abismo

Uma crítica profunda

Edivan Santtos

Colunista, poeta, escritor. Já basta.
http://edivansanttos.com/biografia/

Expressão do fluxo de vida pela poesia

Sem qualquer pretensão de majestade, Gullar prefere uma expressão da realidade como indicativo de poesia. As experiências de vida faziam parte de sua poética. A poesia, segundo Gullar, nasce de um susto. A vida também. O poeta a todo momento faz questão de nos lembrar sobre a brevidade da vida.


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Para Gullar, a função da poesia é falar sobre o real. O poeta falaria sobre a realidade através da poesia, mas não a criaria. Seria uma experiência quase ontológica entre o poeta e o ato de escrever. Segundo Gullar; "A consciência concreta – também poética – das coisas é a consciência que eu tenho delas aqui, neste momento – deste aqui no espaço do mundo, deste momento no momento global da realidade, em suma, das relações, em seu mais amplo sentido, que ligam cada instante de nossa existência à existência de todo o real, de todas as coisas e de todos os homens."

No mesmo poema “As Peras”, de A luta Corporal (1950-1953), nos diz o poeta: “As peras, no prato,/ apodrecem./ O relógio, sobre elas/ mede/ a sua morte?/ [...] Oh as peras cansaram-se/ de suas formas e de/ sua doçura! As peras, concluídas, gastam-se no/ fulgor de estarem prontas / para nada”.

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Se observarmos, o poema nos remete à noção de fluxo em Heráclito, filósofo antigo. A forma da realidade e a noção de vida que se desgasta a cada instante é reafirmada pelo poeta em grande parte de sua obra. “Tudo é cansaço/ de si. As peras se consomem/ no seu doirado/ sossego. As flores, no canteiro/ diário, ardem,/ ardem, em vermelhas e azuis. Tudo/ desliza e está só”. O mesmo tema é retomado no poema “Frutas”, de O Vil Metal (1954-1960):

Sobre a mesa no domingo (o mar atrás) Duas maçãs e oito bananas num prato de louça São duas manchas vermelhas e uma faixa amarela Com pintas de verde selvagem: Uma fogueira sólida Acesa no centro do dia. O fogo é escuro e não cabe hoje nas frutas: Chamas, As chamas do que está pronto e alimenta.

Em outro poema “Dentro da Noite Veloz”, do livro de mesmo nome (1962- 1975), o Gullar reafirma o caráter da temporalidade, através de metáforas frutíferas: “A vida muda como a cor dos frutos/ lentamente/ e para sempre/ A vida muda como a flor em fruto/ velozmente”.

Em Na vertigem do dia (1975-1980), novamente a reflexão é reafirmada no poema “Bananas Podres”: Como um relógio de ouro o podre Oculto nas frutas Sobre o balcão (ainda mel Dentro da casca Na carne que se faz água) era Ainda ouro O turvo açúcar Vindo do chão E agora Ali: bananas negras Como bolsas moles Onde pulsa uma abelha E gira E gira ponteiro no universo dourado (parte mínima da tarde) Em abrilEnquanto vivemos.

A poesia de Gullar nos remete à reflexão sobre o instante de nossas vidas, sobre a inquietude e questionamento da existência, da vida. Seus poemas, mais que qualquer tipo de pretensa abstração, nos fazem lembrar o quão frágil somos. Nossa vida e o pouco que dela desfrutamos.

‎"a parte mais efêmera de mim é esta consciência de que existo

e todo o existir consiste nisto

é estranho! e mais estranho ainda me é sabê-lo e saber que esta consciência dura menos que um fio de cabelo [...]"

Do poema Perplexidades no livro Em Alguma parte Alguma (2010)

Vejam abaixo o poeta recitando Fica o não dito por dito o primeiro poema do livro Em Alguma parte alguma.


Edivan Santtos

Colunista, poeta, escritor. Já basta. http://edivansanttos.com/biografia/.
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