abismo

Uma crítica profunda

Edivan Santtos

Colunista, poeta, escritor. Já basta.
http://edivansanttos.com/biografia/

Ensine filosofia com arte

Não é necessário ser filósofo pra entender filosofia. Muito menos ser professor pra ensiná-la. Se alguém não entender de início, não o julgue como incapaz. Nem todos aprendem ao mesmo ritmo. Use a arte e desperte esse conhecimento naqueles que dele tendem a manter distância.


quedadeicaro.jpeg A queda de ícaro, Peter Paul Rubens

Uma difícil tarefa é fazer alguém sentir interesse pela filosofia. Tida como uma disciplina de caráter enjoativo e sem finalidade, o seu estudo é por vezes muito ignorado. Alunos pouco se interessam, demais pessoas pouco leem. Uma das formas para despertar o interesse poderia ser o uso de obras de arte. Não somente falar, mas mostrar uma pintura, escultura e falar sua semelhança com o assunto poderia ser um estopim pra o interesse dos desinteressados.

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Os filósofos antigos acreditavam que todas as coisas tinham um elemento constituinte. Água, fogo, ar, e fogo . Entretanto, Empédocles acreditava na unidade desse quatro elementos.

f2nw8didseu_madruga_se_olhando_no_espelho.jpg Homem se olhando no espelho

A imagem acima pode ser usada para falarmos sobre um grande princípio lógico advindo da filosofia antiga e que ainda reina em várias situações. O princípio da identidade. A é A. Uma coisa é ela mesma enquanto condição e pensamento. Não pode, ao mesmo tempo e sob a mesma situação, ser B. Ou seja, nossa identidade está para provar que não podemos ser outra pessoa. Se lida por inteiro pode causar confusão aos iniciantes da filosofia, mas quando utilizada com exemplos fica mais plausível e deixa de parecer redundância.

2011-01-23-matrix1.jpg Cena do filme Matrix 2003.

No primeiro filme da trilogia, Neo, pesonagem de Keanu Reeves, é quetionado se acredita no que está diante dos olhos, se o que vê é real. Então Morfeu (uma referência ao Deus do sono), personagem de Laurence Fishburne pede pra ele provar que é real. Em outro momento eles levam o personagem principal, Neo para conhecer o Oráculo. Um ser que possui as respostas para as peguntas e pode prever o futuro. Na filosofia antiga o mais famoso Oráculo foi o de Délfos dedicado ao deus Apolo, cuja entrada tinha a inscrição : Ó homem, conhece-te a ti mesmo e conhecerás os deuses e o universo. Como os humanso não conseguiam entender as mensagens dos deuses a sacerdotisa Pítia fazia uma espécie de tradução.

No que diz respeito à dúvida se o que vemos é ou não realidade, tivemos na história da filosofia um pensador com posicionamento semelhante. Considerado "pai da filosofia moderna", Descartes duvidava da própria realidade, pois para o filósofo poderíamos nesse momento, estar lendo um texto ou escrevendo, quando na verdade estávamos deitados sonhando com tais ações. Para o filósofo moderno, existia um Deus enganador, que colocava tais erros nos homens.

Goya_O sono da razão produz monstros-1799.jpg O sono da razão produz mostros, Francisco Goya.

O quadro acima do pintor Goya, faz referência à razão na vida do homem. Advinda da palavra λόγος, a razão constituiu na filosofia um grande sistema. O uso da razão estaria associado à capacidade de organizarmos e conhecermos o mundo e as informações diante de nós. Muitos foram os filósofos que da razão fizeram alicerce para suas teorias. O mais conhecido é Immanuel Kant. Para ele a razão não é o mais seguro conhecimento, ela nos humanos não traz a eles o "verdadeiro conhecimento". Percebemos apenas o que a nossa percepção é capaz. A razão seria uma reguladora das percepções.

histmem1.jpg A persistência da memória, Salvador Dalí.

A imagem acima pode ser relacionada com outro momento da filsoofia em que a Razão começa a ter uma crise de definições e significados. Os "mestres da suspeita" Nietzsche, Marx, Freud tiveram uma visão diferente sobre a razão. Para eles, a ideia de a razão ser uma reguladora e ponto de partida para o entendimento humano era falha. Para Nietzsche, o uso da razão como forma de disciplinar os sentimento, as paixões seriam uma domesticação do homem. Nietzsche culpa Sócrates por ser o primeiro a tentar fazer isso com o ser humano.

Marx acreditava que as coisas tais como são demostradas, são uma ilusão. O conhecimento passado é uma forma de manter uma determinada classe sob domínio de outra. A classe menos favorecida socialmente estaria sendo controlada pela mais favorecida.

Freud discordava da razão e consciente como regulador das ações humanas. Para ele o nosso inconsciente era quem "ordenava" a maior parte de nossas ações. Na maioria das vezes, quando agimos desconhecemos o determiante de uma ação, sua origem em nossos pensamentos. Com a psicanálise a ideia de inconsciente começou a ganhar maior sentido. Embrora muitos acreditem que Freud não fez mais que aprofundar a pesquisa nas teorias que em Nietzsche já existiam. Um dos filósofos que criticam Freud por não dar devidos créditos a Nietzsche é Michel Onfray.

De certa forma, a filosofia sempre esteve e vai estar oscilando entre um pensamento e outro, entre um filósofo e seu seguidor. Ou o crítico de seu sitema. O que não pode existir na filosofia é a certeza absoluta. Se isso ocorresse, não seria filosofia. Seria outra coisa...

Obs: O texto tem a pretensão de fazer uma relação entre arte e filosofia, não é possível nesse espaço desenvolver um grande artigo sobre cada teoria. Para o atual contexto também não se faz necessário.

E, apenas para completar e não finalizar as reflexões, lembremos do que nos disse Epicteto:

epicteto.jpg Epicteto, filósofo estoico.

Dizia o lema Sapere aude no célebre texto O que é esclarecimento?. Modifique-o e diga: "Sapere aude, sapere insignare".


Edivan Santtos

Colunista, poeta, escritor. Já basta. http://edivansanttos.com/biografia/.
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