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Falar e pensar, sobretudo o que me interessa

JHONS CASSIMIRO

Escrevo sobre tudo que parece ter vida e conteúdo, e que sobretudo tem proveito.

Bob esponja não satisfaz

A questão está centrada no fato que a sociedade não consome a arte em busca de um objetivo maior, como fazer pensar e repensar a respeito de qualquer tema que seja. As pessoas estão voltadas ao provincianismo. Estão ligadas exclusivamente a noção de certo versus errado, como se a vida se resumisse a isso.


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Nunca passam despercebidos aos meus olhos os cartazes dos filmes em exibição no cinema da minha cidade. Se disser que não sou consumidor deste produto, poderei levar ao leitor um sentimento de repúdio imediato, sabendo que ele é devorador do que a bela arte tem a nos proporcionar. Não é disso que se trata. Não quis dizer que não consumo cultura cinematográfica, mas sim, que jamais paguei por um ingresso na sala de cinema mais próxima a mim.

Sempre que passo em frente ao antigo prédio no qual se encontra instalado um dos últimos cinemas de rua do Brasil, observo o tipo de filme que está em exibição e, para minha tristeza, nenhum deles me fez ter vontade de os contemplar em tela gigante. Lembro-me de ter visto os cartazes de Malévola, Noé, O candidato honesto, De pernas pro ar 2, dentre outros. Hoje está em cartaz Bob Esponja.

Não há como se sentir esperançoso a respeito de um possível crescimento intelectual, cultural, educacional em nossa sociedade, sabendo que o que está sendo ofertado não passa de distração barata.

O senso comum insiste em dizer que não se faz música como antigamente, que outrora havia letras bonitas, melodias agradáveis aos ouvidos. O mesmo senso comum diz que no Brasil não se faz bom cinema. Aí reside um grande problema. Somos agarrados demais ao senso comum. Esperamos sentados na sala de casa, que coisas interessantes sejam apresentadas na televisão. Mas como pode? A televisão é apenas uma "máquina de acalmar doidos" como dissera Rubem Braga em alguma crônica que li décadas atrás.

A questão está centrada no fato que a sociedade não consome a arte em busca de um objetivo maior, como fazer pensar e repensar a respeito de qualquer tema que seja. As pessoas estão voltadas ao provincianismo. Estão ligadas exclusivamente a noção de certo versus errado, como se a vida se resumisse a isso. Não há espaço para o aprendizado, para o surgimento de novas possibilidades. Não se dá chance para mentes abertas e idéias novas. Ao mesmo tempo, por incrível que pareça, acreditam estar vivenciando a maior revolução em nível tecnológico que já existiu.

As informações brotam por todos os lados, mas quem lê tanta notícia? Fica apenas a sensação de ter sempre a mão (literalmente) qualquer informação, música, filme, resolução de qualquer problema, disponível no smartphone.

Jogo rápido com uma pessoa qualquer (qualquer um de nós, salvo raras exceções):

Uma ficção: novela X (qualquer uma serve).

Um estilo musical: se você é do sudeste e centro-oeste responde sertanejo, pagode ou funk, ou tudo ao mesmo tempo. Se você é do nordeste responde forró em 99% dos casos. Se você é do Sul ou do Norte eu não conheço seus gostos musicais, mas sou capaz de acertar que grande parte responderá MPB, que no final das contas é a resposta óbvia de todo brasileiro.

Um programa de TV : Fantástico.

Um livro: a Bíblia.

Não estão em questão o gosto musical ou a religiosidade. O problema é dar total crédito apenas ao básico, ao lugar comum, e deixar passar a chance de conhecer coisas novas, adquirir conhecimentos. Não dá para ter como parâmetro de informação, de cultura e sobretudo de verdade, um programa de televisão dominical que não traz nada de realmente fantástico.

O resultado dessa forma de ver o mundo, sempre aprisionada dentro de uma tela de TV, está cada vez mais evidente nos diálogos cotidianos. Ao invés de discutir a obra de Lars Von Trier, acusam uma novela qualquer, de "destruidora de famílias". Ao mesmo tempo que consomem a novela, acusam-na de não ser bom exemplo. O que diriam então do mesmo Lars von Trier se algum dia chegassem a ver Nymphomaniac? O que diriam ao assistir Tatuagem do diretor pernambucano Hilton Lacerda ao invés de rir das bobagens de De pernas pro ar?

Não há como saber o que diriam, mas uma coisa é certa, estariam discutindo algo realmente maior.

Certa vez vi um divertido e sábio comentário no Facebook após o último capítulo de uma novela: mostrar beijo gay é fácil, quero ver mostrar beijo grego...

Complemento a piada com uma reflexão a respeito da existência do cinema (físico) que está a cada dia desaparecendo do nosso país. Manter um cinema é "fácil", (assim como é fácil comprar livros e não ler, comprar álbuns e não ouvir) difícil é levar ao público alguma coisa que os faça ver algo de novo, de diferente, desafiador e verdadeiramente transgressor. Só oferecer uma tela grande não basta, porque Bob Esponja não satisfaz.


JHONS CASSIMIRO

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