abismo

Uma crítica profunda

Edivan Santtos

Colunista, poeta, escritor. Já basta.
http://edivansanttos.com/biografia/

Máscaras do mistério

Banda de pífanos, zabumba, Porca (espécie de cuíca) e muita alegria. Assim começa a Alvorada na madrugada de sexta feira da paixão. O prelúdio de uma festa misteriosa e divertida: Os Caretas. Depois da atração principal, ainda tem mais tradição pra quem gosta de folclore, a queima do Judas e o "pau de sebo” são ingredientes indispensáveis para fechar o ciclo de eventos folclóricos, que podem está associados aos deuses gregos, no caso, Dionísio.


Thumbnail image for Thumbnail image for 100_2733.JPG Foto: Edivan Santtos

Início de madrugada. Sábado de Aleluia. Assim começa os festejos folclóricos em São Miguel do Aleixo, Sergipe. A partir das 00h:00min da sexta feira da paixão começa o que é chamado de Alvorada.

Pessoas se juntam a um grupo de músicos cantando músicas folclóricas ou adaptadas do folclore. Durante o percurso, uma pequena multidão vai se formando, pessoas de todas as idades se juntam à Alvorada. Os cantores e “tocadores” param nas casas de alguns moradores, ficam cantando as músicas folclóricas e fazendo repentes com o nome dos habitantes.

Thumbnail image for DSC01918.JPGNo canto esquerdo, Djenal. Um dos principais organizadores do evento. Foto Edivan Santtos

DSC01924.JPG Foto: Edivan Santtos

DSC01950 (2).JPG Foto: Edivan Santtos

Em meio à pequena multidão, duas figuras surgem para alegrar a caminhada. Um boi e outra figura conhecida como Jaraguá ambas as figuras já vistas em manifestações folclóricas no Brasil. No momento em que as figuras entram em cena, começam os cantores a ritmar uma das músicas folclóricas, que também é das mais antigas.

DSC01938.JPG Foto: Edivan Santtos

DSC01967 (2).JPG Boi e Jaraguá. Foto: Edivan Santtos

“Chegou chegou, chegou meu boi agora. Se quiser que eu brinque eu brinco não querendo eu vou embora.”

“Derrube o lenço do Jaraguá, apanhe o lenço do Jaraguá...”

No sábado de Aleluia, no período da tarde acontece a manifestação mais conhecida, o cortejo dos Caretas. A festa é uma tradição na cidade, acontece desde a década de 60, sendo tal manifestação a de maior destaque na cidade. Um grupo de homens se vestem com trajes femininos e máscaras de monstros, e em suas mãos ficam recipientes com tinta para sujar os transeuntes que por perto do grupo passar.

100_2757.jpg Foto: Edivan Santtos

Outra música cantada é: "O dia amanheceu/ o sol já clareou, Bata palma minha gente que os Caretas chegou."

A manifestação é de uma grande ambigüidade de interpretações. Muitas dúvidas pairão sobre a origem e primeiro significado de tal manifestação. A historiadora Josevânia Fonseca, em sua monografia de especialização ("Máscaras entre a ordem e a transgressão...": aspectos da formação de São Miguel do Aleixo (1964-1984).) olhou a manifestação por uma visão inovadora na cultura popular.

100_2734.jpg Foto: Edivan Santtos

A historiadora parte da interpretação de um ritual dionisíaco, onde os caretas representariam não só o deus Dionísio que vestia roupas femininas para fugir de uma perseguição quando era criança, como também dos rituais em homenagem a tal deus, onde os que participavam da festa usavam máscaras.

A manifestação é bem recepcionada por toda a cidade e também pelos visitantes que sempre voltam depois de presenciarem os festejos.

100_2755.jpg Foto: Edivan Santtos

No inicio da noite de sábado, acontece o final dos festejos. Uma das partes finais consiste na queima do Judas, e antes da queima é dita a “herança” que o Judas deixou. Essa herança consiste em fazer um inventário para ser apenas falado antes da queima. O nome de algum dos moradores é citado e a herança “dada” de acordo com a pessoa.

O outro evento consiste em um tronco de árvore que é lixado e envolto ao mesmo é passado sebo bovino, dessa forma deixando o mastro extremamente liso. O cepa é colocada de forma vertical, e na ponta dela é deixada uma recompensa para quem conseguir chegar até o topo.

Depois desses eventos, termina o folclore nesse período. A cidade começa a se prepara para rotina, não esquecendo as alegrias e diversão que a cultura popular proporciona.

Morte Vindoura, a cultura popular pede socorro

Tal qual citado acima, os eventos constituem o período de maior manifestação folclórica na cidade. Entretanto, esse ano foi um caso à parte. O movimento popular que é a maior tradição da cidade sofreu sérios ferimentos.

Já na noite da alvorada, foi introduzido um carro de som, o que foi de grande desgosto para quem aprecia de verdade os festejos. No sábado a tarde, além de novamente o carro de som está à frente do grupo dos Caretas, foi colocada também uma faixa com “frase de efeito”, mudanças que só atestam o quanto as pessoas podem piorar o que não tem necessidade de ser alterado. Como se não bastasse, o grupo de Caretas que sempre foi livre pra sujar quem estivesse na rua na hora da manifestação, agora está dentro de cordas, denotando blocos de carnavais. Não seria exagero dizer que sofremos o “enquadramento da cultura popular”.

Já a noite, quando chegada a hora da queima do Judas e do "pau de sebo", outra novidade. Nunca houve registros da quebra da tradição. Mas nesse ano, "o pau de sebo" não foi colocado. Mesmo tendo sido retirado da mata e preparado, não aconteceu o evento.

Segundo relatos, a Prefeitura Municipal de São Miguel do Aleixo, não concedeu o valor da premiação que foi solicitado. As informações apontam que foi solicitado R$:200,00 reais para premiação, entretanto a prefeitura que conta com uma secretaria de cultura, teria oferecido a mixaria de R$:50,00 reais. O valor de R$:200,00 é irrisório quando pensamos no benefício e tradição do evento. Por tal quantia, a tradição de décadas foi quebrada e a cidade hoje chora por suas tradições não serem respeitadas.

Publicado em Jornal de Sergipe

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Edivan Santtos

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