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Falar e pensar, sobretudo o que me interessa

JHONS CASSIMIRO

Escrevo sobre tudo que parece ter vida e conteúdo, e que sobretudo tem proveito.

Chora depois, mas agora deixa sangrar

Não é que a dor não exista, mas o tamanho da importância que o homem dá a ela é ínfima perto do ato que ele pratica. Ele está vivo e a vida pede que ele aja. Através da ação ele põe o mundo em movimento, alimenta suas crias, a si mesmo, conquista tudo aquilo que está disposto a ter.


008777_Ampliada.jpg "Deixa sangrar" - arte de Ilustrassom

Era uma manhã qualquer na vida do homem pré histórico. O sol estava escaldante e há muito tempo não chovia naquela região. Na mata há um emaranhado de galhos secos atrapalhando a colheita das frutas, que intensamente vermelhas, pedem para ser tiradas das árvores e se transformar em alimentos. O homem vai, escancha-se por entre os galhos que sem dó rasgam a pele. É necessário puxar com força algumas frutas que estão mais altas, isso faz com que o risco aumente, o galho pode quebrar. A fruta vermelha é alcançada, a coleta do dia termina. O homem sequer percebe, mas seus dedos perderam pele, há arranhões em seus braços, há poeira em seus olhos.

Não é que a dor não exista, mas o tamanho da importância que o homem dá a ela é ínfima perto do ato que ele acabara de praticar. Ele está vivo e a vida pede que ele aja. Através da ação ele põe o mundo em movimento, alimenta suas crias, a si mesmo, conquista tudo aquilo que está disposto a ter.

O guarani por Tiago Versalles.png "O Guarani" - arte de Tiago Versalles

Era uma manhã qualquer na vida do homem contemporâneo. Ele mora sozinho numa casa que possui um quintal com árvores frutíferas. Há muito percebeu que, apesar da longa seca que assola sua região, as árvores estão sempre oferecendo alimentos. Há galhos secos atrapalhando o acesso às frutas. Elas estão no topo e para quem apenas olha, não é fácil alcançá-las.

O homem está mal alimentado. Em sua geladeira não há novidades, assim como em sua vida. Come alimentos congelados, vive uma vida congelada.

O supermercado é uma selva que precisa enfrentar, mas falta-lhe coragem hoje. Talvez amanhã, quem sabe compre alguma fruta para fazer refresco. Sente uma vontade imensa ao pensar nisso. Vai até seu quintal novamente, repara no topo das árvores e vê que intensamente vermelhas, as frutas imploram para serem colhidas.

Tem uma escada, pode perfeitamente alcançar aquilo que tanto deseja, mas é preciso encarar o sol, que despedaça a sensível pele do homem contemporâneo. Tem também que ultrapassar os galhos secos que rasgarão seus dedos e braços. Ao mecher nos galhos mais altos cairá poeira em seus olhos.

De súbito sente uma coragem, que não sabe de onde vem. Talvez a parte primitiva de seu cérebro esteja gritando por atenção. Resolve então encarar a situação. Posiciona a escada, sobe com cuidado (leia-se medo), olha ao redor e vê seu quintal, sua casa, de um ângulo nunca visto.

Encantado com isso, esquece o seu objetivo inicial, saca o celular do bolso, faz fotografias no meio dos galhos frutíferos. Faz selfies enquanto já imagina as hastags que acompanharão as publicações no Instagram. A coragem e a vontade, que haviam surgido minutos antes foram esquecidas. Desceu das árvores, foi postar as fotos.

JAMES DEAN BUBBLE GUM por Dani Pires.png "James Dean Bubble Gum" - arte de Dani Pires

Nós últimos anos tudo ficou muito fácil. Terceirizamos atitudes, esperamos que tudo caia de bandeja em nossas mãos e, incrivelmente ainda temos a audácia de reclamar da vida.

Falamos em crise, ouvimos notícias de política, crimes, corrupção. Abrimos o Instagram e vemos os outros fingindo felicidade, assim como nós também fazemos. Aos finais de semana somos contemplados por uma enxurrada de fotos nas mais belas praias.

Bate a melancolia, a depressão por não poder estar em uma praia paradisíaca (que fica a não mais de duas horas de distância) e depois de repetidos finais de semana melancólicos resolvemos dar ouvidos ao ser primitivo que há em nós.

Quando isso acontece, considere-se abençoado. Encontrar a si mesmo em meio ao caos, à desgraça e à glória da vida, é como ser sorteado em um prêmio milionário, em que a gratificação é a percepção da beleza de estar vivo em meio a tudo isso.

Nessa hora o homem olha pra dentro, relembra seus sonhos, suas atitudes atuais e percebe o quanto está inerte, e constata que seus dias serão todos iguais e infelizes enquanto permanecer com atitudes nulas.

O sol vai estar sempre despedaçante, o mundo será sempre um caos, a política será sempre uma zona, a vaidade será sempre uma bobagem. É preciso perceber a necessidade de estar de fora disso tudo, perceber que o mundo primitivo continua vivo.

A fruta vermelha a ser alcançada na colheita é aquilo que o homem almejou quando mais jovem. Se ele não correr atrás disso, encarando os "galhos secos nas altitudes das árvores", estará condenado à uma vida congelada, um mundo sem dores, sem feridas, sem "poeira nos olhos" e totalmente inútil.

Expor-se a essas intempéries não significa expor a dor ao mundo, chorar e mostrar-se menor que os outros, digno de pena, mas estar contente por ter a capacidade de perceber que o homem primitivo ainda está acordado em você, disposto a ir à caça, enfrentar os riscos do mundo, voltar pra casa com a certeza que está adequado em si mesmo.

É aquilo que precisa ser, percebe as dores, mas ao invés de chorar, vive a vida, deixa sangrar.

041092-PM-001-047_detalhes.jpg "Era sol que me faltava" - arte de Tom Almeida

PS. 1: este texto foi inspirado na vida cotidiana, na canção "Deixa Sangrar" de Caetano Veloso e no livro "Guia politicamente incorreto do sexo" de Luiz Felipe Pondé.

PS. 2: Todas as artes foram retiradas do site urbanarts.com.br e estão com seus devidos créditos.


JHONS CASSIMIRO

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