above all

Falar e pensar, sobretudo o que me interessa

JHONS CASSIMIRO

Escrevo sobre tudo que parece ter vida e conteúdo, e que sobretudo tem proveito.

Um livro para não esquecer

Imersos em tempos de crise, nos vemos bombardeados de informações contraditórias vindas de todos os lados, nas mais diversas plataformas. Apesar de existir um fato verídico, inquestionável (a política feita no país não possui mais credibilidade), existe também uma confusão de opiniões a respeito da visão de mundo.


FotorCreated.jpg

Existe um clichê que diz que o brasileiro tem memória curta. Ela sempre pode faltar, seja devido uma doença como o Alzheimer, seja por manipulações das histórias contadas por quem detém o poder da palavra na mídia, ou até mesmo por objetos que nos induzem à crença da existência de fatos, como é o caso das fotografias. Os fatos são comprovados pelas fotografias ou elas criam versões dos fatos? Se passarmos a questioná-los, perceberemos que pouco sabemos.

Marcelo Rubens Paiva não tem certeza até hoje do que de fato levou seu pai para a morte, mas é mais do que comprovado que o deputado Rubens Beyrodt Paiva foi uma das inúmeras vítimas de um tipo de governança desumana que cantou ordens obscuras, atravessando três décadas recentes da história do Brasil.

Ainda estou aqui, título do mais recente livro do escritor paulistano, traz de volta a visão de mundo de um homem que outrora se viu atingido pela paraplegia (história narrada em Feliz ano velho) , mostrando-se como alguém forte que, apesar do grande impacto que o acidente causara, conseguiu levar a vida adiante. Buscou dignidade e deu o merecido respeito que o deficiente físico merece. Em seu livro de estreia, retira o cadeirante da posição de escanteio e o põe no centro da vida, através de histórias bem humoradas.

A visão de mundo que agora retorna, de homem real (não personagem), vem mostrar ao leitor, o poder da memória em sua vida. Representa além de uma bela homenagem a sua família e principalmente à sua mãe, portadora de Alzheimer, doença caracterizada pela demência, uma contribuição à história do Brasil.

Como um grito de alerta, o escritor expõe seu passado para mostrar fatos que ele não deseja que sejam revividos por nenhum cidadão deste país. Os acontecimentos desconhecidos pelo grande público, como a tortura e morte de seu pai, foram revelados por um filho que teve parte de sua vida destroçada por um regime hediondo. Apesar de ser contada racionalmente, a história do ex-deputado demonstra nas palavras do filho o grande afeto existente em sua família, que de uma hora para outra, vê sua felicidade ser ameaçada por acontecimentos ruins sucessivos.

Imersos em tempos de crise, nos vemos bombardeados de informações contraditórias vindas de todos os lados, nas mais diversas plataformas. Apesar de existir um fato verídico, inquestionável (a política feita no país não possui mais credibilidade), existe também uma confusão de opiniões a respeito da visão de mundo.

A sociedade brasileira chegou a um ponto onde os comportamentos se inverteram. Outrora, ser velho era ser careta e ser jovem era ser libertário, contestador de uma ordem central controladora. As redes sociais dominadas pelos jovens de hoje, são as potentes armas onde se disseminam os pensamentos destes usuários. Uma cornucópia de opiniões recheadas de ódio embutido nas palavras de ordem, gritam através do silêncio dos visores mudos dos smartphones. E quem se aproveita da situação são os políticos ávidos pela conquista desse novo público.

Há quem diga que comentário de YouTube, opinião de Facebook e Twitter não tem valor. Nada mais enganoso que isto, pois representa e expõe aquilo que o jovem de hoje pensa do mundo. Existe grande defesa pela volta da ditadura, exaltação a políticos preconceituosos, misoginia, homofobia, racismo, xenofobia... e a busca pela moral e os bons costumes estão com toda força nas palavras do novo brasileiro. Não é a insatisfação pela corrupção política, pois este ato ilícito é cometido e aplaudido por cada um de nós, todos os dias (triste, dura e verdadeira constatação).

Grande parte da influência do moralismo, e da luta contra o "comunismo" do governo atual, certamente se deve ao crescimento das religiões evangélicas que se mostram mais efusivas até mesmo que o catolicismo quando o assunto é moral. Esta é uma palavra bastante questionável, quando se observa o que ela trouxe ao ser imposta pelos militares nas décadas passadas.

Ao invés de buscar ética e educação, nós brasileiros estamos fingindo que o que precisamos é de proibições e limitações absurdas que em nada acrescentariam. Ainda estou aqui, vem fazer lembrar que os velhos da atualidade foram os responsáveis pela luta pela liberdade que hoje usufruimos a todo instante, quando twitamos asneiras e colocamos facínoras nos trending topics, exaltando-os, por terem endeusado criminosos de colarinho branco ou torturadores da época da ditadura militar. Nos faz lembrar que precisamos usar a memória enquanto a temos, em busca de construir um país e uma vida mais digna, livre das amarras que nós jovens estamos estranhamente buscando. Ainda estou aqui é muito mais que um livro de memórias de família. Vai além disso, dá um zoom na história do tempo que nos cerca e que estamos inseridos. Faz-nos ver o quanto somos cegos a respeito dos absurdos cotidianos que nos rondam em um país repleto de incoerências.

Que as lembranças não sejam perdidas. Que as memórias não deixem de existir. Que os abençoados pela saúde mental busquem a história e sejam capazes de honrar a si mesmos como cidadãos.


JHONS CASSIMIRO

Escrevo sobre tudo que parece ter vida e conteúdo, e que sobretudo tem proveito..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/literatura// @obvious, @obvioushp //JHONS CASSIMIRO