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Falar e pensar, sobretudo o que me interessa

JHONS CASSIMIRO

Escrevo sobre tudo que parece ter vida e conteúdo, e que sobretudo tem proveito.

O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO DA VIDA?

Mas o homem para onde irá? Percebe-se nele constantemente algo de inábil toda vez que atinge tais objetivos. Ele ama o ato de alcançar, mas alcançar de fato, nem sempre. (Fiódor Dostoiéviski)


arte de daehyun Kim.jpg Arte de Daehyun Kim

Por tantas vezes durante nossa existência fazemos esta e outras perguntas do gênero para nós mesmos em busca de respostas que não sabemos onde se encontram. Às vezes até já sabemos, antes mesmo de nos atrevermos a perguntar.

Com nossa tagarelice, fazemos uma intencional transferência do oco para o vazio. Muitas vezes as respostas dessas inquietudes vem em livros como Memórias do subsolo, de Fiódor Dostoiéviski, que traz ao leitor uma angustiante reflexão a respeito de como a maioria de nós age , por mais que finjamos não ser ridículos como o personagem principal.

Quase sempre temos a noção exata de como as coisas são e como elas deveriam ser. Vemos os tesouros expostos à nossa frente, à dois passos – algumas vezes largos, outras curtos – e teimamos em permanecer na penumbra errante do ser comum. Por sermos humanos, pode parecer arrogância e bobagem dizer que tal postura é errada ou correta. Nossas contradições nos fazem enxergar beleza onde outros só conseguem alcançar feiura. Somos únicos em nossas individualidades, mas temos nos comportado como o resultado de uma sucessão de erros, filhos de um João Ninguém qualquer que apenas perpetua a espécie.

A complexidade nos faz seres de pensamentos e palavras, tantas delas vazias, algumas cheias, mas todas apenas palavras. Falamos tanto com os outros, sobre os outros, consigo mesmos, e acabamos esquecendo que somos seres que deveriam exercer com mais frequência outra coisa, a ação, a vida em si, as atitudes.

Deixamos para trás, a cada dia que nasce e morre cada vez mais rápido, grandes oportunidades passar. Nos justificamos ao dizer que não daria certo ou que é muito difícil. Ao mesmo tempo lemos nos livros histórias fascinantes que nos mostram o poder dos sonhos, a vitória do guerreiro, o final feliz do viajante. Mas e nós, para onde estamos viajando, que conquista estamos alcançando, que batalha estamos travando?

Nos pomos a falar sobre a política, sobre a previsão do tempo, sobre a pilha de trabalhos que temos a realizar amanhã. Paramos para falar sobre tudo, mas raramente paramos pra executar algo que nos leve ao alvo de algum objetivo.

Algumas vezes, sobretudo quando somos bem jovens, fazemos planos, desejamos, sonhamos, rezamos e damos alguns passos em busca de alguma coisa.

Às vezes alcançamos o sucesso e então sentamos.

Certa vez ouvi de um mestre que o segredo do fracasso é sentar em cima do sucesso. Não sei quem é o dono da frase e nem sequer me dou ao trabalho de pesquisar, pois quero que ela permaneça como propriedade intelectual de tal mestre, que fugindo do lugar comum, tentou incutir nas mentes juvenis algo de mais interessante.

Posso definir sucesso como o alcance de alguma vantagem que queremos. Já o fracasso não precisa ser a derrota, a perda, mas sim o simples fato de não fazer nada, contemplar a vida passando, os dias indo embora, os cabelos brancos chegando, os filhos crescendo, os mais velhos morrendo, e nada de grandioso acontecendo.

Permanecemos no lugar comum, na mediocridade e apesar de acharmos isso feio, permanecemos.

Sabemos que existe um conforto em ser comum, em não sair na chuva para não se molhar. Sabemos também que alguns desejos extravagantes, apesar de difíceis de alcançar, são verdadeiramente possíveis. E isto assusta. Assusta saber que podemos ter praticamente tudo o que queremos, que existem meios, que é necessário sair da rotina do não-agir.

Algo de muito sinistro nos impede de fazer, de ser, de existir. Então nos entregamos aos modelos pré-estabelecidos, nascemos, crescemos, nos reproduzimos e morremos.

Não pensamos pela própria cabeça, mergulhamos nos livros e nos achamos sábios, quando na verdade estamos apenas repetindo palavras de alguém que realmente pensou - e a maior prova disto é este texto, que foi inspirado em um livro de um gênio russo do século XIX.

Não somos capazes de sair por aí livres das amarras ideológicas, pois ninguém quer ser chicoteado pelo julgamento social, então passamos a ter vergonha de ser autênticos e nos tornamos apenas pessoas comuns que nada realizam.

Memórias do Subsolo foi publicado em 1864 com características do existencialismo, apesar do surgimento deste ter ocorrido no século seguinte. Põe a nossa mente em evidência expondo nossas contradições causadoras de medos e angustias, mas acima de tudo revelação.


JHONS CASSIMIRO

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