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Falar e pensar, sobretudo o que me interessa

JHONS CASSIMIRO

Escrevo sobre tudo que parece ter vida e conteúdo, e que sobretudo tem proveito.

DIÁRIO DA QUARENTENA - MODO AVIÃO


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Num prédio distante, exatamente de frente ao que me encontro, há uma mulher e duas crianças na varanda, olhando não se sabe o que, talvez a rua, as ausências de movimentos frenéticos, de carros acelerados que outrora subiam as ladeiras asfaltadas, indo em direção para não se sabe onde. Hoje não há carros passando, só um pouco de vez em quando. Às vezes dá pra ver através do parabrisa o motorista usando máscara. Mais à esquerda do prédio onde se encontram as pessoas da varanda, uma viatura da polícia com o giroflex ligado espera no sinal vermelho. O sinal abre, o carro passa, logo em seguida mais uma viatura. Há bastante polícia circulando, será que há também bandidos? Estes a gente quase nunca vê, agem escondidos destruindo a paz dos outros, que nem o vírus que agora assola-nos e está em destaque nos noticiários. Talvez até os bandidos estejam em casa, porque eles também tem medo, e deixam para o micro-organismo o momento de destaque.

Estar em casa é o que nos define nesse momento de pandemia. Há tantas casas à minha frente, tantas varandas voltadas para todos os lados, e nas que para mim estão voltadas, se procuro bem, enxergo gente sentada ou de pé, olhando para o horizonte, para a rua, para o nada, vendo o tempo passar devagarinho em silêncio. Há também gente nas janelas olhando para não se sabe o que, certamente para dentro de si. Talvez muitos deles olhem para mim que também estou na varanda a observá-los. Imagino que talvez me observem tentando saber o que estou pensando ou talvez nem me vejam já que atrás de mim há o oeste carregado de nuvens cinzentas que há grande distância despejam agressivas chuvas carregadas de raios. E é tão distante que não se ouve, apenas se vê o clarão dos relâmpagos de vez em quando. Acima das nuvens há um céu ainda azul por não ter escurecido, e também feixes de cor laranja e por entre eles algum planeta, certamente Vênus que brilhante já se avista apesar de ainda ser dia. Paro por um instante e faço uma foto do momento. Ficou bonita, de certo eu postaria numa rede social, as pessoas reagiriam, aplaudiram, puxariam assunto comigo. Eu me perderia no feed infinito, nas fotos infinitas, nas conversas infinitas. Mas estou desconectado. A foto vai ficar guardada e talvez outra hora eu publique. Por enquanto estará no cartão de memória, compartilhando o espaço com outras coisas importantes, que agora sei que são importantes, pois estão lá guardadas como em um baú de relíquias. São uma infinidade de discos salvos, a quem sempre recorro quando não tenho internet e não posso usar o streaming com suas tantas músicas e artistas novos e velhos.

Não é uma novidade em minha rotina estar nessa varanda ao fim de tarde. Quase todos os domingos, há anos, faço isso. Um momento de isolamento onde posso encontrar comigo, quando sinto felicidade por ser eu mesmo, olhando os passarinhos que as dezessete horas voam aparentemente desordenados procurando seus ninhos e se preparando para dormir. Também surgem os morcegos anunciando que o reino da noite acabou de chegar. O vento frio também faz o mesmo anúncio, me obrigando à descer e ficar recolhido para dar continuidade à leitura de um livro que foi iniciada hoje. É de um escritor português, onde o narrador fala de um escritor português que está escrevendo uma biografia de um outro escritor português. Muita metalinguagem envolvida. Portugal, metalinguagem, metafísica, Esteves sem metafísica, Fernando Pessoa, Tabacaria. Quero ouvir este poema e para isso necessito de internet. Conecto e o procuro, não quero lê-lo, mas ouvir a declamação como já fiz dezenas de vezes.

Não sou nada, nunca serei nada, não posso querer ser nada. À parte disso, tenho em mim todos os sonhos do mundo... Não sei dizer que poder é este que Fernando Pessoa exerce sobre mim, ou sobre qualquer pessoa que conheça suas desassossegadas palavras. Talvez todas as pessoas são o Pessoa. Estamos todos nele, nas mais profundas impressões e verdades que conseguiu colocar no papel. É impossível não se sentir representado por ele. Todos nós somos Pessoa. Percebo que o poema que acabo de escutar diz muito do que acabei de vivenciar e isto reforça a ideia que acabo de defender.

Por ter ligado o wi-fi percebo que há uma enxurrada de mensagens. Verifico rapidamente de quem são e vejo que não tem a de quem eu queria. Existe uma conversa arquivada no celular. De tempos em tempos apago todas, exceto uma que aguardo resposta. Já se passaram quatro semanas mas não obtive retorno. Quase nunca conversamos no momento presente. É como se nos falássemos por carta, só que sem correio e selos. De vez em quando lembro deste amigo, sua ausência e silêncio gritam alto. Mesmo assim não me incomodo tanto. Eu sei que ele leu o que escrevi, a notificação diz que foi visualizado. Queria que já me tivesse respondido, e essa ânsia nem se deve à necessidade de respostas às minhas perguntas, porque eu já nem me lembro bem delas. Só queria um sinal, saber se ele está bem, um simples oi já seria o suficiente. Não desgosto de sua pessoa por essa ausência, sei que ele é de ausências, deve estar a escrever dia após dia, este é o seu trabalho. Na verdade nem sei ao certo se já tem livro escrito ou algo consistente. Conheço alguns textos seus e me parecem vivos, confusos, consequentemente vivos.

Acabo de me perder nestes pensamentos e a culpa é por estar conectado. Desligo o Wi-Fi e faço com enorme esforço. Acabei não indo ler o livro e permaneço onde estou só que agora sentado, seleciono um álbum em meu "baú". Se fosse um disco de vinil certamente estaria arranhado pelas tantas centenas de vezes que eu já pus pra tocar. Los Hermanos é a trilha sonora que mais marcou em toda a vida, talvez porque os conheci na época mais feliz, nos anos mais vivos e gratificantes, a época da faculdade. Apesar de eles nem serem mais uma banda nessa época, foi quando descobri esse rock esquisito embalado por vozes bêbadas. Foram tantos domingos sentado neste mesmo lugar que agora estou, ouvindo sempre o disco Ventura, certamente o meu preferido, me preparando mentalmente para a semana que estava por vir, com suas tantas aulas de anatomia, fisiologia, e tanta coisa boa e igualmente assustadora que a faculdade me apresentou. Está tocando O velho e o moço, olho para o céu já escuro e percebo que há de repente um tráfego aéreo e a curiosidade me faz querer saber de onde vem e para onde vão. Abro um aplicativo de radar que me mostra com precisão essas informações. Há três aviões em meu campo de visão e só consigo informação sobre dois deles. Um vem de Recife com destino a Fortaleza. Outro vem de Natal com destino a São Paulo. O primeiro que percebi no céu não consta no radar, e este era o que mais gostaria de saber para onde vai. Algo me faz crer, pela obviedade de sua direção, que vai para o estrangeiro, rumo ao mar, cruzar o Atlântico para a Europa, quem sabe talvez Lisboa. Ponho dúvidas nesta suposição por não saber se os voos internacionais ainda não foram cancelados por causa das precauções com a pandemia.

Minhas dúvidas me fazem querer saber notícias do mundo lá fora, mas assim como o avião, estou fora do radar e faço isso por escolha própria. Parece difícil de acreditar mas é possível não ser encontrado, ficar fora do mapa, sair da bolha criada pela internet. Ela faz as pessoas pensarem que somos obrigados a atender o telefone, responder as mensagens, estar por dentro do noticiário, das fofocas dos realites shows. Ela me faz sentir culpado por não estar a toda hora respondendo com kkkk os memes que me enviam ou por não estar justificando porque não estou presente nas conversas dos grupos dos mensageiros.

Há tantos grupos e há tantas pessoas legais e por mais que isso seja verdade, é preciso deixá-los um pouco de lado e fazer o esforço de não se sentir culpado por simplesmente querer estar off-line. O momento pede a desconexão, nem que seja por um dia ou dois, é preciso ficar sozinho, não postar selfie, não conversar frivolidades, não acessar tanta notícia e saber tantos dados estatísticos envolvendo as mortes no mundo inteiro, em especial na Itália, que tanto sofre nesse momento. É assustador pensar que é possível que me aconteça o mesmo, apesar de estar em quarentena, isolado em casa, olhando para tantas outras casas, onde dentro delas há pessoas tão ou mais preocupadas que eu, aterrorizadas, e não se sabe se há razão ou não, se é justificável sentir tanto pavor pelas incertezas dos dias que estão por vir.

O que o mundo está passando é um evento inédito para mim e por isso assustador. São dias diferentes antes nunca vivenciados, só visto em filmes ou livros apocalípticos. Penso em Ensaio sobre a cegueira de Saramago, penso e sinto Melancholia de Lars Von Trier, talvez por nesse momento estar tocando Tristão e Isolda de Richard Wagner em meus fones de ouvido. Uma coisa está ligada a outra, uma coisa lembra outra, tudo é uma coisa só neste mundo pequeno interligado pelo medo de contrair um vírus de alto contágio que vem ceifando tantas vidas, principalmente dos mais velhos e fragilizados.

Hoje é sábado, 21 de março de 2020. Se o momento fosse outro, estaria deitado em uma rede em um hotel de uma cidade paradisíaca, descansando de um longo e feliz dia vivido na praia, como costumo fazer no final do verão. Mas agora as circunstâncias são outras e o que se está vivendo é também um descanso, uma pausa forçada e de uma maneira não desejada. Não há permissão para ir à praia, e nem há clima mental para isto.

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