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Falar e pensar, sobretudo o que me interessa

JHONS CASSIMIRO

Escrevo sobre tudo que parece ter vida e conteúdo, e que sobretudo tem proveito.

Jorge Amado é a personificação do respeito

Somos um povo heterogêneo e é justamente isso que nos concede graça como pessoas. Uma observação sobre o livro Tenda dos Milagres, de Jorge Amado.


jorgee.jpg Foto: Fundação Jorge Amado

Certa vez ouvi de um leitor de Jorge Amado que o livro Tenda dos Milagres não era o seu favorito porque os seus personagens principais não possuíam tanto encantamento quanto outros do autor, como Tieta ou Gabriela.

Talvez a sedução de protagonistas femininas ofereça maior encanto, e compreendo Tenda dos Milagres de outra maneira. Não se trata de um livro sobre uma pessoa específica. Também não consigo enxergar Pedro Archanjo e Lídio Corró como personagens inesquecíveis da literatura nacional, e talvez isso se dá porque eles representam o povo comum, e temos o hábito de valorizar o mais extravagante, como as citadas mulheres das outras obras.

Como o próprio título já revela, é a tenda dos milagres a protagonista. Não apenas a tenda física (o local onde Pedro realiza seus escritos e Lídio pinta os milagres do povo, localizada na cidade da Bahia), mas também a Bahia e o próprio Brasil, o povo brasileiro.

Somos heterogêneos, estamos rodeados de misticismo, crenças, atitudes, hábitos que são originados da miscigenação de um povo. Apesar de mais de 500 anos de país, o Estado ainda trata seus cidadãos com rótulos. Ou se é branco ou negro. O racismo continua sendo evidente e junto com ele, a intolerância religiosa se mostra como problema social.

Aquilo que Jorge Amado criticou em seu livro, ou seja, a separação nítida das raças, onde se coloca cada um em seu lugar, continua existindo. Ignora-se o fato de que não somos homogêneos, isto que nos concede graça como pessoas.

Por falar em graça, a religiosidade de um povo é retratada e enaltecida como algo legítimo e digno de respeito. Jorge Amado, ateu e comunista mostra ao leitor todo encantamento dos orixás, sendo necessário estar disposto ao aprendizado (para aqueles que não conhecem) e à tolerância (para aqueles que não são seguidores daquelas crenças).

Talvez o ponto alto desta obra (e de outras do autor) seja fazer o leitor manter a cabeça aberta e lançar luzes sobre os absurdos que a sociedade "branca" continua fazendo com o povo mestiço e preto.

Jorge Amado, enquanto político do Partido Comunista do Brasil, produziu feito grandioso ao criar lei na Constituição Federal, que garantiu a liberdade de culto religioso. Jorge Amado, enquanto escritor ateu, tentou cumprir um importante papel da literatura: transformar as pessoas.

O leitor percebe o realismo fantástico nas cenas, mas não consegue ridicularizá-las segundo sua ausência de crença, mas sim respeita aquilo, mesmo que lhe pareça estranho. Dessa forma, o livro consegue transformar o leitor, que ao fazer uma analogia com a vida fora do livro, entende a necessidade e a importância do respeito à individualidade de seus semelhantes.

Apropriando-me de uma linguagem simbólica, podemos dizer que Jorge Amado é a personificação do respeito; uma atitude tão corrompida em nossa sociedade, que paradoxalmente o exige, ao passo que não o pratica.

Homenagem a Jorge Amado, feita por Caetano Veloso em seu show, no dia da morte do autor. Caetano canta Milagres do povo, que representa musicalmente o livro em questão.


JHONS CASSIMIRO

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