0. Miles Davis, o Camaleão do Jazz, lançou esse álbum em 1970 pelo selo Columbia, em meio à popularidade do rock – mas é lógico que a popularidade desse gênero não foi o motivo que fez Miles aprochegar o jazz a ele. Como o próprio trompetista disse: “eu tinha visto o caminho do futuro com minha música, e ia segui-lo como sempre fizera". E completa: "não para a Columbia e suas vendas de discos, nem para tentar conquistar alguns jovens compradores de discos brancos. Mas por mim mesmo”. Miles já vinha matutando essa idéia de eletrificar sua banda desde 1969, com o álbum In a Silent Way, um prenúncio do que viria a ser o Bitches Brew. Tal sucessor glorioso foi, nas palavras de Rafael Teixeira, “um assombro. A reunião de duas baterias e dois (às vezes, três) pianos - elétricos, uma heresia - na mesma música, a inclusão de sonoridades nunca dantes navegadas no jazz e o uso sem precedentes de tecnologias de estúdio - loops, ecos, edições - transformaram o disco em um marco. Só não se sabia direito do quê”.

Há quem diga que o Bitches não é jazz, enquanto outros acham tal negação uma bobagem. Luiz Orlando Carneiro chega a afirmar que, para ele, o álbum é “um monumento à música pop planetária”. Bem, o que precisamente ele é, eu não sei, mas uma coisa eu arrisco em dizer: aquilo não faz referência a nada pop que eu conheça. Seus timbres podem até fazer... As músicas, a ambientação, não. Pelo menos para mim, dando uma de Carneiro. Que os deuses do jazz me perdoem e que os fãs mais chatos desse estilo não grilem com isso, mas acho Bitches Brew uma total apatia desleixada, despojada até demais. Poço de viagens desperdiciosas e extraordinariamente abstrato, ele só “perde” para o experimentalismo extremado de John Cage, na minha chata opinião. “Então tu és a favor do pop?”, perguntarão alguns. Não necessariamente. Como eu disse no meu texto “Sobre discos ruins”, eu acho os extremos muito perigosos. As receitas musicais que levam pitadas além da conta de mainstream ou de underground vão ficar salgadas em horrenda demasia. É como comer sal com batatas fritas e não batatas fritas com sal. E Ornette Coleman e o seu free jazz, também não são estranhos? Bom, mesmo sendo cara aos nossos ouvidos aquela liberdade toda que o Ornette defendeu ao solista no jazz (e à banda em si), eu ainda consigo sentir, impressionantemente, certa noção estética nas composições dele, coisa que eu não consigo encontrar fácil no Bitches. Mas isso é simplesmente juízo de gosto. Relembrando Kant, não há nada lógico e universal nesse tipo de juízo.

Bom, eu disse que não poderia falar merda depois daquela resposta do Pellegrini... Mas deve ter saído alguma coisa com essa consistência, e possivelmente mais de uma vez. Mas tudo bem. Sinto que tirei um peso do peito. Eu tinha que desabafar. Dos três grandes marcos desencadeados por Miles Davis, a saber: The Birth of Cool (cool jazz), Kind of Blue (modal jazz) e o já comentado Bitches Brew (fusion), este último é o único que me incomoda. Não quero soar como, por exemplo, o trompetista Wynton Marsalis, que disse na época do lançamento do Bitches, através da impressa, que Miles, com esse álbum, parecia um velho que queria ser jovem. Minha implicância com o álbum não advém do passo que Miles tomou. Achei mais do que necessária essa fusão do jazz com elementos do rock. Meu disparate foi apenas ter achado basicamente as músicas do “efervescência das vadias” (em tradução livre) ruins. Muito ruins. Foi mal, Miles.

Fonte de referência: "Milhas à frente", de Rafael Teixeira

O álbum completo:


Caio Carvalho

Neuroses, humor tosco, arte e fascinação pela filosofia de vida dos filmes do Rocky Balboa. Entusiasta da bateria, do sax, da fotografia, da literatura e da sexologia. Sonha em poder, um dia, fazer uma jam session com o baixista Flea,o guitarrista Kevon Smith, o vocalista Eddie Vedder e o saxofonista Dana Colley. .
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