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Falar e pensar, sobretudo o que me interessa

JHONS CASSIMIRO

Escrevo sobre tudo que parece ter vida e conteúdo, e que sobretudo tem proveito.

40 anos de Feliz Ano Novo

A vocação do ser humano é ser humano. Não é ser organizado, nem fértil, nem ter o estômago cheio nas horas certas, nem ter como ideal o paraíso de uma placenta infinita. (Rubem Fonseca)


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Nada de personagens famosos ou importantes. O foco no homem comum coloca em evidência a grandeza do cotidiano.

Momentos vividos por qualquer um transformam-se em enredos fabulosos, que apesar de parecer surreais em certas circunstâncias, também dão a certeza de que quem lê está incluído na mesma sociedade multiforme representada em cada personagem de "Feliz ano novo".

Rubem Fonseca mostrou ser conhecedor dos tipos brasileiros, ao fazer sua crítica social, dando vida em cada conto, à pessoas comuns representando as desigualdades que o Brasil vivenciava na década de 1970 - e também em outros tempos, servindo inclusive ao atual.

Ao abrir o livro com o conto que serviu de título, o autor demonstrou - através de situações vividas no dia de ano bom - que o cerne de sua coleção de contos seria as situações inusitadas que os leitores gostariam de saber, mas que a maioria dos autores fazem questão de não escrever.

Torna-se instigante acompanhar a naturalidade com a qual os bandidos agem ao assassinar pessoas durante um assalto em uma casa de bacanas no Rio de Janeiro , e ao mesmo tempo, a aparente angústia ao perceber que para os bacanas tudo o que estava sendo roubado eram migalhas. Se as cenas fossem de cinema certamente teriam um jeito Tarantino de ser. Cenas que ao invés de chocar, dão ao espectador um sinistro prazer.

"... meu corpo era raquítico mas era meu, assim como o meu pensamento polifásico".

O autor conseguiu fazer o leitor perceber a humanidade inerente em cada um, infectada de defeitos que nenhum ser humano escapa de ter. Mesmo que não seja um bandido, ele percebe e compreende alguns de seus motivos, e isso só se torna possível quando se traz para o ambiente cotidiano o indivíduo antes excluído.

Fazendo uso de linguagem popular, a obra segue contando as agruras humanas, a rotina massacrante de quem odeia seu emprego e alivia sua tensão de uma forma inusitada, sempre envolvendo violência, morte, egoísmo e hipocrisia (vale destacar os contos "Passeio noturno parte 1 e parte 2" e "Dia dos namorados"). Há também a mesquinhez com a qual muitos se deixam envenenar e acabam matando amizades; a promiscuidade em um "campeonato de conjunção carnal" repleto de regras, citações shakespearianas e escatologias, dando ao conto "O campeonato" ares de relatório científico, para logo depois se transformar em momento reflexivo sobre a humanidade e a suposta extinção do "animal de sangue quente" que deu lugar ao homem frio em um futuro indefinido.

Em 2015 Feliz Ano Novo completa quarenta anos. Outrora censurado pela ditadura militar, por seus irreverentes contos, faz o leitor enxergar como em espelho, as mais variadas situações que se pode passar ao longo de uma vida urbana, conferindo ao livro ares de constante atualidade.


JHONS CASSIMIRO

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