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Falar e pensar, sobretudo o que me interessa

JHONS CASSIMIRO

Escrevo sobre tudo que parece ter vida e conteúdo, e que sobretudo tem proveito.

Mata Hari e outros injustiçados

"Talvez algum dia a história faça justiça a você,embora eu duvide. Você não foi apenas uma pessoa acusada injustamente de espionagem, mas foi alguém que ousou desafiar certos costumes, o que é imperdoável". (Paulo Coelho em A Espiã)


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A literatura de Paulo Coelho está repleta de personagens que no passado foram condenados arbitrariamente por ousarem ser diferentes daquilo que a ordem comum da época - seja ela qual fosse - dizia ser o correto.

Talvez a intenção esteja justamente ligada ao escárnio que a crítica literária brasileira faz ao escritor. Através de seus personagens, redime a si mesmo da "culpa" por ser aquilo que ele sempre quis.

Em seu mais novo livro, A Espiã, uma frase dita pela protagonista chama a atenção a respeito disso: "Hoje, enquanto escrevo isso, entendo que minha mãe estava falando de si mesma". Quando falamos sobre o outro, estamos falando de nós mesmos, para que possamos nos justificar e compreender nossos passos.

A Espiã conta a história de Mata Hari, uma mulher que esteve a frente de seu tempo, ao mostar-se como alguém livre através de suas apresentações de dança na Europa no início do século XX. Por sua ousadia foi julgada como espiã de guerra e condenada sem prova alguma.

Implicitamente percebe-se a influência do falso moralismo ao redor do mundo, em todas as épocas, que torna a se repetir século após século, independente do lugar, visto que a personagem fora condenada pela França, país no qual encontrou a liberdade durante a vida, que teve ceifada pelo mesmo motivo.

SOBRE OS OUTROS INJUSTIÇADOS

"As memórias sempre vencem (...) como se eu quisesse voltar no tempo mergulhando neste rio que corre para trás."

Eternizar memórias é um dos papéis fundamentais de um escritor. Dessa forma, Paulo Coelho vem trazendo em seus livros, histórias de pessoas que outrora foram escorraçadas pelos "homens de bem" e dando a elas a honra merecida pelo fato de terem transformado seu cotidiano ordinário em algo mais especial, numa vida mais pulsante.

Os assuntos envolvidos são diversos, desde religiões não tradicionais (como a Wicca em Brida e a "bruxaria" de uma maneira geral em O Aleph e A bruxa de Portobello) ; xenobia (quando traz a cultura cigana em A bruxa de Portobello); prostituição (com as personagens principais de Onze minutos e A Espiã); adultério (no livro homônimo); depressão e suicídio (em Veronika decide morrer) e sobretudo o feminismo (presente em inúmeros livros, e não diferentemente em A Espiã).

Ao não encontrar provas que pudessem incriminar Mata Hari, seus acusadores utilizaram o ódio contra a mulher livre como base de suas absurdas acusações.

Ao não aceitar o culto à deusa mãe, Athena (de A bruxa de Portobello) foi humilhada pelo padre de sua paróquia e pela sua cidade, como milhares de outras mulheres, homens e gatos que foram acusados na Idade Média de terem ligações com seres do mal, apenas por não seguirem a doutrina católica.

Da mesma forma, as prostitutas (Maria de Onze Minutos, Mata Hari de A Espiã e as prostitutas do mundo inteiro) serão eternamente escrachadas por fazerem uma escolha diferente sobre o uso de seu próprio corpo.

Ainda em A Espiã, podemos observar outra homenagem a um escritor que em sua época fora desprezado, julgado e preso pela sua conduta sexual. Oscar Wilde é citado, além da presença de uma das suas mais belas histórias, servindo como analogia para a vida da personagem em questão.

Fora dos livros, Paulo Coelho teve a audácia de citar nomes de alguns escritores que não conheceram a glória acadêmica. Em seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, citou Vinícius de Moraes, José Mauro Vasconcelos e Malba Tahan, a quem atribui responsabilidade na gestação de sua história mais conhecida, O Alquimista.

Ele próprio é alquimista, não por transformar metal em ouro, mas por trazer do subsolo para a luz, personagens importantes que não merecem permanecer na lama da história.

"Somos todos protagonistas de nossas existências, e muitas vezes são os heróis anônimos (...) que deixam as marcas mais duradouras." (A Espiã)


JHONS CASSIMIRO

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