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Falar e pensar, sobretudo o que me interessa

JHONS CASSIMIRO

Escrevo sobre tudo que parece ter vida e conteúdo, e que sobretudo tem proveito.

Se meu apartamento falasse

Ele revelaria como sou previsível.


quero-ser-john-malkovich_thumb.jpg Cartaz do filme "Quero ser John Malkovich"

Se meu apartamento falasse iria dizer que hoje é um dia atípico. As suas velhas paredes iriam estranhar a ordem dos fatos que estão acontecendo. Talvez há décadas que as coisas não se realizam desta maneira.

Lá fora faz frio, ainda é cedo da noite e já não tenho mais nada a fazer. As coisas já estão prontas para amanhã. Ligo a TV em um canal qualquer e está passando um filme antigo. Talvez seja dos anos 60, e deduzo isto por ser em branco e preto.

Não sei se iniciou agora ou se já está perto de acabar. Começo a ler as legendas e a admirar as boas interpretações. Não há preocupações de minha parte quanto ao final nem ao início. Estou no momento presente olhando para tela sem me importar com uma possível resenha a fazer, com as mensagens para ler em meu celular, com as respostas que aos amigos tenho que dar.

Se meu apartamento falasse ele saberia dizer mais sobre mim do que eu mesmo posso adivinhar. Tanta coisa mudou ao longo de poucos anos e o futuro finalmente chegou me transformando em um ser que vive em constante vigília e atualização.

O velho filme terminou e pausa para os comerciais. Logan, Piratas do Caribe, Planeta dos Macacos... Sucessos comercias, filmes antigos, Marilyn Monroe. A seguir: A Bela e a Fera. Amanhã chega aos cinemas Lady Bird e Três anúncios para um crime. Hoje chegou A forma da água.

Se meu apartamento falasse ele revelaria que já conheço bem estes filmes que ainda estão prestes a estrear. Já faz algumas semanas que os conheço e estou a par dos concorrentes ao Oscar que acontecerá próximo mês.

É preciso estar por dentro, estar ligado, saber falar sobre tudo. É preciso estar a frente do próprio tempo.

São frases feitas e usadas no passado que se tornaram realidades no presente.

O presente eliminou a distância e não preciso marcar para me encontrar com amigos para falar sobre algum assunto. Basta abrir o WhatsApp e incomodá-los a qualquer hora. Sempre estarão dispostos a falar sobre tudo, a ouvir nossas chatices e, se não se interessarem, entrarão em minha lista negra dos que visualizam e não respondem.

Em minha mente é preciso estar tudo em ordem. Todos precisam agir da mesma maneira. Tudo precisa estar ok.

Mensagem visualizada = mensagem respondida. Filmes ainda nem lançados = filmes assistidos. Problemas inexistentes = ansiedade garantida.

Preciso estar sempre no controle, como se eu fosse piloto de uma grande nave chamada vida. Iludo-me e acredito que posso comandar todos os aspectos dela.

Estou ligado 24 horas por dia. Tudo em mim se torna previsível.

Se meu apartamento falasse ele diria a hora que eu acordo, a rotina que eu sigo, as pessoas a quem dou atenção, as coisas que eu como. Porque sou previsível, todos somos previsíveis. Todos usamos os mesmos aplicativos e estamos nas mesmas redes sociais. Todos vemos os mesmos vídeos sugeridos pelo YouTube, ouvimos as mesmas músicas sugeridas pelo Spotify, lemos os mesmos livros indicados pelos booktubers.

Mas hoje é uma noite atípica. Não visualizei minhas mensagens, não estou online em nenhuma rede social, não estou ouvindo música enquanto curto fotos e compartilho memes. Hoje estou vendo filme antigo na TV, como se estivesse de novo nos anos 90. Todas as terças à noite eu ligava na Band e foi lá que conheci, dentre tantos filmes, Quero ser John Malkovich" [#sdds anos 90].

Daqui a pouco o sono bate e após umas seis horas de descanso, o despertador tocará e me reiniciará, transportando-me de volta à previsível rotina.

Antes de dormir escrevo este texto e ponho nele diversas vezes o nome do filme em branco e preto para depois procurar mais informações.

No momento só sei que se chama "Se meu apartamento falasse".


JHONS CASSIMIRO

Escrevo sobre tudo que parece ter vida e conteúdo, e que sobretudo tem proveito..
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