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Falar e pensar, sobretudo o que me interessa

JHONS CASSIMIRO

Escrevo sobre tudo que parece ter vida e conteúdo, e que sobretudo tem proveito.

Estou no fundo do poço. E agora, José?

Mais assustador que estar no fundo do poço, é continuar a cair sem vislumbre de perspectiva. Encarar o poço como lugar abjeto, dá ao caído a incapacidade de reagir diante de tal situação.


drummond.jpg Carlos Drummond de Andrade

Em todas as voltas que a vida dá – e a vida dá muitas voltas – os mais abundantes sentimentos nos acompanham. As situações e as escolhas nos levam do mais alto da montanha até o mais indecoroso poço, e essa viagem pela geografia dos sentimentos dura do início ao fim de nossos dias.

Seria grande bobagem acreditar que estaríamos sempre sentindo o vento suave, a brisa da montanha que beija o rosto do vencedor. Este mesmo vento traz consigo o efeito da erosão que nos arrasta para um declive dispendioso.

A depender de nosso equilíbrio na hora da descida, o poço em que nos abrigaremos nas horas de declínio será mais fundo, ou não. Mais assustador que estar no fundo do poço, é continuar a cair sem vislumbre de perspectiva. Encarar o poço como lugar abjeto, dá ao caído a incapacidade de reagir diante de tal situação.

Drummond proclamou ao final de seu tão famoso poema José...

Sozinho no escuro qual bicho-do-mato, sem teogonia, sem parede nua para se encostar, sem cavalo preto que fuja a galope, você marcha, José! José, para onde? (Excerto do poema José, de Carlos Drummond de Andrade)

José, de Drummond, apesar de tanto lamento, marcha. Não se sabe para onde, e descobrir isto é obra de cada um que se encontra em tal situação.

É indispensável que se grite, que se faça ouvir a própria voz, que não se cale, que se compreenda e encontre uma saída possível. Mas onde se encontra essa saída?

Serão noites mal dormidas a pensar sobre isso, serão noites longas fugidias da realidade. Será uma eternidade de espera, ouvindo o eco do próprio grito de socorro. Tal eco traz um breve sinal de luz enquanto se espera e um lampejo de como será o futuro.

O que será que nos espera?

Um outro José, que também está no fundo do poço, aquele do Egito, sabe que no futuro algo resplandecente o espera. Apesar da grande trama armada pelas circunstâncias ruins, pôde pressentir, por ser um sonhador, que a vida reserva outros momentos, e que estar no poço era apenas uma das muitas outras dificuldades que ainda iria passar até se tornar um governante de um país.

Em forma de belo poema musicado, a breve passagem de José pelo poço, pode ser admirada na letra de Caetano Veloso, em um disco com músicas deprimidas e – justamente por isso – repleto de beleza, grito, reflexão e perspectiva.

dv fgbb.png Capa do LP Caetano, 1987

Estou no fundo do poço. Meu grito lixa o céu seco. O tempo espicha, mas ouço o eco. Qual será o Egito que responde e se esconde no futuro? O poço é escuro, mas o Egito resplandece no meu umbigo. E o sinal que vejo é esse, de um fado certo, enquanto espero só comigo e mal comigo, no umbigo do deserto (José – Caetano Veloso, 1987)

Talvez a reposta para a pergunta (E agora, José?) esteja justamente no grito que se dá, na espera pelo eco que retorna como questionamento que precisamos amadurecer em nosso “umbigo”, enquanto esperamos sós e maus conosco, no umbigo do deserto.

Uma hora, mais cedo ou mais tarde, a roda da vida volta a girar e cumprimos nosso fado.


JHONS CASSIMIRO

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