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Falar e pensar, sobretudo o que me interessa

JHONS CASSIMIRO

Escrevo sobre tudo que parece ter vida e conteúdo, e que sobretudo tem proveito.

Quando a arte nos derruba

O momento em que a arte nos encontra e mostra o quão dramática ela pode ser de maneira assustadoramente semelhante com a vida real.


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Para o poeta Ferreira Gullar, a arte existe porque a vida não basta.

Talvez para ele a arte fosse a motivação para realizar algo que oferecesse completude e preenchesse os espaços vazios espalhados no cotidiano. Sua visão poética lhe serve como verdade, por ele ser um homem da arte. Ela (em suas diversas formas – a poesia, o cinema, a música...) não serve apenas para os que a criam, mas sobretudo para os pobres mortais que também precisam preencher e substituir emoções.

Quando se está triste a arte serve como uma fuga da realidade e há quem busque as comédias ou os romances para que seja possível dar um alívio à alguma situação irritante da vida real. Para um simples mortal que sou, pelo pouco que senti da vida, percebo que ela (a vida) é mais do que bastante. Sinto muito em discordar do poeta.

A vida transborda dramas, tristezas, felicidades, cada coisa em seu momento e as vezes tudo de uma vez só. O salário está acabando, as contas estão apertadas, você recebeu uma promoção no trabalho: um misto de sentimentos. O seu time ganhou o campeonato, seu filho fez uma bela apresentação no teatro da escola, os políticos estão cada vez mais corruptos e caras-de-pau: um misto de sentimentos. Tem uma guerra acontecendo no oriente, há cidades e pessoas bonitas sendo destruídas em nome do ódio alheio, seus velhos amigos te decepcionam e você encontra amigos novos e melhores, o hit do momento dói aos ouvidos e mesmo assim faz sucesso, ao mesmo tempo em que seu cantor favorito lança um excelente disco novo: um misto de sentimentos.

A vida transborda e para mim ela é bastante suficiente. É tão intensa que necessita ser atenuada e então buscamos na arte um lugar para nos abrigar.

É nessa hora que buscamos a estranha alegria em ver as vinganças de Quentin Tarantino destruindo seus e nossos inimigos. Buscamos a graciosidade nas comédias e romances de Wood Allen e tentamos entender as relações contemporâneas. Viajamos no tempo, no espaço e na genialidade de Stanley Kubrick. Admiramos com estranheza a loucura melancólica nas histórias de Lars Von Trier e vemos no diretor algo que tememos ver em nós mesmos. Ficamos abismados com a originalidade dos roteiros de Spike Jonze e também queremos ser John Malkovich.

Free download bluray 1080p 720p movie google drive Being John Malkovich, USA, 1999, Spike Jonze, Cameron Diaz, Eric Weinstein, John Cusack, Ned Bellamy.jpg Cartaz do filme Quero ser John Malkovich

Mas o filme acaba e apesar de existirem outros a serem descobertos durante nossa vida, voltamos à realidade e percebemos que as coisas são diferentes.

Até que chega o fatídico dia em que encontramos o filme que nos toca, ou simplesmente ele nos encontra e nos derruba.

Poderia ter sido qualquer consagrado diretor o responsável pelo tal fato. Lembro agora de uma história contada no livro Verdade Tropical de Caetano Veloso, em que ele descreve seu tempo de menino e sua relação com o cinema europeu (principalmente o italiano) que despertou nele o interesse por este cinema, seus diretores, suas atrizes, suas histórias repletas de verossimilhança com a realidade, em detrimento do cinema norte-americano. No seu caso foram os filmes "La Strada" e "I Vitelloni" de Federico Fellini os responsáveis por lhe tocar. Filmes onde a alma do espectador em questão foi capaz de se espelhar, ver sua vida retratada e transformada em arte.

capture-20161219-212946.jpg Giulietta Masina, atriz musa de Federico Fellini

Geralmente isso ocorre justamente nos filmes classificados como drama, não por acaso a semelhança com a vida real. Mas minha história de homem comum é diferente da de Caetano e não foi um filme consagrado que me pegou.

Acompanhar os grandes nomes do cinema e ao mesmo tempo se manter aberto aos novos, principalmente os nacionais, virou um hábito difícil de largar, da mesma forma que acompanhar seriados pop – hábito bastante contemporâneo.

O filme diferentão do dia que chamou minha atenção apenas pelo título e sinopse chama-se “A bruta flor do querer” (sim, é uma estrofe da canção “O quereres” de Caetano Veloso, uma coincidência, ou não).

Trata-se de um filme de baixo orçamento, com poucos atores e uma história comum. Nada de extraordinário. E é justamente aí que ele nos pega, por não sermos extraordinários nos identificamos com a história que não é apenas de um homem, mas de uma geração inteira, que é considerada como “perdida”.

É o retrato do adulto jovem que sai da faculdade e se depara com a confusão que é a vida real longe da proteção da família, da academia e da ilusão do sucesso prometido no trabalho e nos relacionamentos. São expostos os medos, as inseguranças, as dores do fracasso e nos mostra através do personagem principal, o quanto somos perdedores.

capture-20161219-211559.jpg Cena do filme "A bruta flor do querer"

Para quem se encontra perdido na mesma situação, com a vida cheia de caos e vai ao cinema em busca de uma distração, recebe desse filme, um tiro que saiu pela culatra. Instaura-se então um momento bad.

Independente se um filme recebe crítica positiva ou negativa (em relação a este, vi positivas dos críticos profissionais, e negativas do público que prefere as bobagens norte-americanas ou "redeglobais") está em nossa percepção o estrago que ele nos provoca.

Esse é o momento que a arte nos encontra e mostra o quão dramática ela pode ser de maneira assustadoramente semelhante com a vida real.


JHONS CASSIMIRO

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