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Falar e pensar, sobretudo o que me interessa

JHONS CASSIMIRO

Escrevo sobre tudo que parece ter vida e conteúdo, e que sobretudo tem proveito.

Caetano será para sempre um estrangeiro?

"Alguns podem gostar de um cantor brasileiro suave. Mas desisti de todas as tentativas de perfeição "


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Todos os anos a galera do Twitter relembra que Caetano Veloso estacionou o carro no Leblon. O mau jornalismo, caracterizado pela notícia fútil, é o alvo da piada envolvendo o cantor, que ao longo de décadas continua contribuindo para a formação do pensamento e da música popular brasileira.

É poeta, escritor, compositor, cantor, meme de internet (cê é burro cara!) e além de tudo alvo de opiniões odiosas a respeito de sua vida, seus pensamentos políticos e sua música que nunca envelhece. Caetano se mostra um homem de seu tempo, que viveu vários tempos e várias fases da história.

Os dias atuais são aqueles em que todos temos espaço para criar, escrever, elogiar, destruir e construir pensamentos. A internet se mostra assustadoramente livre, um território onde se perpetuam palavras e ideias que somadas ao mau jornalismo, formam a aura da sociedade atual. A maioria dos artistas não ousa expor seus pensamentos a respeito daquilo que os cercam, com medo da opinião pública que consome ou não sua arte. Com Caetano Veloso esse fato não se aplica e ele sempre está disposto a falar sobre tudo que lhe interessar.

Em defesa da arte e da liberdade de expressão, o cantor defendeu a exposição Queermuseu, que foi censurada em Porto Alegre - RS. Após o fato, milhares de pessoas deram poder à hashtag #caetanopedofilo que foi parar nos Trend Topics do Twitter. A chuva de ofensas voltadas contra Caetano e sua esposa Paula Lavigne ganhou força através da exploração da notícia velha (perdão pela antítese) de que a atual mulher do músico perdera a virgindade com ele, aos 13 anos. Este dado fora ofertado pela própria Paula em entrevista à uma revista anos atrás.

Quando o assunto envolve a sexualidade alheia, o brasileiro desperta e liga o radar que determina como deve ser o comportamento de cada um. Faz-se a exposição dos fatos, realiza-se o julgamento e aplica-se a pena, que nesse caso se deu através da superexposição do casal ao ridículo e à execração por parte do "cidadão de bem".

Quem liderou tal execração foram movimentos ditos moralistas (falsos por si só), como o MBL (Movimento Brasil Livre), o ator pornô moralista Alexandre Frota e o político moralista Marco Feliciano. Perante tal avacalhação da imagem, o casal junto à justiça ganhou o direito de receber R$ 220 mil de indenização que deve ser paga pelo Twitter por ter descumprido a ordem de retirar do ar os comentários difamatórios.

Esta notícia ao entrar no ar, retuitada por centenas de sites diferentes recebe a cada segundo mais e mais comentários com palavras difamatórias e xingamentos ao cantor. O comportamento moralista que determina o certo e o errado, está no auge com força total.

No final da década de 80, Caetano compôs e gravou a música "O estrangeiro", que em uma letra complexa e longa, descreve como ele se sentia vivendo em meio à sociedade moralista dominada pelo pensamento daquela época na cidade no Rio de Janeiro. Três décadas depois sua impressão de ser um estrangeiro num determinado momento da história, se amplia. O homem velho e a menina adolescente que ele cita na canção estão mais presentes e sampleados em pensamentos normatizadores de comportamento, que dizem que "o certo é saber que o certo é certo", além de outras questões pertinentes.

Fala sobre o patriarcalismo, a hipocrisia, a dizimação dos índios e a exclusão dos negros. É óbvio que a sociedade ao longo do caminho deu passos adiante a respeito destas questões, mas ao mesmo tempo vemos que ainda há um grande poder que insiste em barrar a diversidade, o empoderamento das minorias e os direitos humanos. Isso pode ser observado no cenário político que mostra a ascensão de pessoas com características de extrema direita e religiosas, como João Dória, Marcelo Crivella e Jair Bolsonaro.

De maneira oposta a estas pessoas, Caetano segue "caminhando contra o vento" e percebe o que esta sociedade está dizendo.

Como fala na canção citada: "é um desmascaro/singelo grito/o rei está nu/ mas eu desperto porque tudo cala, frente ao fato de que o rei é mais bonito nu".

Caetano entende que é um fato. A sociedade brasileira está em um momento estranho que faz dele e de seus pensamentos, um estrangeiro. Porém ele segue preferindo a diversidade do "azul, do púrpura e do amarelo", falando a respeito de sua ampla visão, quando questiona "cadê o Amarildo?", quando canta em homenagem à Marielle Franco, quando segue fazendo canções.

Não é um compositor de opiniões suaves, pois cansou de perfeições.

"Some may like a soft brazilian singer. But I've given up all attempts at perfection" (excerto de O estrangeiro)


JHONS CASSIMIRO

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