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Falar e pensar, sobretudo o que me interessa

JHONS CASSIMIRO

Escrevo sobre tudo que parece ter vida e conteúdo, e que sobretudo tem proveito.

Humano, perigoso, divino, maravilhoso...

Ou sobre o imbróglio que o verbo humanizar promove.


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Não é nenhuma novidade a pluralidade que as palavras na língua portuguesa apresentam. Uma em especial chama a atenção por possuir intrinsecamente significados “opostos”. Vocábulo simples, extremamente utilizado por quem reclama sua falta nos mais diversos momentos de frustração cotidiana: humanizar.

Originado do latim humanus (relacionado à Homo, “homem” e Humus, “'Terra”, pela noção de coisa terrestre, em oposição à coisa divina), o verbo humanizar apresenta nos mais diversos dicionários de nossa língua, o curioso significado de: “tornar benévolo, afável, tratável. É realizar qualquer ato considerando o ser único e complexo, onde está inerente o respeito e a compaixão para com o outro”. Portanto espera-se, segundo esta acepção, que o humano aja de maneira praticamente divina, comprometendo o significado da palavra.

Extremamente divulgado em cursos universitários da área da saúde e na legislação do SUS, este conceito vem trazer ao cotidiano – quase que de maneira utópica, como tudo em nossa legislação – a ideia que cada cidadão precisa ser tratado com atributos de benevolência. A intenção que a legislação e a educação dão a este significado é de grande valia, sabendo das más condições que o cidadão comum é submetido em sua rotina. Ancorar na mente dos profissionais a ideia de tratar respeitosamente o povo é uma atitude louvável. Não está em pauta, neste texto esse questionamento, mas sim o imbróglio causado ao tentar humanizar situações que por natureza já são humanas.

A influência religiosa ocidental cristã coloca o homem como arquiteto de uma vida baseada em “ser bom”, que está sempre em busca da pureza em seus atos. Na vida prática, quem dá importância a esta influência, fica exposto à constante sensação de erro e busca pelo perdão de suas culpas. Evidencia-se o desejo de ser divino, em detrimento daquilo que o faz humano, que é o agir de acordo com sua própria natureza.

Obviamente, por vivermos em sociedade, existe a necessidade da boa convivência e da benignidade. Contudo, como o indivíduo pode querer exigir de seu semelhante aquilo que não é inato de sua raça?

Como boa forma de reflexão a respeito, o cinema traz na obra de Lars Von Trier, o filme Anticristo (terror psicológico de grande sensibilidade artística), que expõe o ser em seu lado mais humano. Nele, põe-se em xeque a divinização que o cristianismo quer impor ao comportamento, revelando aí o porquê do título do filme.

O que leva uma mãe a deixar seu filho cair da varanda de um prédio (e morrer) ao mesmo tempo em que ela pratica uma relação sexual? O que leva esta mesma mulher a cometer as mais diversas barbáries com seu próprio marido, que deseja apenas ajudá-la? A resposta é: o simples fato de ela ser humana. Isso faz dela, detentora dos mais variados defeitos, forjados ao nascer (por ser da raça humana) e ao longo de seu desenvolvimento (com sua experiência prática de vida). É questionável a sociedade que espera e que diz não entender o comportamento daqueles que cometem uma atitude anticristã. Por ser obra cinematográfica, de ficção, o nível de exagero é alto, para dar sentido ao estilo de horror. Em proporções menores, de maneiras muitas vezes camufladas, cada indivíduo vive momentos e sentimentos que o faz sentir como personagem de uma obra dramática de semelhante tema.

Pode parecer cruel ao primeiro pensamento, mas aquele que se assume como humano poderá enxergar em atitudes ditas desumanas apenas o reflexo de sua própria personalidade. Não há como julgar-se livre de atitudes como a traição, a trapaça, a inveja e fazer destes componentes do comportamento algo que possa ser subtraído pela simples afirmação que “devemos ser humanos”. Isto porque seria justamente aí que cairíamos em contradição. Basta observar a seguinte frase: “não traia seu amigo, isso é desumano”. Seria desumano agir com atitudes genuinamente humanas?

Uma boa ilustração de quão complexa pode ser esta questão, pode ser vista em fato recente ocorrido na sociedade, quando o brasileiro Marco Archer Moreira foi condenado à execução por tráfico de drogas na Indonésia. Ficou evidenciada em seus compatriotas, a divisão entre o pensamento de compaixão e o de apoio às leis daquele país. Muitos sentiram piedade e enxergaram naquela punição (extremamente questionável e retrógrada) algo desumano. O estranho é considerar como humano apenas a compaixão, o perdão. Já os que apoiaram a punição valem-se de hipocrisia (algo bastante humano) ao considerar justa aquela pena medieval. Aí entra um fato curioso bastante presente, inclusive entre os "divinos": o indivíduo era um bandido, um marginal. Para muitos, há quem mereça ser executado, enquanto outros são endeusados, tendo seus defeitos (suas humanidades) encobertos pelo manto de fingimento.

Voltando ao campo das artes, o escritor brasileiro Rubem Fonseca, pode ser considerado como um dos maiores entendedores da alma humana ao transpor seu conhecimento às palavras impressas nos seus diversos livros de contos.

Ao por no papel os fatos como eles são, traz ao leitor a imediata compreensão de si mesmo. Ao ler, ele se vê espelhado em cada situação inusitada e extremamente real, independente do fato de nunca ter vivido situação semelhante.

Em rara entrevista dada em 2013, Rubem Fonseca citou que “ler permite que a gente entenda melhor o outro”. Se o livro de preferência possuir seu estilo, certamente o leitor entenderá o outro e principalmente enxergará a si mesmo ao olhar para além das aparências superficiais do cotidiano.

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O autor consegue fazer o leitor perceber a humanidade (com todas as mazelas que isso inclui) inerente em cada um, infectada de defeitos que nenhum ser humano escapa de ter.

Não há como escapar de si mesmo e de seus “defeitos”. Contudo, por ser social, o homem necessita colocar em prática algo que fará dele um ser além de humano, alguém capaz de conviver de maneira menos brutal possível. Porém totalmente sem selvageria é simplesmente inviável, estando esta característica intrincada em cada um de nós.

Numa tentativa de desembaralhar a confusão que as palavras e as ações promovem, uma boa saída seria substituir o verbo “humanizar” (e todo aquele conceito utópico divino) por “respeitar”, que inclui muita coisa positiva, sem causar tanta confusão semântica.


JHONS CASSIMIRO

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