a telha

Um espaço para reflexões, ensaios, contos, crônicas, críticas musicais e o que mais der na telha

Caio Carvalho

Neuroses, humor tosco, arte e fascinação pela filosofia de vida dos filmes do Rocky Balboa. Entusiasta da bateria, do sax, da fotografia, da literatura e da sexologia. Sonha em poder, um dia, fazer uma jam session com o baixista Flea,o guitarrista Kevon Smith, o vocalista Eddie Vedder e o saxofonista Dana Colley.

Top 5 das molecagens que você pode fazer com suas bandas de rock favoritas

Um pouco de molecagem nesse começo de 2013.


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Gozação. Chacota. Zombaria. Todo mundo gosta, né? Desde que não seja com você. Aí você tem duas opções: ou sorri estrategicamente e leva tudo numa boa na marra, ou não consegue dar uma de ator e exprime a ambrosia dos espertinhos (leia-se “malas”) ludibriantes: a zanga. Ou você pode fazer como eu faço (que é uma mistura dessas duas opções): dá um sorrisão bem franco e manda com firmeza, mas com um sincero bom humor, a pessoa tomar no rabo. Simples. Aqui não há espaço para atores... Nunca funciona, mas de longe é a melhor opção.

Eu não consigo zombar da cara daqueles com os quais interagi e teci vínculos afetivos ao longo da vida, mesmo sendo estes meus amigões – só se eles começarem as brincadeiras galhofas comigo. O que não quer dizer que vou lançar uma réplica zombeteira perfeita. Isso quase nunca acontece. A injúria é a minha aliada salutar nessa hora, como eu já havia dito – o que não deixa de ser um escárnio, pelo menos pra mim. É um escárnio primitivo, digamos assim.

Afirmo: essa minha inabilidade de ter a iniciativa do deboche, juntamente com a elaboração dele, nessa condição, não é estranha. Seria se eu tivesse esse problema com aquelas pessoas que saem com frequência na mídia e que fazem e falam besteira. Mas esse é o escárnio oriundo da implicância, da antipatia. Existe o “bom” escárnio. Justamente este exercido, por exemplo, de amigo para amigo. Justamente este o qual não consigo direcionar aos meus próprios amigos, mas que sei aplicar muito bem nos artistas em geral. Este é o escárnio com o qual irei trabalhar nesse texto.

Todo artista lembra outro. É natural. Temos as influencias e os influenciados. Mas o que acontece quando você consegue perceber, nem que seja por segundos, uma convergência, mesmo que mínima, entre estilos totalmente diferentes, que não tem nada a ver? Você faz que nem eu: sacaneia. Sou o caçador de homologias estranhas entre artistas, entre músicas. Elas não valem o que o gato enterra, mas gosto delas, divirto-me com elas. Enumero abaixo, assim, cinco exemplos dessa minha desavergonhada molecagem e espero que vocês também se divirtam.

5 e 4) The Police/ Whitesnake:

Essas duas bandas já foram comentadas em dois textos meus que também saíram n’A Telha. E justamente o que eu direi aqui já foi, de fato, escrito nesses textos. Não será, portanto, uma observação inédita – pelo menos no que tange a essas duas bandas. Penso, entretanto, que elas ainda são válidas, pois são pertinentes. Afinal, o que diabos colocaram no prato do The Police para eles comporem “Behind My Camel”? Ou melhor: o que foi colocado no prato do Andy Summers para ele conceber isso, já que ele a compôs sozinho? Como eu já havia dito, parece trilha sonora de filme B de terror. Curiosamente, tal composição ganhou o Grammy de 1982 como a Melhor Performance de Rock Instrumental, e eu até entendo o porquê. Ela triunfou mais por ser interessante do que pela sua qualidade. Critério extremamente perigoso em minha opinião. Mas vá lá, fazer o que, né?

No que tange à música do Whitesnake, “Straight for the Heart”, a comparação é mais cruel, mas é uma das quais mais me faz rir. O saldo final da composição não é ruim, mas o problema está em seu começo. Para entender isso, aconselho vocês a abaixar todo volume da TV quando estiver passando a abertura da Tv Globinho, e colocar pra tocar os vinte dois segundos iniciais dessa música da banda da cobra branca . Acreditem: isso vai casar melhor do que o Mágio de Oz e o Dark Side of The Moon (...).

3) Santana:

Como se não bastasse eu desconfiar que o guitarrista Carlos Santana possa ter sido o pai do axé, lá vou eu dizer que ele também já fez música de corno. Mas vocês hão de concordar comigo. “I Love you much too much” é uma música das Andrews Sisters, um conjunto vocal norte-americano formado pelas irmãs LaVerne Sophie, Maxene Angelyn e Patricia Marie Andrews, as quais estiveram na ativa entre o final dos anos 30 e meados da década de 60. A versão original do grupo vai na onda da canção americana, mas a versão instrumental do guitarrista bigodudo soa fortemente como um brega, principalmente nos seus cento e dez segundos iniciais. A melodia vocal das irmãs foi transposta para a guitarra e têm-se a impressão de se estar ouvindo Reginaldo Rossi... Sem o Reginaldo Rossi. A falta de letra é notória, mas o sentimento se mostra o mesmo deste tipo de música. O feeling do eu lírico das irmãs Andrew pode não ser de quem foi traído, mas a interpretação de Santana dá margens para conjecturas dessa linha. Queima, raparigal!

2) Europe:

Ok, tudo bem: “The Final Countdown” é uma boa música, apesar dos mínimos pesares, como uma letra meio bobinha e um começo meio pomposo. A melodia, no entanto, é bem apoteótica e há uma virada de bateria do balacobaco antes do inspirado solo de guitarra. Mas vocês já pararam pra pensar que essa música tinha tudo para ser usada no encerramento daquele ido programa dos anos 80 e 90, o famoso Xou da Xuxa, que fazia a alegria da gurizada? A letra, de temática voltada para viagens especiais, contribui totalmente com esse resultado (juntamente com a já comentada introdução afetada) uma vez que a Xuxa, ao final do programa, como todos sabem, embarcava em uma nave – que chegou a ser enfeitada, em uma de suas várias versões, com lábios carnudos em alto relevo (!) – e ia “embora” da Terra para retornar no próximo programa. E ainda, como se não bastasse isso, o eu lírico da música, depois de falar abobrinhas, inventa de nos dizer que está certo de que sentirá a falta “dela” (“I'm sure that we'll all miss her so”)... E eu fico me perguntando perdidamente: quem diabos seria, afinal, “ela”? A rainha dos baixinhos, talvez...

1) Iron Maiden:

Qual é a maior sacanagem que você pode fazer com uma banda de rock? Tirando a mais óbvia (chamá-la para fazer um show em São Luís do Maranhão), acredito que essa sobre a qual falarei ganha de todas essas comentadas até agora. Ela nos faz lembrar aquela lenda de que todos os músicos de forró (não o forró tradicional, claro) são, na verdade, metaleiros que precisam ganhar a vida vendendo suas técnicas refinadas, aprendidas ouvindo Metallica e Dream Theater, para tocar, nessas casas de show, músicas como “Empinadinha”, da banda Garota Safada, ou “Xonou Xonou”, da banda Calypso, no intuito de pagar suas contas no final do mês. Portanto, o que eu direi aqui deve ser encarado como uma “linha cruzada” entre realidades que possuem, se não potencialmente, mas “folcloricamente”, alguma relação: “The Ides Of March”, a qual inicia o ótimo álbum “The Killers” do Iron Maiden, tinha tudo para ser a introdução de uma possível música desse forró modernizado que surgiu em meados dos anos 80 no Ceará e que todos conhecem. Até os desenove segundos da faixa, nada de mais. Você percebe que trata-se claramente de uma banda de metal. No entanto, do vigésimo até o quadragésimo segundo, o guitarrista lança mão de notas mais agudas, de timbre similar ao usado nessas bandas de forró. No quadragésimo primeiro segundo, contudo, o Iron volta a soar como uma banda de metal, mas por um bom tempo você jura que irá ouvir Joelma ou Wesley Safadão gritar uma frase de efeito, dando a deixa para o batera aplicar aquela virada naqueles tom-tons de afinação doce, fazendo com que todos os músicos da banda toquem aquele estilo odiado por 10 entre 9 headbangers. Detalhe: esse álbum, “The Killers”, data de 1981 e, portanto, advém da mesma década das investidas comerciais do produtor musical e empresário Emanuel Gurgel, precursor desse forró desvirtualizado e que fez bandas como Mastruz com leite e Cavalo de Pau ganharem grande sucesso. Fico me perguntando se Steve Harris, baixista que compôs “The Ides Of March”, juntamente com várias outras presentes no álbum em questão, chegou a trocar alguma idéia com o Gurgel sobre construção de clima nas introduções das músicas...


Caio Carvalho

Neuroses, humor tosco, arte e fascinação pela filosofia de vida dos filmes do Rocky Balboa. Entusiasta da bateria, do sax, da fotografia, da literatura e da sexologia. Sonha em poder, um dia, fazer uma jam session com o baixista Flea,o guitarrista Kevon Smith, o vocalista Eddie Vedder e o saxofonista Dana Colley. .
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