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Falar e pensar, sobretudo o que me interessa

JHONS CASSIMIRO

Escrevo sobre tudo que parece ter vida e conteúdo, e que sobretudo tem proveito.

Tempo bom, tempo ruim

Os anos passados foram incríveis, realmente. Hoje vivemos em tempos rasos, dirão alguns. Mas é o nosso tempo. Vivemos em tempos de estresse e solidão. Está tudo confuso. É tempo bom e tempo ruim, mas é o nosso tempo e não dá pra fugir disso.


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Se fosse os anos 90, talvez o menino estivesse jogando bola com os vizinhos no meio da rua. Enquanto isso os adolescentes e jovens, também nas calçadas, estariam conversando entre si, da mesma forma que os adultos estariam nos bares tomando cerveja, batendo papo e ouvindo música de fossa. Mas são os anos 10 do século XXI, em sua segunda metade. Não existe segurança para criança alguma brincar na rua durante o dia, muito menos à noite. Adolescentes com sua rebeldia natural, sairão pelas ruas violentas e certamente terão seus pertences roubados pelos delinquentes que brotam sem cessar. Muitos adultos continuam nos bares, ou em qualquer lugar que a moda diga que é necessário ir para se mostrar um ser social.

Como as crianças brincam, o que os adolescentes e adultos fazem, pouco importa. Existe nesse momento algo em comum entre eles. Todos fazem parte de grupos que conversam sobre os mais diversos assuntos, desde frivolidades, cultura, filosofia, ao mesmo tempo em que enviam nudes e proliferam a falação de merda.

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A oralidade tornou-se algo raro. Não é normal telefonar para ninguém, a não ser em alguns casos relacionados ao trabalho, mas escrever (digitar, para ser mais correto) tornou-se a lei da comunicação. O WhatsApp é o aplicativo rei.

Aqueles que são críticos a tudo que é novo, veem com maus olhos essa forma de interação, uma vez que as vozes foram reduzidas nas praças, nos bares, nas ruas, dentro de casa. Todos olham para o smartphone e conversam infinitamente com pessoas conhecidas e outras que jamais encontrarão pessoalmente. Não é um Second Life, é o real do nosso tempo. A globalização no seu auge, como ninguém poderia prever, trouxe para vida de qualquer indivíduo, a companhia nos momentos de solidão.

Nos anos 90 havia as fitas k7, algumas bege, outras cinza transparente, mas todas piratas. Muitas músicas foram gravadas, uma em cima da outra, sons de péssima qualidade captados pelo chiado do rádio. Na estante, quantos livros existiam? Talvez nenhum, mas já desejava escrever e ser lido por alguém. Não existia o OBVIOUS. Onde poderia escrever? Em um caderno velho, quem sabe. Mas quem iria ler? Ninguém, obviamente. Filme só na Sessão da tarde, e apenas besterol americano; séries de qualidade só na TV Cultura que raramente pegava. Um dos brinquedos repetidamente comprados e quebrados eram as lanternas, usadas para fingir que estava acampando debaixo dos cobertores, enquanto ouvia-se músicas de gosto duvidoso no Walkman, por falta de qualquer opção melhor.

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Ao concentrar tudo de útil dentro de um só aparelho, a tecnologia pôs o homem em frente à uma pequena tela que dá passagem para mundos fantásticos. Já existiram outras telas importantes, que fizeram o mesmo papel, em outras épocas. O livro, a televisão, o Windows, todos levaram o homem adiante em sua busca pelo conhecimento e pela aniquilação/criação da solidão.

Hoje é quase impossível não ser encontrado, lado ruim da tecnologia, para quem não quer ser incomodado. Em pleno sábado, o chefe pode solicitar seu subordinado com assuntos que ele não gostaria de ouvir. Em pleno sábado, muita gente cansada de uma semana de trabalho não quer sair de casa, apenas se refestelar em seu colchão, ouvir suas músicas preferidas, aguardar ansiosamente pelo episódio novo de sua série favorita que vai passar no domingo, conversar com os amigos sobre isso e tudo o mais.

Possuir todos os álbuns do cantor favorito é algo perfeitamente viável e carregá-los para qualquer lugar que quiser também, mesmo que este cantor possua mais de 40 discos lançados. No smartphone cabe o mundo, e tem sempre a música certa para tocar no momento propício.

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O que há de novo no mundo dos livros, e qual a opinião dos meus colegas do grupo Mundo literário? O que eles pensam sobre determinado livro? Podemos escolher um e discutir sobre ele. Clubes físicos ainda existem, mas não são comuns. No WhatsApp, onde tudo pode ser conversado, muitos clubes podem ser criados.

Discutir sobre temas da atualidade tem sido o foco no pequeno grupo Obvious, onde restaram três mulheres e um homem. Nos últimos dias, esteve em pauta a questão do feminismo. Gente que escreve bem, teclando seus pensamentos a respeito de possíveis novos textos que surgem ao longo de uma discussão. Ao mesmo tempo há os momentos de descontração, onde os memes dominam e alegram os finais de noite. Os poucos que restaram, todos nordestinos fortes, resistentes, jamais se encontraram pessoalmente, mas mantém uma amizade saudável e verdadeira. Como se estivessem em um banco de praça nos anos 90, Dom, Jhons, Rey e Rosita expõem suas angústias de vida, suas crises e seus momentos bons. Muitos papos se refletem nos textos da Noites na Taverna, Atenciosamente...Dominique, Dona Efêmera e dona Perpétua e aqui no Above All.

Nos anos 90, com quem poderia conversar sobre algum episódio de Anos Incríveis e a vida de Kevin Arnold? No meu círculo de amizades ninguém assistia. Segunda-feira, nos tempos atuais, é dia de falar de Game of Thrones e de ficar indignado com a morte de algum personagem por qual se possui afinidade. Segunda-feira é dia de reclamar através de memes que mais uma semana começou repleta de trabalho, ansiosos para que chegue o final de semana, quando se pode enviar algum vídeo comemorando o fato de ser sexta-feira.

Os anos passados foram incríveis, realmente. Hoje vivemos em tempos rasos, dirão alguns. Mas é o nosso tempo. Vivemos em tempos de estresse e solidão. Está tudo confuso. É tempo bom e tempo ruim, mas é o nosso tempo e não dá pra fugir disso.

Imagens retiradas da internet


JHONS CASSIMIRO

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