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Falar e pensar, sobretudo o que me interessa

JHONS CASSIMIRO

Escrevo sobre tudo que parece ter vida e conteúdo, e que sobretudo tem proveito.

Faltou luz, mas era dia

Quando falta luz é hora de nos enxergar como seres sensoriais e dar chance para nossa "baixa tecnologia"


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O mundo estava em silêncio, algo inesperado havia acontecido.

Já estava no final do expediente, mas ainda tinha muito a ser feito. O trabalho ainda não estava completo e a matéria prima mais utilizada havia sumido. Faltou luz, mas era dia.

Há 5 minutos podia ouvir a rua barulhenta que encharcava meus ouvidos com o marketing das casas comerciais. Ninguém respeitava o limite, e a poluição sonora era lei em meio ao alvoroço do cotidiano. Confesso que não consigo lembrar sequer algum anúncio que eles fazem, sequer uma música de gosto duvidoso que eles tocam. Eu só lembro que tocam. Mas agora tudo está em silêncio, ou quase isto.

Se presto atenção posso ouvir algumas vozes pueris, que alegres voltam para casa após um dia na escola. Essas vozes sabem brincar e permanecem bonitas aos ouvidos.

Elas brincam pelas ruas.

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Ouço também vozes adultas felizes, interagindo, sorrindo, gargalhando. Os vizinhos estão em festa, parece uma confraternização. Batem palmas, cantam, sorriem cada vez mais.

Por aqui ainda há trabalho a fazer e não posso utilizar a eletroterapia, uma parte importante em meus tratamentos.

As ondas sonoras em Megahertz, inaudíveis ao ouvido humano, já não podem penetrar através dos tecidos do corpo, interagir com as moléculas, aumentar o fluxo sanguíneo, realizar a síntese das proteínas, desempenhar seu belo trabalho de regeneração tecidual. O estímulo elétrico sob os nervos subcutâneos já não podem ascender através do sistema nervoso e bloquear as dores de quem sofre. A radiação eletromagnética da laserterapia já não pode me ajudar com sua rapidez e eficiência. Não posso dispor da alta tecnologia.

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Olho para minhas mãos, para minha voz e para minha alma. É apenas o que me resta.

Elas tem o poder de transmitir o toque, que na maioria das vezes é o que mais as pessoas necessitam: ser tocado no corpo e na alma.

A mão sobre a pele não é somente um contanto que exige mais intimidade, é através desse contato que as pessoas permitem ser notadas e disponíveis para ter suas dores erradicadas.

Posso olhar mais para meus semelhantes, enxergá-los, escutar mais sobre suas tristezas, posso estar com os ouvidos e a alma abertos para trocar lamentos e apresentar saídas.

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É necessário que as almas se encontrem, que as vozes sejam ouvidas, que as mãos se toquem, que os abraços sejam dados.

Aos poucos as dores vão embora junto com as pessoas. O dia está escurecendo, os vizinhos ainda cantam e na rua, no topo das árvores, os pássaros também irradiam alegria.

Do pouco que se vê do céu, nota-se as nuvens de cor laranja tingindo um céu azul escurecido que já apresenta algumas estrelas mais intensas.

Daqui a pouco a luz vai voltar. As ruas ressoarão seus barulhos desagradáveis, os vizinhos colocarão seus smartphones na tomada e passarão a olhar para eles com devoção.

Eu certamente farei o mesmo, mas já não posso esquecer o que sobrou do céu.

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P.S.: Esse texto foi inspirado na vida cotidiana e na música "O que sobrou do céu" de Marcelo Yuka

Todas as imagens desse texto são vencedoras da terceira edição do Concurso de Imagens em Ciências da Vida do Instituto de Ciências Biomédicas da USP.

Foto 1: Nebulosa de Eta Carinae sobre a Pedra da Boca, no município de Araruna, Paraíba. Foto de Anna Leticia de Lima Silva

Foto 2: Cartilagem de vértebra humana corada pela técnica de picro-sírius, evidenciando as fibras colágenas em tons que se assemelham a labaredas de fogo. Imagem de Paulo Henrique de Matos Alves

Foto 3: Tendão da pata de rato após duas semanas de lesão, com algumas hemácias entre as fi¬bras colágenas. Foto de Diego Pulzatto Cury

Foto 4: Célula de meduloblastoma humano. Foto de Beatriz de Araújo Cortez

Foto 5: Poeira cósmica na Via Láctea capturada por longa exposição em Minas Gerais, minutos antes do nascer da lua cheia. Foto de Raul Ernesto Pereira


JHONS CASSIMIRO

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