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Falar e pensar, sobretudo o que me interessa

JHONS CASSIMIRO

Escrevo sobre tudo que parece ter vida e conteúdo, e que sobretudo tem proveito.

A dor cotidiana

O retrato de um homem comum que, como quase todos, não se importa. Uma crítica a mim mesmo e aos concidadãos brasileiros.


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Tem chovido pouco por aqui. O azul profundo das nuvens ao longe vem trazendo boas expectativas. Elas quase nunca se cumprem. As serras que cercam a cidade fortalecem a sensação sufocante do mormaço cotidiano.

Voltando para casa após um longo dia de trabalho, ouço o ressoar de uma palavra que insiste em ecoar todos os dias, em muitas situações. DOR.

São três letras torturantes que tenho por missão combater.

Uma sociedade doente: dói.

Não ter água na torneira: dói.

Não ter o que colher: dói.

Não ter pão: dói.

Receber o salário atrasado: dói.

Não ter salário para receber: dói.

Trabalhar oito horas em pé: dói.

Não ter trabalho: dói.

Ver o desinteresse do governo para com o povo: dói.

Ver o desinteresse do povo pelo governo: dói.

Se interessar e ser traído: dói.

Tudo dói.

Onde andará a analgesia para estes tropeços que me impedem o descanso? Por um momento percebo o reboliço de alguns que supostamente indignados com tamanho descaso, dizem estar se preparando para uma revolução. Mas pode ser que seja inútil, e possa trazer mais dor. Talvez traga alguma solução. Não há como prever.

A maioria não se importa mais, e anestesiados pela própria dor, entregam-se aos afazeres da vida. Outros despejam o ódio crônico que sentem pelo mundo, nos seus semelhantes. Seja na rua, ao queimar um mendigo, ao apedrejar um trombadinha, ao estuprar uma mulher, seja no Facebook ao queimar os "inimigos". São tantos os inimigos: a empresa pública que não presta um bom serviço; a menina do Instagram que vive apenas para ostentar sua futilidade; o casal de lésbicas que não respeita a moral e os bons costumes da sociedade cristã; o cidadão que curte cultura e religião descendentes dos pretos da África. Está aberto o festival de indiretas. Se fosse possível medir o tamanho do ódio contido nas frases lançadas na rede contra os "inimigos" certamente daria para chegar em Júpiter e além do infinito. Cara a cara, se estivessem, seriam suficientemente covardes e recolheriam-se no silêncio de sua pequenez.

A convicção de que somos apenas um quase nada dentro de um pequeno planeta residente em um universo gigante, nos fornece certo conforto e conformismo. Não há em mim o desejo de insuflar uma revolta, de tomar a Bastilha, de Quebrar Quilos, de libertar os pretos, de lutar pela eliminação do nordeste do território nacional (há quem queira). Não há em mim estes desejos, pelo simples fato de que vivo em tempos republicanos e é só dar uma conferida na História para perceber que quem se interessa com afinco por revoltas, são em sua maioria golpistas com interesses puramente politiqueiros. Nesta revolta não há interesse pelos problemas cotidianos do homem comum, da mesma forma que não há interesse pelo bem do cidadão quando elejo os homens e mulheres do executivo e do legislativo.

Amanhã será mais um dia de trabalho duro para muita gente, enquanto muitos não terão comida suficiente. O chão rachado continuará sem sentir a abundância de um rio que flui, pois nunca houve interesse algum em solucionar nossa escassez. Amanhã o ódio correrá solto pelos mundos real e virtual, perpetuando-se na alma de cada um. Amanhã todas as dores estarão de volta, porque na verdade elas nunca se foram e provavelmente jamais irão, pois no fundo ninguém se importa.

Como diz o poeta Caetano: "o sol se pôs, depois nasceu, e nada aconteceu..."


JHONS CASSIMIRO

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