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Falar e pensar, sobretudo o que me interessa

JHONS CASSIMIRO

Escrevo sobre tudo que parece ter vida e conteúdo, e que sobretudo tem proveito.

Você nasceu ou foi feito?

Não ser um homem, ser a projeção do sonho de outro homem, que humilhação incomparável, que vertigem! (excerto de "As ruínas circulares" de Jorge Luis Borges)


Eu nasci. Você foi feita. Frase dita por Felix Lutz em Westworld.jpg "Eu nasci. Você foi feita." Frase dita por Felix Lutz em Westworld

A mente, os olhos, os ouvidos são como janelas abertas. Por eles entram todos os insetos. Estes, são as ideias, os vícios, as virtudes, a beleza, a dor, os traumas, um universo de padrões concebidos e estabelecidos pelos outros. Por meio desta programação, toda uma narrativa se desenvolve ao longo do passar dos anos. A isto dão o nome de vida.

A frase que intitula este texto é derivada de um diálogo do personagem Felix, da série de TV americana Westworld, ao revelar à Maeve que ela é uma inteligência artificial criada para satisfazer os desejos dos humanos. Há muita filosofia envolvendo a trama, desde Platão, com a "alegoria da caverna", até Descartes com "Penso, logo existo". Sem dúvida, muitos outros escritores/roteiristas já fizeram uso destas filosofias ao longo de toda a história. Westworld mostra-se como mais uma tentativa de fazer o homem olhar para si mesmo e questionar, se de fato ele é aquilo que sonhou ou apenas o resultado do anseio alheio.

Tão enigmático quanto a trama de Westworld, um conto escrito pelo argentino Jorges Luis Borges dá a ideia de como nos perdemos no caminho da vida, ao criarmos expectativas para os outros, ao invés de buscar soluções para nós mesmos. O conto em questão é "As ruínas circulares" encontrado no livro "Ficções". O autor narra a história de um homem taciturno que tinha um objetivo imediato: sonhar. Ele se isola e sonha estar no centro de um anfiteatro circular transmitindo seus conhecimentos a uma infinidade de alunos. Percebe então que a maioria deles possuía grande inteligência, mas padecia de um mal: aceitavam passivamente sua doutrina. Desfez-se então de todos estes e elegeu um aluno (muito semelhante a ele próprio) que além de sábio, arriscava-se a ser questionador das supostas verdades ensinadas. Tudo parecia perfeito até que o homem subitamente não consegue mais contatar seu aluno em sonhos. Após muito esforço, consegue voltar-se para dentro e novamente sonhar, não mais com aquele aluno, e sim com um coração que pulsava. Era o início da criação de um novo ser. O sonhador agora seria responsável pela geração do "homem ideal" moldado de acordo com os seus ensinamentos. Após ser totalmente feito, o homem ganha vida através de um deus conhecido como fogo.

Metaforicamente percebe-se que a ideia é mostrar que aquele novo ser, para ter vida real precisava ter luz, brilho, calor, energia. Feito isto, a missão do sonhador estava acabada e após um tempo percebe que assim como a criatura, ele próprio, o criador, também tinha sido o sonho de alguém. Não era ele como aquele aluno sábio e questionador da realidade. Era apenas como todos os outros homens, seguidor de ideias e regras que regiam uma vida pré-fabricada.

borgessss.jpg Jorge Luis Borges

Questão semelhante é levantada na música "Janelas abertas n°2" de autoria de Caetano Veloso. Ela diz:

"Sim, eu poderia abrir as portas que dão pra dentro. Percorrer correndo os corredores em silêncio... Penetrar no labirinto. O labirinto de labirintos..."

A canção segue dando ideias como "rever a mobília", "matar em cada quarto, um membro da família", ou seja, olhar para dentro de si e corrigir aquilo que está encrustado em nós mesmos e que foi posto por outras pessoas.

Percorrer os labirintos da mente, chegar até o centro e encontrar a si mesmo.

Ao final da canção o eu lírico confessa, com lástima, que prefere "abrir as janelas para que entrem todos os insetos".

Ouça "Janelas abertas n°2" na voz de Ana Moura, no disco "A tribute to Caetano Veloso"

A ideia da mente como labirinto também aparece em Westworld, que mostra um suposto jogo a ser desvendado. Ao final da primeira temporada entendemos que o labirinto é metafórico e é quando a personagem principal chega ao centro e percebe a si mesma.

Pensa e logo passa a existir, desencadeando uma real existência individual.

5844ff16dd08953b448b4928-1095.png Cena da série da HBO Westworld

Parece-nos então que não é tarefa fácil ser um indivíduo livre da influência dos outros, talvez tal coisa seja até impossível. Há no entanto um caminho viável a percorrer, é preciso sempre voltar-se para dentro, ao invés de entrar pelas janelas alheias com o intuito de implantar nelas, nossas ideias. Ser um sonhador da própria vida, ao invés de sonhar a vida dos filhos. Convencer a si mesmo sobre seus pensamentos.

Óbvio que isto não nos impede de expressar ao mundo nossa visão, afinal o que seria de nós sem o ponto de vista dos grandes pensadores?

O que não parece sensato é aceitar tudo aquilo que dizem, e também querer que os outros aceitem o que dizemos.

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JHONS CASSIMIRO

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