abismo

Uma crítica profunda

Edivan Santtos

Colunista, poeta, escritor. Já basta.
http://edivansanttos.com/biografia/

A obra escrita e sua adaptação pra o cinema

O cinema é de longe uma das formas de eternizar uma obra. Seja um best seller ou mesmo um livro desconhecido. Ao ser filmada, a obra adquire uma grande abrangência, que vai dos leitores do texto, (para sentirem as diferenças) a quem nunca leu o texto em questão, mas sentiu a vontade de chegar até a magia que o cinema nos proporciona diante dos olhos. "Todo homem de hoje tem o direito de ser filmado". Assim, Benjamim nos leva à reflexão sobre o caráter popular dessa arte.


1948-hamlet-primeiro-oscar-de-figurinos-pb.jpg Laurence Oliver, cena de Hamlet. 1948.

Benjamim nos dizia: "Abel Gance, em 1927, gritava com entusiasmo: Shakespeare, Rembrandt, Beethoven farão cinema [...] Todas as lendas, todas as mitologias e todos os mitos, todos os fundadores de religiões e as próprias religiões... Esperam ressurreição luminosa, e os heróis batem em nossas portas pedindo para entrar, sem querer nos convidava para uma liquidação geral".

Um dos maiores críticos e defensores do cinema como obra de arte mais acessível foi o filósofo de família judeia mas nascido em Berlim, Alemanha. Walter Benjamim. Para ele o cinema estaria mais acessível às massas como também despertaria uma maior atenção pelos seus recursos visuais.

Entretanto, nesse texto, não vamos nos ater às teorias do filósofos sobre o cinema. Vamos nos centrar em uma análise de um livro para o cinema, para isso usaremos, nesse texto, como antecâmara, um resumo das teorias de Benjamim sobre o cinema. Escolhemos Hamlet de Shakespeare.

photo-Hamlet-1948-3.jpg

O foto acima é do filme gravado em 1948, o primeiro não americano a ganhar o Oscar de melhor filme. O ator Laurence Olivier. O qual também foi diretor do filme ganhou o Oscar de melhor ator pela sua interpretação do personagem principal. Hamlet, príncipe da Dinamarca.

O filme nos fala remete a uma grande fidelidade da obra escrita. A suspeita de um assassinato do rei tramado pela sua esposa e seu irmão. Hamlet em uma noite conversa com o espírito de seu pai, e esse revela que fora envenenado em uma conspiração para lhe tomar o trono. Hamlet finge-se de louco para vingar a morte de seu pai.

De uma grande profundidade filosófica, essa obra de Shakespeare é também uma das suas mais conhecidas peças. Só perdendo para Romeu e Julieta. Não é novidade alguém dizer que já ouviu a famosa frase de Hamlet: “Ser ou não ser, eis a questão.” Essa citação remonta ao período clássico da Grécia, nas disputas entre Parmênides e Heráclito. Até o momento não se chegou (e nem vai chegar!) a uma posição definitiva sobre quem estava certo. Entretanto, vamos lembra da fala completa de Hamlet.

hamlet8.jpg Hamlet com o crânio de Yorick, um bobo da corte

Trecho do Ato III Cena I

HAMLET — Tempo houve em que aquele crânio teve língua e podia cantar; agora, esse velhaco o atira ao solo, como se se tratasse da mandíbula de Caim, o primeiro homicida. É bem possível que a cabeça que esse asno maltrata desse jeito seja de algum político que enganava ao próprio Deus, não te parece?

HAMLET — Mais um crânio. Por que não há de ser o de um jurista? Onde foram parar as sutilezas, os equívocos, os casos, as enfiteuses, todas as suas chicanas? Por que consente que este maroto rústico lhe bata com a enxada suja, e não lhe arma um processo por lesões pessoais? Hum! É bem possível que esse sujeito tivesse sido um grande comprador de terras, com suas escrituras, hipotecas, multas, endossos e recuperações. Consistirá a multa das multas e a recuperação das recuperações em ficarmos com a bela cabeça assim cheia de tão bonito lodo? Não lhe arranjaram seus fiadores, com as fianças duplas, mais espaço do que o de seus contratos? Os títulos de suas propriedades não caberiam em seu caixão; não obterão os herdeiros mais do que isso?

Uma reflexão sobre um momento da pintura "Memento mori" algo como; "recorda-te que deves morrer".

Embora na imaginação da maioria a citação sobre "to be or not to be" esteja no momento em que Hamlet segura o crânio de Yorik, ela está bem distante no texto. Tal fala acontece no Ato III Cena I. Enquanto sua famosa citação acontece no Ato V Cena I. Vejamos a fala completa:

"Ser ou não ser eis a questão. Será mais nobre na mente suportar as pedras e flechas do destino ultrajante, ou pegar em armas contra um mar de desditas e resistindo-lhes dar-lhes fim? Morrer. Dormi não mais... E dizer que com um sono curamos o mal do coração. E os mil acidentes naturais de que a carne é herdeira... É a solução fervorosamente desejada. Morrer. Dormir... Dormi. Talvez sonhar! Sim, essa é a questão. Nesse sono de morte quais sonhos virão ao nos livrarmos dessa morte espiral. Devemos fazer uma pausa. É o que torna uma calamidade vida assim tão longa,...pois que suportaria os açoites e escárnios do tempo,...E a injustiça do opressor, as afrontas do orgulhoso, as aflições do amor desprezado,... Os atrasos da lei, a insolência oficial... e o que o mérito recebe do indignos, quando por si poderia conseguir sossego... Com a ponta de um punhal? Quem suaria ou gemeria ao fardo de uma vida tão cansada, a não ser pelo temor de algo após a morte... A desconhecida região da qual viajantes algum retorna. Temor do qual confunde a verdade, e nos faz preferir suportar os males, a fugir para outro que não conhecemos. Assim a consciência faz covardes de todos nós, assim nossa resolução, definha ante o pálido matiz do pensamento, o empreendimento de longo alcance, consequentemente muda de rumo...e até deixam de realizar-se."

Hamlet.jpg Hamlet E Ofélia

O filme foi muito fiel à obra, vale muito ser assistido por quem ainda não o viu. Aliás, toda obra de Shakespeare merece ser lida. Raros são os que nas condições que Shakespeare viveu conseguem ou tem algum interesse pela leitura e escrita.

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