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Falar e pensar, sobretudo o que me interessa

JHONS CASSIMIRO

Escrevo sobre tudo que parece ter vida e conteúdo, e que sobretudo tem proveito.

O HOMEM DUPLICADO

Somos cópias de pessoas de segunda categoria


WhatsApp Image 2020-07-12 at 11.54.20.jpeg Imagem retirada do clipe "Desconstrução" de Tiago Iorc

Acabo de perceber que ao escrever o roteiro para este texto, fiz uso de uma letra que há muito não via, a minha própria, aquela que aprendera em tempos de menino e que abandonara após desenvolver outra mais bonita, copiada pela admiração que tinha por outra. Esta outra tão trabalhosa, me custou anos de prática para que fosse possível ser agradável aos olhos, admirável e elogiada pelos outros. É ela que está afixada em meu documento de identidade, feita quando deixava de ser um menino, aos 15 anos. Percebe-se nela que não há naturalidade, e por trás de si ou em seus espaços em branco, vê-se escondida a velha letra original da criança que ainda não havia sido corrompida pela sedução da beleza óbvia.

Tal roteiro citado, no qual usei minha letra original, são reflexões sobre o livro O homem duplicado, do escritor português José Saramago. Lançado originalmente em 2002, conta um bizarro episódio na vida de Tertuliano Máximo Afonso, professor de História. Homem de poucas palavras, ensimesmado, que percebe-se insatisfeito com os seus dias aparentemente sempre iguais, seu cotidiano simples, de homem comum, que se entregou às orientações de um outro personagem, mais sutil porém poderoso, chamado senso comum. Este que diz como nós devemos agir, que roupa comprar, como devemos nos comportar, que cor no cabelo devemos usar, como a barba devemos cultivar...

O senso comum que transforma todos em duplicados, triplicados, multiplicados, pessoas com a mesma aparência e atitude, que esqueceram de si mesmas para viver algo que seja aprovado pela maioria, admirado pela audiência, imitado por todos que esperam uma curtida, não apenas virtual, mas que reflete na vida real.

Estamos à espera de que todos curtam e compartilhem nosso jeito ser e estar no mundo. O problema reside no fato que, o que mostramos ser não é o que somos bem lá no fundo, esquecido nas gavetas do passado, da memória, abandonado por ter sido outrora desestimulado ou ridicularizado pelo mesmo senso comum que nos incutiu a ir em busca de um caminho aceitável aos olhos dos outros, para que esses outros também pudessem se espelhar neste mesmo caminho de escolhas óbvias e seguras. Diminuído neste caminho óbvio, o homem se transforma em alguém sem autoconfiança, sem voz própria, mergulhado no medo de demonstrar uma possível ideia diferente, que por acaso venha emergir em algum momento de rara singularidade.

Uma ideia diferente não é levada a sério por não estar dentro da órbita previsível em que todos estão ligados, e ao primeiro sinal de vida, esta ideia já é tolhida e deixada ao relento do esquecimento. Preso a esta órbita, o personagem Tertuliano Máximo Afonso (que tem esse singular nome repetido sempre que citado, como para nos mostrar que ele é único, mesmo que o senso comum diga que não), percebe a necessidade de enfrentar estes caminhos banais ditados por uma sociedade, a que ele próprio faz parte, geradora de um caos promovido por uma suposta ordem ditada pelo óbvio. E tal necessidade de enfrentamento acontece quando ele descobre a existência de um outro homem que possui a sua mesma aparência.

"O caos é uma ordem por decifrar"

Perceber-se igual ao outro, leva Tertuliano Máximo Afonso ao confronto com alguém muito pior que aquele outro. É o momento gerador de medo e questionamentos, é quando entramos em embate conosco, com o EU que estamos apresentando ao mundo.

O indivíduo olha para si e não sabe se o outro lhe copia ou se ele é uma cópia do outro. Encontrar a si mesmo no outro é o auge do medo, pois é o momento em que ficamos mais expostos.

"Então é isto que sou, nisso que me tornei?" Tornamo-nos cópias de pessoas de segunda categoria (para ser gentil e não dizer de quinta categoria), assim como Tertuliano Máximo Afonso tornou-se cópia de uma ator secundário. Enfrentar essa realidade, além de ser algo insuportável, é algo necessário para que se possa fazer emergir das profundezas, a individualidade que foi outrora adormecida e precisa ser despertada. Mesmo quando as aparências dizem que sim, que somos iguais em quase tudo, não se deve cair nesta ilusão de igualdade. É preciso mudar para que seja possível tornar-se senhor de si mesmo.


JHONS CASSIMIRO

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