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Falar e pensar, sobretudo o que me interessa

JHONS CASSIMIRO

Escrevo sobre tudo que parece ter vida e conteúdo, e que sobretudo tem proveito.

Encare o black mirror

O espelho nos mostra que damos likes ao invés de abraços e dizemos bom dia quando queremos dizer f***-se


black-mirror-uss-callister1.jpg Cena do episódio USS Callister

O impacto inicial que Black Mirror causa, se dá pela evolução tecnológica a que a série nos submete. São universos paralelos; situações aparentemente inusitadas que a tecnologia provavelmente jamais nos revelará (como bloquear pessoas na vida real e não apenas nas redes sociais); paródias de nossa vida que nos assustam e nos fazem dizer: "isso é tão Black Mirror!" quando nos confrontamos com situações minimizadas no cotidiano.

No entanto, passado este impacto inicial percebemos que existe algo mais profundo que este espelho quer nos mostrar. Talvez a série britânica não seja sobre o futuro, sobre as incríveis inovações tecnológicas que alcançaremos ou sobre alertar para um destino aterrorizante.

Vale a pena colocar tudo isto como plano de fundo e rever o tema principal, pois o espelho mostra o agora, não o futuro.

37542.jpg Black Mirror, série da Netflix

O espelho mostra a apatia com que tratamos as pessoas desde a hora que chegamos no trabalho, até sair dele. Ininterruptamente conectados ao smartphone, ignoramos os possíveis assuntos bons, as conversas leves (sem o ódio do Facebook), os rostos sem photoshop, a vida sem filtro, as virtudes sem likes.

O espelho mostra o quão escrotos somos em nossas atitudes com os semelhantes quando ridicularizamos seu corpo gordo, os seus fracassos profissionais ou sentimentais, a sua falta de traquejo social, a sua introversão em um mundo em que ser visto se tornou a lei. Pois para ser visto é necessário estar em perfeitas condições, aparentemente saudável, sem gorduras, sem derrotas, curtindo o final de semana em algum badalado destino turístico, para postar no Instagram.

nosedive 1.jpg Cena do episódio Nosedive

O espelho mostra as consequências que esses comportamentos trazem. Somos ao mesmo tempo vítimas e agressores, sofremos e praticamos bullying a todo o momento. Quando não estamos sendo agredidos estamos batendo e talvez fazemos isto porque já nos espancaram, fazendo surgir um círculo vicioso sem fim. É quando entramos em um suposto debate e cada um apresenta sua opinião.

Ninguém aceita ser rebatido, porque todos são livres para expressar aquilo que pensam, mesmo que o seu pensamento venha ferir a dignidade humana.

O espelho nos mostra que criamos um jogo e passamos a viver fingindo coisas que sentimos, dando likes ao invés de abraços, dizendo bom dia quando queremos dizer f***-se. Ficamos sempre à espera da aprovação alheia. Queremos ser notados, e não apenas isto, queremos ser aprovados, compartilhados, retuitados.

O espelho mostra que dentro desse jogo que criamos e permanecemos jogando, as regras são impostas de maneira que se possa emular uma sociedade enquadrada, sem espaço para questionamentos e adversidades, sem lugar para vivenciar a experiência do próprio corpo, as pluralidades, tentando abafar as palavras e não estimular as "apologias".

ultima.jpg Cena do episódio USS Callister

Não serão os robôs que destruirão os homens, pois nos tornamos os próprios robôs. Mecanizados desde o acordar até a hora de dormir, adestrados para realizar comandos que já estejam previstos em alguma cartilha ou manual de instruções, acabaremos cumprindo as previsões outrora absurdas das distopias que antes líamos, ríamos e no máximo espantávamos, achando-as impossíveis de se concretizar.

Mas há pausas nesta loucura robótica. Ainda existem os momentos desconectados, longe das tomadas elétricas, que nos trazem vagas lembranças de como já fomos. Conseguimos lembrar que não éramos "perfeitos", nos desautomatizamos e tomamos consciência do que se passa. É quando surgem o medo e a quase certeza que não conseguiremos mais ser como éramos, pois o tempo e as mudanças que ele traz, são implacáveis.

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Aí lutamos, tentamos resistir, aceitar as diferenças e as individualidades, aceitar a si mesmos. Fazemos um plano, buscamos o próprio destino, criamos os próprios pecados. E esperamos não estar mais vivos quando as incríveis façanhas tecnológicas nos arrebatam por completo.


JHONS CASSIMIRO

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