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Falar e pensar, sobretudo o que me interessa

JHONS CASSIMIRO

Escrevo sobre tudo que parece ter vida e conteúdo, e que sobretudo tem proveito.

A NOSSA MORTE É A NOSSA SORTE

Escolher ser imortal, faz com que tudo seja deixado para depois. Fingir que se tem todo o tempo do mundo é perder a chance de sentir a beleza do caos contida em cada simples momento, que precisa ser observado.


Ophelia - John Everett Millais.jpg Ophelia - John Everett Millais Cometer erros, fazer escolhas deletérias, ignorar obviedades, são atos cotidianos que me permito e vivencio a cada dia reservado à história da vida. Ignorar pessoas, situações e até mesmo fatos imutáveis também fazem parte das atitudes que podem ser consideradas como erros. Talvez, um dos grandes – elejo como sendo o maior, para que possa desenvolver o raciocínio – seja o fechar de olhos para a certeza da própria morte.

É quase como algo automático. Basta surgir o tema vindo ao longe na mente, as barreiras criadas pelo cérebro encobrem o raciocínio, como um vidro embaçado, capaz de levar a atenção para lugares mais agradáveis e belos, onde as pulsantes ideias, palavras, imagens e sonhos, arrebatam o pensamento, fazendo escapar para longe o tema macabro. Essa atitude me faz fingir ser um imortal.

Os alquimistas queriam, além da pedra filosofal, o elixir da longa vida. Uma mãe, quando perde um filho e procura um médium, vai em busca de consolo na possibilidade do não desaparecimento eterno daquela pessoa amada. As ciências perseguem a imortalidade através das descobertas que fazem o ser, cada vez mais longevo. Muitos creem na lei do retorno, nos ciclos da vida, nas rodas da fortuna, onde uma hora se está em cima e logo em seguida no chão, e também creem que essa é uma ordem que perdura pela eternidade, atravessando o tempo e reencarnações. Alguns encaram como karma a vida ser uma grande porção de coisas ruins, e dizem "é assim mesmo", fazendo surgir o endurecimento dos sentimentos, a incapacidade para o sorrir, para o chorar e a ousadia para se rebelar.

Ignorar que inexoravelmente a morte chega, põe o humano ao lado da ovelha que segue seu caminho rumo ao abatedouro; do capim que brota no meio fio; da mosca que a todos chateia por 28 dias de existência. Para todos eles a vida é eterna, até que venha a realidade e ceifa o capim, a ovelha e a mosca. Eles viveram e não sofreram com as inquietações da vida. Não houve momentos de crise existencial, noites insones, depressões, questionamentos a respeito da própria existência.

Não posso ter a atitude de um capim de meio fio, e o fato de raciocinar me faz sentir mais do que uma mosca que pousa nas mais pútridas feridas e as lambe sem pensar na nojeira de tal gesto.

Quando velhos, ou gravemente doentes, com a morte fazendo ronda, o que vem à tona dentro da cabeça são as histórias vividas, as ficções criadas, os sentimentos extravasados no longo cotidiano compartilhado com os amores de uma vida. Tornam-se visíveis também os aprendizados conquistados, as verdades individuais assimiladas durante a longa jornada.

Ressoam na mente as palavras. Não se sabe quem as fala aqui dentro. Talvez seja a própria voz em uníssono com a dos ancestrais.

Olhando assim, volto a me perceber eterno e imortal por ser um resultado de histórias e aprendizados do passado. E não há mal em crer na imortalidade, pois nem é uma questão de crer, mas sim de não a escolher como algo a ser perseguido.

Escolher ser imortal, faz com que tudo seja deixado para depois. Fingir que se tem todo o tempo do mundo é perder a chance de sentir a beleza do caos contida em cada simples momento que precisa ser observado. Ao passo que se permanece vivo nesta terra é preciso percorrer os intrincados labirintos que são os embates e entraves que inevitavelmente assolarão e darão a certeza que jamais se alcança a saída que leva até a imortalidade.

Percorrer o labirinto, e mesmo sabendo da certa derrota, aproveitar o caminho com seus encantadores embaraços.

Optar por encarar que o fim vai chegar mais cedo do que se imagina, faz com que um simples sorriso alheio vindo da face desconhecida de um passante na rua, nos encha de sentimentos inexplicáveis. Da mesma maneira, sentir o prazer de comemorar uma conquista no trabalho, faz com que valha a pena estar vivo e consciente a respeito de si mesmo, afastando a feia imagem mecanizada de robô, de gado ou ovelha que apenas segue o rebanho sem saber da morte, e muito pior, sem saber do que se trata o sentir, que nos faz tão vivos, valiosos e humanos.

P.S.: este texto foi livremente inspirado na leitura do conto "O imortal", presente no livro "O Aleph" de Jorge Luis Borges.


JHONS CASSIMIRO

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