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Falar e pensar, sobretudo o que me interessa

JHONS CASSIMIRO

Escrevo sobre tudo que parece ter vida e conteúdo, e que sobretudo tem proveito.

QUEM VOCÊ SERIA SE NÃO HOUVESSE AS REDES SOCIAIS?

O que entendi após uma semana sem Instagram


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Existe uma pergunta que não encontra resposta quando estou logado nas redes sociais: o que sou?

Acabo crendo muitas vezes, quando critico superficialmente este mundo virtual, que ele é o reino do egocentrismo, do narcisismo. Fico nesse raso e não me importo de avaliar mais a fundo, porque é difícil olhar o que de fato acontece ao redor, quando estou por dentro.

Lembro de uma passagem que li a poucos dias em Crime e Castigo - leitura quase prejudicada pelas constantes interrupções que meu intelecto me obrigava a fazer ao abrir o Instagram, com não sei qual objetivo. Em tal passagem, quando Raskólnikov - personagem principal - está preso na Sibéria, narra um pesadelo que teve, atormentando-o, como se não bastassem as aflições vividas desde que cometera seu crime.

Em seu pesadelo, uma peste inaudita atinge a humanidade fazendo com que todos se desentendam e acabem se destruindo. Mas havia alguns escolhidos que não foram atingidos por essa peste. O problema era que ninguém via essas pessoas, ninguém ouvia suas palavras e as suas vozes. Desta forma, como o mundo poderia ser salvo?

Parafraseando outro grande nome da literatura, "é preciso sair da ilha, para ver a ilha". Ouvi o conselho de Saramago. Estava cercado por todos os lados e não era de água. De todos os cantos vinha a peste - tão semelhante a descrita no século XIX por Dostoiévski.

Foi preciso sair do Instagram pra poder visualizar o caos em que estava metido. Utilizo neste texto essa rede social como exemplo, por ser a que me prendia.

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Estando logado, ninguém passou imune das fakes news, das notícias verdadeiras, das provocações dos adversários políticos, das encrencas ideológicas, dos absurdos que vemos os outros nos contaminar e das insanidades que falamos para os outros.

Vivo o caos, não existe outra palavra que seja capaz de descrever melhor o que as redes sociais fazem com meu juízo. Vejo fundamentalismo em todas as áreas, emito opiniões que ferem quem está do outro lado da tela, e não percebo o quão danoso e perigoso sou. Minha opinião, crença e prática não deixam satisfeito o outro que lê o que publico. Sua opinião me faz crer que há uma multidão de idiotas ignorantes tentando dominar o mundo com ideias tacanhas. Há um feed diferente para cada um. Como poderia ser possível alguém se entender e viver em paz nestas circunstâncias, em um mundo onde ninguém está disposto a abrir mão de suas convicções?

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Vejo meu mundo desmoronar quando percebo o quão diferente (e mal) pensam aqueles que sempre estiveram fisicamente perto; quem eu julgava ser gente boa. Hoje lamento o abismo que se abriu entre nós, vivendo numa ilha tão diversa, por ser vista de tantos diferentes pontos. Não sou capaz de aceitar o outro, dou-lhe uma má avaliação, não troco mais likes. Na vida real acabo me afastando de quem nunca deveria sair de perto, mas se viu obrigado a fugir de minha ideologia, que pra ele é assustadora.

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Sinto que estou para trás. Meu amigo, colega, inimigo estão publicando suas conquistas. Há tanta ação, tantos diplomas, tantos sorrisos acontecendo. Todos os dias vejo a vitória dos outros e percebo que minha vida - apesar de parecer boa aos olhos alheios - está no modo pause. Nada tem acontecido, todos os dias são apenas uma repetição, a grandiosidade não me atinge. Vozes me dizem que preciso mudar, crescer, fazer o que todo mundo está fazendo, que preciso pertencer, senão irei desaparecer.

E se, lá no fundo, eu não tiver vontade nenhuma de ser como o outro é? E se eu estiver onde eu escolhi estar? Será que vão me perdoar ou me olharão com pena e dirão que não passo de um looser?

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Sinto não ser possível ninguém segurar a mão de ninguém. Nas redes há memes, há ideias, há palavras, há imagens. Na vida real, há ação, como num filme de Tarantino, vejo o sangue jorrar entre os semelhantes e os diferentes. Uma mão solta a outra quando as singularidades entram em choque. Vejo mulheres machistas, negros racistas, religiosos fascistas, gays matando gays, quando não com porrada, com palavras e silêncios.

Sinto que não há mais espaço para o pensamento dentro de mim. Minha cabeça já saturada de infinitas imagens, palavras e ideias alheias, pede arrego, e num gesto súbito, suspendo minha conta no Instagram.

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Meses atrás li um livro chamado "Dez argumentos para você deletar agora suas redes sociais". O autor Jaron Lenier apresenta motivos mais que convincentes para que possamos deixar de lado essas ferramentas que nos transformam em mercadorias para as grandes empresas que tudo sabem a respeito de nossos desejos. Percebemos através deste livro que, livremente abrimos mão de nossa privacidade, algo que antes nos era tão valioso.

Li o livro, entendi os riscos, o perigo em que estava metido, mas continuei normalmente nas redes, ignorando o que tinha aprendido. Os argumentos aparentemente fortes, não me impediram de continuar oferecendo gratuitamente informações sobre tudo que eu penso e sou. Foi necessário um click interno, um esforço mínimo, uma boa vontade de minha parte de tentar ficar de fora do mundo virtual, nem que fosse pelo menos por alguns momentos.

Nos primeiros dias, o dedo indicador desbloqueia a tela e vai direto ao lugar onde outrora estava o ícone do aplicativo. O ritual se repete inúmeras vezes. Meu cérebro e sua incrível capacidade plástica, já internalizou a ideia de que acessar o app é algo natural, pertencente ao próprio corpo, assim como o celular se tornou uma extensão da mão. Por possuir esta capacidade de plasticidade, também aprende após repetidas tentativas falhas de acesso, que não há mais aquilo que ele procura, e se faz necessária uma nova adaptação.

A saturação de informações inúteis vai sendo apagada, a mente vai esfriando. Não há mais notificações, contatinhos, bons dias, boas tardes e boas noites. Olho para a tela e não há nada daquilo que preenchia o vazio de minha vida. Agora ele está lá, como um buraco.

Tudo aquilo que preenchia o vazio (e não necessariamente se encaixava na vida) era apenas volume, que deixando de estar presente, não trazia luto nem perda. Mesmo sendo boas as amizades feitas, as paisagens vistas, as poesias lidas, os momentos compartilhados virtualmente, bem lá no fundo, não fazem falta real, não possuem peso, por um simples motivo: isso tudo não tem significado tenaz sobre quem eu sou no "mundo real". Mas aí surge um problema a se pensar: não há mais notificações do "mundo virtual", mas também não há do "mundo real".

Chegamos a um ponto, ao mergulhar profundo nas redes sociais, em que mesclamos as relações. Fingimos que o real e o virtual são uma coisa só e fazemos isso porque encontramos no virtual a facilidade de interagir com pessoas que aparentemente tem afinidades com nossos estranhos gostos. No dia a dia, na fila do banco, na faculdade, no trabalho, não é tão fácil achar gente que ria da nossa piada, que chore junto com a nossa dor. Então depositamos fé em pessoas que nos acolhem. Este é o lado bom das redes sociais e certamente é a parte mais difícil de se abdicar quando se deixa pra trás essas redes.

No momento em que essas pessoas, conversas e afinidades desaparecem com um simples logout, percebo que não resta muita coisa na "vida real". Num primeiro instante entro em pânico, pois creio que nada tenho, nada construí, nada sou.

É o momento do silêncio, de olhar para dentro. Há um grande espaço na cabeça onde as interrogações flutuam numa busca desesperada por sentido. Faço falta pra alguém? Tenho o poder de fazer a diferença na vida de quem, aqui no mundo real? O que construí de útil e concreto nestes dias de minha vida? O que estou fazendo para manter, valorizar e ampliar tudo isso que me faz ser orgulhoso de quem sou?

São muitas perguntas. As respostas irão variar de pessoa para pessoa.

Encontrei minhas respostas. Felizmente havia respostas.

Não cabe compartilhá-las, isto apenas eu posso curtir.


JHONS CASSIMIRO

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