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Falar e pensar, sobretudo o que me interessa

JHONS CASSIMIRO

Escrevo sobre tudo que parece ter vida e conteúdo, e que sobretudo tem proveito.

Como se tratam os pretos?

Só pra mostrar aos outros quase pretos(e são quase todos pretos), como é que pretos, pobres e mulatos, e quase brancos, quase pretos de tão pobres são tratados. (Haiti - Gilberto Gil e Caetano Veloso)


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Os últimos dias não tem sido fáceis de digerir. Enquanto o poder legislativo discute e impõe novas leis a respeito da diminuição da maioridade penal, o povo ferrenhamente argumenta e contra-argumenta nas redes sociais e nas ruas sobre um assunto que vai muito além das aparências. Mal sabe ele que seus argumentos pouco, ou quase nada valem em um país dominado por políticos fundamentalistas, hipócritas e que possuem fichas cada vez mais sujas, dispostos a fazer de tudo para deixar de lado uma raça que compõe e dá vida a uma nação.

Há quem fique indignado com o fato de existir pessoas contra a redução, por acharem que jogar delinquentes adolescentes na cadeia é uma punição necessária a quem cometeu um crime.

Nosso sistema carcerário nunca deu bons resultados, dadas as más condições oferecidas para uma possível reeducação do preso. Como alguém pode ser reeducado se outrora jamais foi educado? O país não ofereceu nas últimas décadas, condições para a criação de um indivíduo que pudesse carregar o nome de "cidadão".

Tudo está no papel. Há direito à educação, à saúde e outros bla-bla-blás previstos na Constituição Federal. Mas por que tantos são privados destes direitos, levando-os a caminhos tortuosos? Os maiores atingidos continuam sendo aqueles que tem menos condições, desde os tempos em que foram trazidos à força para trabalhar de graça em um país de criminosos de colarinho branco.

É difícil sequer imaginar a população e os deputados discutindo sobre planos de educação que pudessem trazer algum bom resultado, sabendo que isto só aconteceria quando eles não estivessem mais no poder, não trazendo nenhuma vantagem financeira ou votos em novas campanhas eleitorais. Ninguém tem se importado em oferecer qualidade nos serviços de saúde nas comunidades pobres, nem em elevar a média de livros lidos por uma criança em seu processo de formação. Enfim, não há interesse em concretizar soluções para problemas, mas sim, há uma busca constante pelo "tapar o sol com a peneira". E esta solução traz consigo a exclusão, a separação entre raças, e consequentemente o ódio.

Um bom exemplo sobre a criminalização do negro envolve a questão das drogas. Em tempos em que estes indivíduos eram em sua maioria usuários, a pena recaía sobre estes. Hoje, como não há uma hegemonia entre cores de usuários, a pena maior recai sobre o traficante, de origem negra e favelada. Não se põe em prática a legalização do uso da canabis para a criação de medicamentos capazes de trazer a cura, ou um alento, para quem sofre com doenças ainda pouco conhecidas, por que discutir sobre o assunto pode ser considerado apologia ao crime. O que faz da maconha ser menos ruim do que o tabaco e o álcool? Se estes são legalizados, porque aquela não pode ser? Onde está uma política de saúde que faça com que o indivíduo não necessite se submeter ao uso de qualquer droga? Não existe, porque é mais fácil liquidar ou jogar na cadeia o traficante, que na maioria das vezes é preto ou mestiço como a maioria de nós. É mais fácil levar à favela a presença e a ação de uma polícia que ao invés de servir de segurança, age com o intuito de liquidar vidas. Onde está o Amarildo?

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Onde está a lei da Constituição que diz ser crime tratar o outro com racismo? O país inteiro é tratado cotidianamente com atos racistas. Mais de um século depois da abolição da escravatura ainda há quem tenha coragem de tratar com ódio de maneira pública e descarada uma jornalista - Maria Julia Coutinho - por ela ser negra.

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Em resposta, durante o Jornal Nacional, a apresentadora da previsão do tempo relata com bom ânimo que, por possuir desde sempre uma postura consciente em relação aos seus direitos, devido os pais que a instruíram, ficou feliz por perceber que a maioria do país a defende e repudia a atitude dos racistas. A hashtag #SomosTodosMaju foi a tônica do dia, mas será que somos todos Maju mesmo? É evidente que não. Só seremos todos Maju no dia em que tivermos a consciência e lutarmos pelos direitos e espaços destinados a todos aqueles que conquistam seu lugar na sociedade através da educação, como aconteceu com a jornalista. Foi extremamente válida sua postura ao expor o lado bom do ocorrido (que a maioria repudia o racismo), sem esquecer de dar aos responsáveis a pena necessária.

Enquanto isto não acontece, grande parte da população negra e mulata ainda continua a sofrer com o racismo velado no dia-a-dia, onde tudo gira em torno de "jogar no lixo" uma raça que constituiu o país, que fez com que quase desaparecesse a separação nítida entre as raças, pondo em evidência que somos todos humanos.

Infelizmente essa evidência não é suficiente para fazer com que sejamos bem tratados pelo Estado constituído pelo que restou da elite branca, que continua a mandar e desmandar através de suas políticas aleijadas.

Parafraseando Gil e Caetano, a solução para tudo tem sido criminalizar o preto, o quase preto, o quase branco, porque estes são em sua maioria POBRES. E pobres são como PODRES. E todos sabem como se te tratam os PRETOS...


JHONS CASSIMIRO

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