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Falar e pensar, sobretudo o que me interessa

JHONS CASSIMIRO

Escrevo sobre tudo que parece ter vida e conteúdo, e que sobretudo tem proveito.

Trinta anos esta noite

"É duro ser um homem. Você precisa querer ser um". Sobre o filme "Trinta anos esta noite".


ssdsdvsdv.png Cena do filme "Trinta anos esta noite"

Contém spoiler!

Alain Leroy termina de ler O Grande Gatsby, põe o livro em sua mesa de cabeceira e retira os óculos. Pega o revólver, passa a mão sobre o peito como se estivesse procurando seu coração sob o lado esquerdo do tórax. Encontra-o, coloca a arma no local exato, aperta o gatilho e morre.

"Eu me mato porque você não gosta de mim, porque eu não gosto de você..."

A maioria de nós se sente conformada com o dinheiro que ganha, com o emprego que conquistou, com a estabilidade que chega depois dos trinta anos. Às vezes ela não chega, aí então nos obrigamos a qualquer custo nos tornar adultos. Colocamos um sorriso na cara, dizemos que está tudo bem quando nos perguntam se está.

Pagamos as contas, alguns vão à igreja, outros progridem em seus investimentos, todos trabalham para por na mesa a comida, e está tudo ok. A vida segue em frente, esta é a história de um adulto com suas responsabilidades.

Mas há aqueles que vivenciam as coisas de uma maneira diferente - felizmente sempre há estes para provar que não somos um rebanho de ovelhas mecanizadas.

Para eles estão reservados o vazio no peito, a ausência de sentido, o distanciamento da satisfação. Como eternos adolescentes seguem com as noitadas regadas pela diversão da vida jovem, até que chega o dia em que o mundo insiste em jogar em suas caras que precisam mudar. É hora de casar, de ter um emprego melhor, de parar de sair sem hora para voltar. É hora de ter filhos, de trocar suas fraldas, de aguentar seus choros e desaforos.

Quase todos nós nos submetemos ao momento da transformação.

Não foi o que aconteceu a Alain Leroy (Maurice Ronet) , personagem do filme Le feu follet (Trinta anos esta noite).

"É duro ser um homem. Você precisa querer ser um".

Após uma temporada internado em um hospital para se curar do alcoolismo, Alain se vê obrigado ao retorno à sociedade que o enxerga com pena, por ter perdido o viço de outrora e por não estar encaixado onde deveria, na vida de um adulto na casa dos 30 anos.

Apesar de ainda ser considerado bonito, apto à vida, não conseguia mais enxergar uma razão para permanecer no mundo. Enquanto todos buscam dar o melhor de si, fazer bem feito uma tarefa, seu trabalho - dando assim, sentido à vida - Alain não conseguia sentir essa força, essa razão de seguir adiante.

Ele tinha as oportunidades à sua frente, mas não conseguia tocá-las. Não conseguia entender a vida tranquila de um adulto que estava no mundo apenas para correr atrás de dinheiro, mesmo que este adulto fosse verdadeiramente feliz com isso.

Alain era incapaz de querer, desejar. As coisas o assustavam por parecerem grandes demais perto de sua insignificância.

Não é fácil se tornar adulto, um "homem de verdade" quando se impõe como modelo pessoas que se mostram como perfeitas, com empregos "perfeitos", famílias "perfeitas", corpos "perfeitos" e conta bancária "perfeita".

Não é fácil, mas é a vida que precisa ser encarada. Estamos aí para tentar conciliar uma história pré-fabricada pela sociedade, ao passo que tentamos enxergar beleza naquilo que pomos a mão, para que seja possível nos livrar do vazio existencial que leva ao final óbvio que teve o personagem cinematográfico.

Le feu follet (Trinta anos esta noite) é um filme francês de 1963, com direção e roteiro de Louis Malle.Foi adaptado do livro Fogo Fátuo do francês Pierre Drieu La Rochelle, que foi inspirado na vida do poeta surrealista francês Jacques Rigaut.

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