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Falar e pensar, sobretudo o que me interessa

JHONS CASSIMIRO

Escrevo sobre tudo que parece ter vida e conteúdo, e que sobretudo tem proveito.

Put some farofa em tempos de tradicional família brasileira

Sobre abrir mão de ser detestável em uma sociedade cada vez mais desprezível.


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Contém Spoilers

Independente das polêmicas que os comentaristas de internet adoram criar, o canal Porta dos Fundos segue como um dos mais populares (se não o mais popular) dos canais brasileiros.

Tendo como um dos criadores, o roteirista, ator e também escritor Gregório Duvivier, busca levar ao espectador conteúdo de humor inteligente. Mas quem pode definir este gênero como tal – quem o cria ou quem o assiste?

Considerando os comentários negativos sobre diversos temas, como religião, sexualidade e a sociedade como um todo, pode-se notar o quão hipócrita o público brasileiro tem se tornado ao ponto de não tolerar as críticas feitas em cada novo vídeo lançado, principalmente se o roteiro tiver sido feito por Duvivier.

Confesso que algumas vezes, ao terminar de assistir a um vídeo do canal, me senti burro por não conseguir entender algo, que apesar de estar nas entrelinhas, mostrava-se ao mesmo tempo de maneira explícita. Daí acabava concordando com alguns que diziam: "cadê a graça?" ou algo do tipo "é por isso que prefiro o Parafernalha", dentre outros comentários.

A solução para este problema (a dúvida se eu era burro ou se os vídeos eram sem graça mesmo) surgiu quando li Put some farofa, livro que reúne textos já publicados, em sua maioria pela Folha de São Paulo e outros adaptados pelo Porta dos Fundos.

Put some farofa vem confirmar, além de outras coisas, aquela velha história de que "o livro é melhor que o filme", apesar de não conter apenas os roteiros já adaptados pelo Porta. Traz a essência do que o roteirista quis dizer ao escrever, e que muitas vezes pode se perder quando ganha uma interpretação. As palavras escritas possuem maior poder intelectual do que uma arte visual, que desvia o foco do assunto principal. Quando assisti ao vídeo Versão brasileira não consegui entender o propósito. Onde morava a graça daquilo que estava sendo passado no vídeo? Hoje, após terminar de ler o livro, percebo o tamanho da minha burrice (e da maioria dos que assistem e comentam negativamente) por não enxergar algo explícito no próprio título.

Aí está a chave para a resposta do porquê de muitos de nós não conseguir aceitar aquilo que está sendo passado: somos hipócritas demais, racistas demais, egoístas demais, homofóbicos demais, intolerantes demais. Por conseguinte, inteligentes de menos. O humor produzido por este canal mostra-se realmente inteligente ao pôr em xeque questionamentos que incomodam a tradicional família brasileira, mas o que estamos acostumados a ver, e continuamos querendo praticar, é aquela velha piada que coloca a mulher como submissa e vadia, o negro como vagabundo, a religião do outro como a errada, o povo português como burro, quando não nos damos conta que quem realmente não possui capacidade intelectual somos nós.

Ao expor no livro nosso lado retrógrado, o autor não revela somente a sociedade, mas principalmente sua própria alma, mostrando em cada texto sua maneira aberta de pensar. Sem rodeios e sem máscaras, Gregório expõe sua posição sobre os mais diversos assuntos atuais da sociedade (cada vez mais cristã , no sentido ruim da palavra).

O machismo e a necessidade que temos em determinar a maneira de viver dos outros, são demonstrados nos textos É menina (que virou booktrailer) e em É menino. Cada um de nós, geração após geração, segue um roteiro de vida praticamente imutável, e quando alguém se atreve a pensar ou agir de maneira diferente do combinado (não se sabe por quem), tem sua vida execrada e marginalizada pelo simples fato de pensar suas próprias ideias, e seguir seu próprio desejo. O que esperar de uma menina e de um menino? Não seria mais válido não esperar, visto que somos indivíduos e não marionetes?

Temática semelhante (uma vida pré-fabricada) pode ser lida no texto Papai. A ideia da felicidade contida no combo casamento+filhos é representada por um homem, que apesar de não vivenciar momento algum de prazer, mostra-se ajustado ao que a sociedade diz e espera que ele faça.

O texto A religião dos outros talvez tenha sido para mim o mais significante. Ao defender a liberdade de fazer piada sobre religiões, o autor nos coloca contra a parede e faz com que percebamos a necessidade de aceitar uma crítica contra nós mesmos ou contra aquilo que defendemos. Convence o leitor a rever seus preconceitos e a aceitar a liberdade de pensar e defender algo tido como absurdo pela sociedade.

Tribunal e Cross fit consciente trazem a supervalorização da beleza física como tema. O primeiro, em cenas absurdas, um advogado convence um juiz a inocentar um criminoso, usando como argumentos, os atributos físicos do réu. No segundo, com uma crítica à ditadura da beleza (típica de quem está "fora de forma" como eu), ridiculariza as pessoas que preenchem seu tempo apenas com a busca do aperfeiçoamento do próprio corpo, do ego, do amor ao Instagram, em detrimento de causas maiores existentes na vida cotidiana.

Em Não estou aqui e Spoilers, o autor mostra seu lado mais íntimo, ao falar sobre a vida com suas grandes nuances, e sobre a morte. Mostra a própria alma quando revela sua personalidade tímida na infância e as mudanças que vêm com a idade adulta.

O autor mostra além de sua própria alma, a do leitor. Todo personagem representa cada um de nós. Nos representa, por exemplo, quando ouvimos música no volume máximo para não ouvir os problemas alheios, fugindo da vida, não “estando aqui”. Nos representa quando lemos um livro atrás do outro (não que seja ruim) nos dias de folga sem viagens, sem novidades, quando o mundo está paradinho, pela preguiça de ir em busca de aventuras. Talvez porque tudo isso seja melhor que nutrir problemas imaginários, criados apenas para tirar o sentido que a vida já não tem.

Possuindo também momentos de reflexões quase poéticas, Put some farofa ensina que é mais válido tornar a vida agradável, mesmo quando ela insiste em ser desprezível. Nada melhor que o humor como ferramenta para tal propósito.

Obs 1: alguns deslizes de edição. *O autor confunde nutricionista com médico, no texto Nutrição. *No texto Michelangelo e a Capela Sistina um personagem começa padre e termina papa.

Obs 2: Mesmo após ler o texto Drédito continuei achando-o sem graça, algo já vivenciado com o vídeo Drébito do canal Porta dos Fundos.


JHONS CASSIMIRO

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