a trompa lounge

Olhares Sobre a Música Portuguesa

Rui Dinis

Rui Dinis é um bi-pai 'alentejano' nascido em Lisboa no ano de 1970, dedicado desde Jan de 2004 à divulgação da música e dos músicos portugueses em a-trompa.net

Trios de ataque: Lululemon, Pão e Black Bombaim

Felizmente, não vão faltando novos nomes no seio da moderna música portuguesa. Estes assumem-se como trios, movimentam-se em áreas diferentes e editaram neste último ano discos que valem bem a nossa atenção. Fiquemos com Lululemon, Pão e Black Bombaim.


"Flying Fortress" de Lululemon

O disco arranca e "Blonde Weather" diz quase tudo o que há para dizer sobre "Flying Fortress", o álbum de estreia dos Lululemon. Essencialmente, diz-nos que não há limites para a nossa capacidade de viajarmos no tempo e no espaço. Não é certa a latitude e a longitude de "Flying Fortress", ao contrário do estado emocional que provoca a sua contínua audição. E isso é claro, a tendência é para uma audição contínua. Uma continuidade feita de emoções fortes. 

capa de flying fortress

Acompanhado por "Thee Ol’ Reliables"uma reedição composta por 2 EPs e a faixa bónus de "Cpt. Tonic", "Flying Fortress" é uma vigorosa surpresa sonora. O lo-fi instrumental do grupo de Pedro Ledo, Luís Matos e Tiago Sales, vive em pleno e bem encostado a uma espécie de blues reinventado, psicadélico, a espaços transformado numa coisa muito surfcore, trashblues e poscountry. Se é por terras do Tio Sam que os Lululemon mais gostam de navegar, já o tempo confunde-nos com as suas inúmeras possibilidades. "Flying Fortress" é um disco de tempos vários e paisagens áridas, um deserto sonoro de emoções contrastantes. É mesmo para ouvir.

O "Pão" que sacia

Não parecendo, o disco de estreia dos "Pão" é na verdade um contínuo sonoro, coisa de um prazer quase interminável. Composto por três faixas apenas, "Gods wait do delight in you" (6:37), "Dyson Tree" (13:40) e "It was all downhill after the sling" (23:53), "Pão" é um devaneio experimental levado até às últimas consequências, com alguma loucura, como quem aproveita o muito tempo que tem para dizer tudo o que quer, o que não quer, o que sabe e o que não sabe; com ou sem sentido.

O que ouvimos nesta estreia dos Pão, um trio formado por Tiago Sousa (órgão e harmónio), Travassos (electrónica e manipulação de objectos) e Pedro Sousa (saxofone tenor), é uma espécie de sessão tântrica, assente num longo movimento drone, cortado a espaços por pulsões desgovernadas, complexas, diálogos a três pincelados pelo prazer único do improviso. É uma luta constante, um prazer prolongado que tem o seu clímax na última e longa faixa do disco. Num dramatismo crescente. "Pão" é um disco para gente sem pressa, ou melhor, para gente com pressa de se deliciar com a diferença.

Os titânicos Black Bombaim

A enorme surpresa dos Black Bombaim. Positiva certeza. O disco chama-se "Titans" e é o mais recente álbum dos Black Bombaim. Quando nos parecia suficiente ser atropelado pelo dilúvio sonoro que é a arte do trio barcelense, eis que este se permite surpreender-nos em toda a linha; do princípio ao fim. Não que a torrente eléctrica tenha perdido pujança e ficado pelo caminho com malhas inconsequentes, nada disso. Nada disso

"Titans" é um objecto claramente exploratório, um objecto marcado pelo cruzamento com novas ideias de composição e interpretação. Nunca se duvida que é ainda a electricidade quem mais ordena, mas os contributos dados por um  clã de convidados reunido em torno de "Titans" fez deste disco um brilhante momento de rock; sempre stoner; sempre diferente. Entre os convidados, estão os nomes de Isaiah Mitchell (Earthless e Howlin Rain), Noel V. Harmonson (Comets on Fire e Sic Alps), Steve Mackay (The Stooges) e Adolfo Luxúria Canibal, entre muitos, muitos outros. É deles parte deste sucesso. Enorme e obrigatório.


Rui Dinis

Rui Dinis é um bi-pai 'alentejano' nascido em Lisboa no ano de 1970, dedicado desde Jan de 2004 à divulgação da música e dos músicos portugueses em a-trompa.net.
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