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Falar e pensar, sobretudo o que me interessa

JHONS CASSIMIRO

Escrevo sobre tudo que parece ter vida e conteúdo, e que sobretudo tem proveito.

Aquarius e a liquidez dos dias atuais

Um grito que pede para continuar sendo ouvido, uma tentativa de revelar aos mais jovens que o passado é uma história que precisa ser preservada, revista e considerada, para que seja possível entender este presente tão raso e líquido em que nos encontramos.


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O mundo vê sua cultura passar por constantes transformações, algo natural ao decorrer da história.

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman, em seu livro A cultura do mundo líquido moderno, observou que ao indivíduo atual não cabe mais o esnobismo de outrora, onde o homem culto era aquele que vivenciava apenas a “grande arte”, saboreava-se de música de elite e livros cult; ao passo que desprezava a cultura de massa, a “música de plástico” e as novas formas de consumir a cultura.

Segundo o citado autor, pro homem atual nenhum produto da cultura lhe é estranho, e ao mesmo tempo, com nenhum deles se identifica cem por cento. Sente-se em casa em qualquer lugar, embora não haja um lugar que possa chamar de lar.

Talvez seja por isso que as coisas tenham perdido a profundidade, um valor que outrora as pessoas cultivavam.

No filme Aquarius do diretor Kleber Mendonça Filho, a personagem interpretada por Sônia Braga (Clara) é aquele tipo de pessoa que se caracteriza como símbolo de um tempo que está se indo.

Ela é “madeira de lei que cupim não rói”.

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Isso não significa que seja rígida e extremista em suas posições, pelo contrário, se mostra mulher independente e bem-sucedida, aberta ao novo que sempre vem. Mas está disposta a encarar com firmeza os desafios que a vida impõe. Não se deixa abater e não admite que sua história, seu modo de viver, suas memórias sejam jogadas fora, mesmo que para isso tenha que enfrentar embates tidos como quase impossíveis, contra aqueles que possuem um poder maior que o seu. Aquarius se mostra extremamente atual ao levar ao espectador características de uma sociedade que se encontra em processo de liquidez, esvaindo os valores, as histórias, as emoções, a vida. O diretor usou a imagem da casa (Edifício Aquarius) para demostrar a importância do lar na história de uma pessoa. Se nos dias atuais, o indivíduo se sente tão globalizado a ponto de não reconhecer nenhum lugar que possa chamar de lar, constitui-se aí um problema, visto que a ideia de lar pode ser entendida não apenas como a casa de morada, mas também seu bairro, sua cidade, seu país e o próprio planeta.

Se ele não reconhece um lugar qualquer como lar, significa que não se importa com os problemas que aquele lugar enfrenta. Ao não se identificar com os problemas, sente-se livre para entregar de bandeja sua própria história a quem tem interesses escusos.

capture-20161114-212207.png "Toca Maria Bethânia, mostra pra ela que tu é intenso"

Apesar de poder se encaixar em qualquer lugar do mundo, a história de Aquarius se passa em Recife e é bastante clara a alusão que o diretor faz à “arquitetura do medo”, onde as grandes construtoras vendem a ideia de vida segura dos grandes edifícios em oposição à simplicidade das casas e pequenos edifícios. Impossível não correlacionar a história com o Movimento Ocupe Estelita, que vem tentando impedir a construção de 12 torres de cerca de quarenta andares de uso estritamente privado, em uma área que antes era pública (apesar de não ocupada), o antigo cais José Estelita. O povo da capital de Pernambuco conseguiu perceber que estava sendo privado de espaços que lhe pertenciam e que poderiam ter um uso coletivo cultural, esportivo, educativo, mas que estava sendo entregue para os grandes empresários.

recife.jpg A história do diretor pernambucano se passa em Recife

Os conflitos que Aquarius apresenta (de gerações, de classes sociais...) mostram a cara atual do país que vive momento de efervescência relacionada ao descontentamento e à busca pelo direito à voz, à discussão, ao questionamento relacionado a tudo que envolva a sociedade. Além de tratar dos relacionamentos interpessoais, da rejeição ao corpo não-ideal, das tecnologias novas e antigas que podem conviver sem conflito, enfim, mostra uma visão geral dos dias atuais.

Mostra-se como um grito que pede para continuar sendo ouvido, uma tentativa de revelar aos mais jovens que o passado é uma história que precisa ser preservada, revista e considerada, para que seja possível entender este presente tão raso e líquido em que nos encontramos.


JHONS CASSIMIRO

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