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Falar e pensar, sobretudo o que me interessa

JHONS CASSIMIRO

Escrevo sobre tudo que parece ter vida e conteúdo, e que sobretudo tem proveito.

A arte e suas indagações

No território livre que a internet nos permite andar, vive uma imensidade de assuntos que nos fazem ver e rever nossas vidas através daquilo que foi escrito, filmado e cantado. Acessar esse conteúdo, quando se tem tempo disponível, é algo que traz satisfação garantida.


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Certas coisas acontecem não por estarmos em busca delas, mas quando se para pra pensar a seu respeito, nota-se a presença de uma possível sincronicidade, que se bem observada, traz um momento de reflexão a respeito de algum assunto que tenta nos acordar para a vida.

Atualmente a arte é algo presente no cotidiano de qualquer um que a busca, pela facilidade de acesso que se tem para encontrar músicas, filmes, livros que estejam dentro do gosto indiscutível de cada pessoa. No território livre que a internet nos permite andar, vive uma imensidade de assuntos que nos fazem ver e rever nossas vidas através daquilo que foi escrito, filmado e cantado. Acessar esse conteúdo, quando se tem tempo disponível, é algo que traz satisfação garantida. E essa falta de tempo faz com que tenhamos pouco contato com a beleza ali contida.

Para corrigir esse deslize, resolvi rever alguns filmes, livros e músicas que se tornaram cativos no meu HD. Não são muitos os filmes que mantenho a salvo. A maioria é deletada após uma breve estadia, principalmente quando minha capacidade cognitiva não encontra algo que possa ser considerado como producente, ou pelo menos, tenha alguma beleza que valha a pena gastar espaço na memória do computador.

Escolhi ao “acaso”, a pasta de Pedro Almodóvar, que lançou em 2011, A pele que habito, trazendo criatividade e ousadia ao tratar de uma história, no mínimo original.

Sou o que aparento ser? Estou onde quero estar? Convivo com quem quero viver? A-PELE-QUE-HABITO02.jpg

Próximo ao final do filme, quando a personagem principal chega à loja de sua mãe, fala com sua antiga amiga e revela ser quem é, tudo acaba, no melhor estilo europeu. Nada mais precisa ser dito. Não importa o que aconteceria depois, tudo está em seu lugar. A mensagem já está passada. O que cada espectador interpreta do filme não pode ser unificado, mas fica claro que o resumo da película está em seu título.

A pele que habito, mostra que apesar de estarmos aprisionados em carcaças fabricadas, lá no fundo, continua escondida aquela mesma pessoa, que antes de ser modificada, possuía seus desejos, medos e atitudes, que podem ser encarados como errados por uma suposta lei que nos rege. Essa pessoa jamais deixa de existir por estar ligada aquilo que nos torna humanos, a liberdade de ser e agir como quiser. É um filme de drama e suspense que de cara dá a impressão de ser uma história impossível, dado os absurdos dos fatos cometidos pelos personagens.

Quando se fala em histórias absurdas, vem em mente as mais diversas distopias clássicas que sempre despertam interesse por fazer o leitor enxergar o que antes podia estar oculto em seu cotidiano. Sob essa ótica, a história contada em A pele que habito (que não é uma distopia) se torna totalmente possível. A lição que ele passa faz o espectador se enxergar como sendo a própria personagem principal que fora modificada por alguém para poder se enquadrar em padrões, ou para satisfazer a vontade de um tirano louco.

Sou um indivíduo com minhas característica únicas ou apenas mais um mecanismo pertencente a uma sociedade controladora? laranja_mecanica.jpg

Por falar em distopias – essas histórias onde uma sociedade vive ideologicamente prisioneira de uma ordem superior – li a que seja talvez, a mais próxima da vida real dentre todas elas. Laranja mecânica, livro publicado por Anthony Burgess em 1962, traz um alerta e uma crítica sobre o mundo em que vivemos. A temática da individualidade reaparece ao sermos apresentados à lavagem cerebral feita em Alex, personagem principal, que se transformou na laranja mecânica. É certo que há quem critique este livro, acusando-o de apologia à violência. Isto acontece principalmente com quem viu apenas cenas do filme dirigido por Stanley Kubrick, que como sempre magistral, traduziu em imagens no cinema esta história genial. Há também quem fique feliz ao ver Alex se tornar vítima da violência que outrora ele mesmo praticava.

No mundo real, controlado pelas leis do certo e do errado, o indivíduo mau é sempre punido (ou pelo menos deve ser). A violência de quem pune (a polícia) é vista como normal, corroborando a ideia daqueles que concordam que devemos ser punidos violentamente pelas atitudes divergentes que cometemos.

As atrocidade praticadas por Alex e seus drugs, são obviamente absurdas e precisam ser corrigidas ou controladas, mas o fato é que se trata de ficção, onde a ideia é passar através do exagero, o que a sociedade é capaz de fazer para moldar seus cidadãos e manter a ordem a qualquer preço.

Trazendo a ideia para proporções mais realistas, quando o indivíduo é diferente, quando se tem ideias ou aparência estranhas, atitudes vistas como fora do padrão, a sociedade faz o papel de corretora. De maneira quase inconsciente, aprendemos que “o certo é saber o que é certo é certo”. Nossa vontade passa a não ter vez e a criança sonhadora que um dia desejou ser algo mais, passa a acreditar que não pode, pois não está dentro das normas do normal.

Passeando pelo Youtube, pode-se assistir a uma entrevista feita à cantora brasileira Adriana Calcanhotto, em uma emissora de Portugal.

Tenho que ter “bom gosto”, “bom senso”, “bons modos”?

Adriana revela coisas pessoais e se mostra como nunca, em outras entrevistas dadas no Brasil, onde sempre agiu com discrição em sua vida cotidiana. Após assistir a esta entrevista, compreendi pela primeira vez o porquê de toda revolta contida na música que abre o álbum Senhas. A música homônima nunca havia soado com tamanha concordância em meus ouvidos. Adriana critica a sociedade que nos impõe o bom gosto, os bons modos, como forma correta de agir. Durante anos admirei a música em questão, por sua beleza estética, mas não atinava o porquê dela não gostar de bom gosto.

Na capa de seu primeiro álbum, Enguiço, a cantora aparece vestida com uma roupa considerada de mau gosto, para os padrões que a sociedade impõe. Cabelo e calça são amarelo-ovo, completados como um casaco vermelho. Segura um maço de flores, apoiada em uma parede verde de uma casa com portas azuis.

É como se ela estivesse dando uma resposta àquela sociedade que a oprimiu quando andava por sua cidade (Porto Alegre) vestida daquela maneira, pois não se tratava de uma personagem. Ela quis mostrar que poderia ser quem quisesse ser, vestir-se como bem entendesse, gravar poesias e transformá-las em música popular que toca nas rádios.

Não escapou do rótulo de esquisita, e revela que mesmo sobre os olhos críticos e debochados, ela não conseguia se vestir ou agir como o “bom gosto” exigia.

“As pessoas riam de mim, mas eu tinha convicção daquilo. Eu não queria o bom gosto como representação de status. E riram muito de mim, muito...” (Adriana Calcanhotto)

Na vida social tudo tem um preço, e não seria diferente em relação às regras de convivência.

Não estar dentro do normal não é algo bem visto. Na maioria das vezes nem se percebe a morte do indivíduo sonhador e livre que um dia existiu dentro de cada um, antes que a mão corretora ditasse todas as regras. No momento em que se percebe que se vive em uma quase distopia, algo começa a nos incomodar e surgem as perguntas.

A arte vem e nos dá além de respostas, muitas outras indagações que nos fazem bem melhores.

Imagens dos filmes "A pele que habito" e "Laranja Mecânica". Vídeos do Youtube.


JHONS CASSIMIRO

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