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Falar e pensar, sobretudo o que me interessa

JHONS CASSIMIRO

Escrevo sobre tudo que parece ter vida e conteúdo, e que sobretudo tem proveito.

Sobre a intolerância ao funk mesclado ao hino nacional

Sobre a intolerância ao funk e tudo o que ele representa. Como uma apresentação de dança transformou-se em uma polêmica? Por trás de tantos comentários em defesa da honra de um hino, esconde-se o preconceito contra tudo que o funk e a cultura do pobre e negro representam.


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No dia da inauguração da Arena das Dunas na cidade de Natal, a cantora de MPB Roberta Sá inicia a apresentação do Hino Nacional Brasileiro de forma solene. Após os primeiros versos, o ritmo muda para samba, seguido por forró e xaxado, e para terminar, o tão respeitado hino é intercalado com o choro Brasileirinho de Waldir Azevedo. A apresentação foi divulgada pela televisão, recebendo elogios dos locutores que faziam a transmissão. O público presente na Arena não se manifestou negativamente.

Em 2011, um meta-funk carioca soou diferente na voz de Gal Costa em seu CD Recanto, formado exclusivamente por músicas compostas por Caetano Veloso. Um relato feito pelo compositor, diz que ele sentiu a necessidade de fazer referência ao funk carioca, o qual possui uma vitalidade histórica, sendo um fato incrível na música popular brasileira. Queria ouvir na voz de Gal Costa, (uma pessoa de fora do funk), uma interpretação feita por ele para ser cantada com respeito e amor pelo estilo musical. “Miami Maculelê” é uma observação sobre o funk carioca ter começado pelo Miami bass e chegado ao maculelê de Santo Amaro (BA) via umbanda. O mesmo compositor também gravou em seu mais recente álbum Abraçaço, a canção Funk Melódico.

Há alguns dias, na abertura de uma Amostra Cultural e Científica no interior do Estado da Paraíba, foi realizada uma apresentação de dança que mesclava o Hino Nacional Brasileiro com Funk. O professor idealizador da apresentação postou um vídeo contendo a dança, e em seu texto de descrição demonstrou gratificação pelas pessoas presentes no evento possuírem uma mentalidade aberta, livre de preconceitos. Mal sabia ele que, após milhares de compartilhamentos no Facebook, choveria comentários de pessoas se dizendo indignadas com a atitude de quem organizou tal apresentação. Na rede social, as pessoas se expressaram de forma exagerada e mostraram-se incrivelmente preocupadas com a honra (?!) do hino. Um dos primeiros comentários negativos fez questão de enfatizar que “essa turma de analfabetos, somente mesmo poderia ser da Paraíba”. O vídeo foi compartilhado em diversos sites e a reação da maioria é bastante negativa. Há até quem copiou e colou nos comentários, trechos de legislação, alegando que aquilo se tratava de um crime. Se isso se aplicasse de forma real, jamais ouviríamos cantores consagrados interpretarem das mais diversas formas (inclusive errado, como Vanusa). Os comentários de apoio ao professor também surgem, contudo apenas por aqueles que fazem parte de uma classe pensadora em seu meio, que consegue enxergar tanto no funk, quanto em qualquer outra expressão artística, um lugar possível para a agregação de conhecimentos e quebra de preconceitos.

Episódio semelhante envolvendo o funk aconteceu no Distrito Federal, onde um professor de Filosofia lançou uma questão de prova que se tornou polêmica por sugerir que Valesca Popozuda é uma “grande pensadora contemporânea”. O professor e a cantora foram ridicularizados em todo território nacional. Todos acharam um absurdo e ninguém deu importância ao que o filósofo se referia. Segundo ele, em entrevista à revista Veja: “Qualquer pessoa que consiga construir um conceito é um filósofo. A todo momento em que você abre sites e revistas de fofocas, aparece que fulano 'deu beijinho no ombro'. Ela (Valesca) acabou criando um conceito. Se ela influencia a sociedade com o que ela pensa, eu a considero sim uma pensadora" (sic).

Mas Valesca Popozuda é uma cantora de funk, e agregado a este estilo está o fato de ele ter como lugar de maior presença, as favelas da cidade do Rio de Janeiro. O grande número de cidadãos pobres e negros, que tiveram sua cultura e expressão renegadas durante décadas, sendo banidos da televisão e das rádios de MPB em outras regiões do Brasil, passou a possuir um espaço maior na mídia nos últimos anos, principalmente após a grande facilidade de produção e divulgação de qualquer tipo de arte através da internet. Passaram a ficar mais expostos, tanto ao sucesso, quanto ao escracho.

Nos últimos dias, acompanhamos a crescente onda de racismo e intolerância presentes contra quem é negro (nos estádios de futebol) e contra aquilo que possua raiz na cultura negra (como as religiões afro-brasileiras, que segundo um juiz federal não podem ser consideradas como religião). Em um “país encardido” repleto de pessoas pobres, consumidoras de música popular (não MPB), soa estranho encarar essas atitudes de burrice coletiva. O funk não é um ritmo que agrada a todos, mas isso não é um privilégio seu. Nem todos estão dispostos, nem são obrigados a gostar de ouvir samba, axé, pagode ou forró. Em suas diferentes fases, o funk mostrou-se um ritmo eclético, contendo letras e danças erotizadas, mas também possuindo composições românticas. O mesmo pode ser encontrado em qualquer outro ritmo de música popular. Coube ao funk ser estigmatizado por uma sociedade ordinária, incapaz de enxergar a si própria, de ver o próprio rosto refletido na cultura de seu lugar. É óbvio que a questão do racismo é muito maior, muito mais séria. Também é óbvio que a presença dominante do negro e seus descendentes, que tragicamente são os mais pobres da sociedade brasileira, tornou-se após 126 anos da abolição da escravatura, um incômodo para uma sociedade que não sabe o que fazer consigo mesma.

Por detrás de tantos comentários em defesa da honra de um hino, esconde-se o preconceito contra tudo que o funk e a cultura do pobre e negro representam. O professor que fez a apresentação em ritmo de funk segue em sua luta, em defesa de si mesmo e por uma sociedade onde todos possam ver e respeitar a cultura alheia. No meio artístico considerado “superior” (apesar de denominado MPB) poucos artistas consagrados fazem algo a respeito do tema. Talvez apenas aqueles que possuem suas raízes voltadas ao experimental, como aconteceu com Caetano e os demais descendentes do tropicalismo, ainda não colocam em lugar de desprezo a música (realmente) popular brasileira.


JHONS CASSIMIRO

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