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Falar e pensar, sobretudo o que me interessa

JHONS CASSIMIRO

Escrevo sobre tudo que parece ter vida e conteúdo, e que sobretudo tem proveito.

DIÁRIO DA QUARENTENA #2 - FELIZ ANO NOVO

"E tudo foi desbotando até desaparecer" (Cícero)


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Chove lá fora e isso demonstra a estranheza do tempo. Não lembro ter vivenciado em outras épocas, uma véspera de ano novo com chuva. Apesar de ser verão, e chover em alguns dias, dezembro e janeiro por aqui sempre tiveram a aparência dos dias claros, amarelos, azuis radiantes e calores abrasadores. O clima cinza reflete a imagem de um ano carregado de incertezas e dessabores, causados não apenas pela pandemia que nos assombrou, mas também pelas infinitas bad vibes que o universo de nossa mente nos fez passar.

Agora observo o quanto aprisionado estive à normalidade das coisas, como se elas tivessem que ser obrigatoriamente sempre iguais, determinadas por uma lei universal e ditadas por não sei quem, infiltradas em nossa estrutura de pensamento. Posso ver agora que é possível nem sempre ser azul, ensolarado. Alguma coisa mudou, além do mundo, das pessoas, dos costumes. Alguma coisa mudou em mim e é preciso pensar sobre.

Pensar sobre tudo é o que muito se tem feito. Desde que li "As palavras", de Sartre, há alguns anos, sinto de maneira recorrente a necessidade de perceber e aceitar que é possível, e mais que isso, é vital que se abra a porta do quarto fechado onde nos instalamos desde que somos meninos. Nos fechamos dentro de ideais, sonhos, buscas, realizações e tendemos a ficar aprisionados neste quarto, nessa casa pré-fabricada naqueles tempos remotos em que nos perguntaram: o que você quer ser quando crescer?

Respondemos a esta pergunta e nos estruturamos, lutamos, conquistamos e, por fim nos cristalizamos. Tornamo-nos alguém que acha que o céu tem que sempre ser azul; que janeiros tem que ser vividos na praia; alguém com costumes e pensamentos repetidos ao longo das décadas, sem perceber que estes costumes e pensamentos vão se saturando, fazendo com que a vida vá se desbotando.

Saturação e desbotamento. Como num paradoxo me vejo atolado na confusão destes pensamentos. Percebo o desbotamento do eu, o esvaziamento do ser. Como fosse uma página que antes estivera repleta de palavras escritas com tinta escura, agora retorna ao seu estado de limpidez inicial. E tudo fica vazio, numa condição em que nada faz sentido. Quando as coisas perdem o significado, encerra-se a razão de estar vivo. É neste ponto crucial onde reside o momento da loucura suicida, que não consegue enxergar mais sentido em estar nesse mundo. Não vê um caminho possível, porque está tudo em branco, ou tudo escuro, num vácuo onde nada pode prosseguir.

A vida chegou ao fim, mesmo sendo tão jovem sinto a porta fechada, a luz apagada, os ciclos terminados. Tudo que podia fazer já foi feito. Como posso prosseguir?

Muita gente chega a este ponto e simplesmente ignora, vai levando. Levando o peso do vazio da vida nas costas, empurrando-a com a barriga, esperando que a morte física venha dar cabo aquele corpo que miseravelmente se arrastou durante o tempo que o maltratou. De um lado um suicida, do outro lado um conformado. Não quero estar em nenhum destes lados, pois ao contrário daqueles dois, posso fazer uso de minha capacidade intelectiva e ao olhar pra dentro, ao parar pra pensar em tudo que me incomoda, posso encontrar um novo caminho, uma nova tinta que pode ser usada para escrever as palavras de um novo eu.

Se me encontro vazio, em branco, sem sentido, tenho agora a oportunidade de ser uma nova pessoa, posso abrir a porta e ver novas coisas, ter novas opiniões, gostar de novas descobertas, conhecer novas paisagens, aprender novas línguas, ter novas atitudes, que podem inclusive ser opostas aquelas que antes estavam atreladas à história do eu que não existe mais.

Neste ano de pandemia, além de ter estado aprisionado dentro de uma existência morta, nos obrigamos a estar encerrados em casa, fugindo de um inimigo invisível, que poderia nos tirar efetivamente a vida do corpo físico. Enfrentamos com medo e bravura inúmeras lutas contra o vírus e contra as bad vibes, que inevitavelmente nos inundaram de crises, de choros, de angustias por não saber o que estava por vir. E ainda não sabemos o que estar por vir, mas algo precisa ser planejado para ser realizado quando pudermos parar de usar o lema "fique em casa".

"Sair de casa" precisa ser o novo lema, quando tudo isso passar.

Sair para ver o mundo, para escrever uma nova história, para ser um novo eu, para preencher de novas palavras e cores uma folha em branco até que ela volte a ser mais uma vez saturada e tenha o seu ciclo encerrado. E que quando isso acontecer de novo, eu possa me manter vivo e atento pra recomeçar.

31 de dezembro de 2020

PS: para ler o Diário da quarentena #1 acesse o link


JHONS CASSIMIRO

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