a telha

Um espaço para reflexões, ensaios, contos, crônicas, críticas musicais e o que mais der na telha

Caio Carvalho

Neuroses, humor tosco, arte e fascinação pela filosofia de vida dos filmes do Rocky Balboa. Entusiasta da bateria, do sax, da fotografia, da literatura e da sexologia. Sonha em poder, um dia, fazer uma jam session com o baixista Flea,o guitarrista Kevon Smith, o vocalista Eddie Vedder e o saxofonista Dana Colley.

Crônica| A cabeça feita de dor e a raiva roubada

O que acontece quando a dor é tão forte a ponto de fazer com que você não consiga nem sentir raiva?


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Não sei por que me prontifiquei a escrever esta experiência. Talvez fosse a última fonte de prazer que pude me lembrar. Fonte de pingos ralos e escassos. E sujos. Enquanto escrevo, a fera que está em minha cabeça dorme. Alívio. Antes ela não me deixava nem dormir! Não me deixava nem sentir pena de mim. Tudo bem, minto. Um pouco de pena senti (isso ela não pôde me tirar!). Mas a impossibilidade da raiva foi algo inédito. Estou sendo sincero, acredite: a fera na minha cabeça (localizada na parte frontal esquerda, para ser mais exato) não me deixou sentir raiva! A fera, meus leitores, para esclarecer, era a dor. Uma puta dor. Intensa, latente, incansável, profissional!

A dor só me permitia senti-la, nada mais, acredite se quiser, e ela só queria que eu a sentisse! Clamava escandalosamente pela minha atenção. Estava me desejando. Um desejo doente, bizarro. Ela me queria só para ela e só faltou se matar para querer chamar meu tento! Antes tivesse feito isso! Eu a amaria, assim! Mas não. Ela queria que eu fizesse isso sozinho. O que evidência um total egoísmo por parte dela... E sadismo! Ela adorou meu sofrimento! Adorou toda a atenção que, forçosamente, dei a ela. Minha cabeça ia rachar e ela lambia os beiços. Nem gritar eu conseguia e ela se molhava de tesão por isso. E quando eu descobria um caminho para gritar, ela, maliciosa e receosa, se intensificava ainda mais e sussurrava em meu ouvido: “você é meu. Não é do grito. Nem da raiva. Nem seu. Meu!”. Caso parecido com o filme “Louca obsessão”. Quem viu, sabe!

Com o pouco que força que ainda me restava, fui ao neurologista. Eu queria separação, um divórcio! Naquele momento o médico virou juiz – e ele nem se deu conta disso. Eles nunca se dão conta, na verdade. Não percebem que estão lá para separar casos de amores insanos e sádicos. De amor não! Isso não pode ser amor! De paixões! Paixões obsessivas e não correspondidas! As doenças têm tanta paixão por nós, querem tanto nossa atenção, que desejam que nós morramos por elas. Isso me faz lembrar, por acaso, um texto do nosso grande cronista Nelson Rodrigues. Um texto que ele relata um caso realmente de amor. Vamos ao caso (perceberão que há uma grande relação com a paixão das doenças): era um casal jovem. Ele de dezessete e ela de dezesseis. As famílias aprovavam o namoro. Já iam ficar noivos (!). Estava tudo lindo. Certo dia, porém, o casal sai para visitar uma tia e lá não chega. Dia seguinte, encontraram os dois juntos e mortos em um determinado local. Ao lado, um vidro de desinfetante e um bilhete assinado por ambos, no qual estava escrito “morremos felizes”. Nesta hora, o cronista revela o espanto que sentiu quando viu esta matéria no jornal e solta uma genial conclusão: “quem nunca desejou morrer com o ser amado, não conhece o amor, não sabe o que é amar”. E encerra a crônica. Interessante.

Este caso dos jovens suicidas enamorados é parecido, repito, com o desejo ardente das doenças por nós. Que não é amor, insisto. Porém sei que alguns torcem a cara e dizem que nem o próprio amor escapa de ser algo, digamos, tão malévolo assim. “Todo amor é amor-próprio”, já dizia Nietzsche, lembram? Discordo. Diria que toda paixão é amor-próprio. Esta sim é centrada no “eu” e no que o outro pode me proporcionar de prazer. Amor é outra coisa. Difícil, sim, mas nada impossível. Gosto desta frase que Liane Alves escreveu sobre o amor na revista Vida Simples: é “pedir licença e tirar a si mesmo da frente”, em favor do outro. Minha dor, que foi o cartão de visita de certa doença (que já direi qual é), não me amava, não queria morrer comigo. É diferente. Queria que eu morresse por ela, mesmo que fosse à base da marra! Mas deu para me separar! O divórcio foi concluído e pude resgatar minha raiva, minha gostosa, deliciosa raiva! Os “juízes” cumpriram seus papeis: o neurologista viu que se tratava, na verdade, de uma sinusite, e o otorrinolaringologista confirmou o diagnóstico deste, passando uma santa medicação. Hoje a fera está imobilizada e amordaçada e tenho certeza que vive ainda sonhando com sua paixão mórbida. Ainda bem. Não espero que tenha morrido. Seria uma saída muito suave para ela. Espero que esteja sendo carcomida por um mastodôntico sofrimento e por uma demente agonia! E que permaneça assim, na dor da falta de liberdade, na dor do sonho impossível!


Caio Carvalho

Neuroses, humor tosco, arte e fascinação pela filosofia de vida dos filmes do Rocky Balboa. Entusiasta da bateria, do sax, da fotografia, da literatura e da sexologia. Sonha em poder, um dia, fazer uma jam session com o baixista Flea,o guitarrista Kevon Smith, o vocalista Eddie Vedder e o saxofonista Dana Colley. .
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