Raíza Teles

Um dia se vê e não se sente, outro se sente sem se ver. Eis a sua eterna condição.

Um romancista apaixonante: Dostoiévski.

''E para quem vou pedir perdão agora?''
F. M. Dostoiévski



dostoievski_capa.jpg

Estremeço quando leio Dostoiévski. Estremeço mesmo. Sabe aquela sensação pontiaguda de lasca encravada no peito? então, é isso mesmo que eu sinto. Algo quase como um abalo sísmico.

Tenho adiado a tempos escrever sobre Dostoiévski, mesmo sendo esse meu desejo de cada dia. Porque, ora, queiram fazer-me a pergunta? é muito simples. Como, de forma sã, ou -talvez nem tão sã- explicar Dostoiévski, ou qualquer que for a obra deste? impossível?! acredito que a complexidade do tema suscitado me cause temor. Aquele medo que congela a espinha. Serei digna de falar sobre um gênio? quem sou para, que mesmo em hábeis palavras, possa traduzir toda uma gênese de um ser a frente de seu mesmo tempo, e muito, muito a frente do nosso tempo?

download (2).jpg

Permitam-me tentar? sem mais delongas, vamos lá. Sendo digna ou não. Alguém precisa transcrever, mesmo que primariamente sobre o romancista russo mais apaixonante de todos os tempos. Suspeita para falar ou não, só quem já o leu decifra que em cada palavra de admiração que vos rogo se desvela de uma gota no orvalho, um olhar cintilante, uma névoa resplandecida.

E deste último parágrafo, eis quando estava relendo ontem Noites Brancas me acende uma luz, daquelas que não se lê na wikipédia, nem mesmo em teses que se elaboram sobre. É um autor realista? Sim. É um autor que se utiliza do fantástico? Sim. Freud o analisou? Sim. Suas obras desvendam o comportamento humano na mais abrangente consciência? Sim. Desenlaça um enredo que enreda no fundo de seu âmago, e oras possa enclausurá-los na consciência profícua do autor, deixando-o com a sensação de estar diante de um necrotério, oras de ser compreendido como ninguém. Euforia, êxtase, frenesi, relampejo. Do embrulho no estômago, da ânsia contida, ao pensamento que não se exterioriza de forma tão eloquente que jaz da autocompreensão, a uma passada de mão em teu cabelo: ''Ele me entende!''

doenteamigos.jpg

Delongas por delongas, acabei por não citar brevemente que não se encontra nas análises de Dosto (como um amigo íntimo) é a prosopopeia inserida. Reparem. Relendo Noites Brancas, da editora 34, dentre muitas passagens que me chamaram atenção, uma em especial cristalizou-me o olhar, eis: ''Se se abria uma janela na qual tivessem tamborilado dedinhos delicados e brancos como açúcar e surgia a cabecinha de uma moça bonita (...)'' (Noites Brancas, p. 14, Ed. 34).

Personificação pura! essa forma imagética que nos relança a auto imagem do que o escritor ambienta para o leitor, essa relação até orgasmática que se entrava por um sutil diálogo com o leitor, é de um viés que nos reposiciona em uma esfera inatingível. As metáforas bem colocadas diante de seres inanimados são de uma fatalidade tão reluzente.

images (5).jpg

Uma escrita descomplicada diante um tema pesado, com mil e uma interpretações válidas, simbológico, abordando dramas internos da essência humana, delineando-nos impressões funestas às quais os ímpetos abordados podem custar a vida. Uma fragilidade transluzente, a utilização de uma declaração confessional, uma sequência verbo-visual. Tal intensidade dramática resulta no ultrapassar das fronteiras daquilo que costumamos chamar de literatura.

mais-pc3a1ginas-da-coec3a7c3a3o-josc3a9-olympio.jpg

Do ponto de vista psicanalítico através da arte o artista consegue conciliar, a sua maneira, os princípios de prazer e de realidade: insatisfeito com a renuncia pulsional que a realidade exige, o artista ingressa no mundo da fantasia, e ao percorrê-lo lhe dá formas não apenas socialmente aceitáveis, mas também louváveis. Por meio da forma o artista provoca no outro um encontro com seus próprios desejos insatisfeitos, encontro que de outro modo – sem a mediação formal – poderia ser intolerável (FREUD, 2004, p.69).

O Grande Circo Místico litografiaÇ (2).jpg

A imaginação é um campo minado, tiro cruzado, faca de dois gumes. Podendo ocasionar as reações mais inebriantes, como também de uma forma visceral, socar-te na boca do estômago, do modo mais frívolo e impassível.

download (1).jpg

E Dostoiévski tem o talento inefável de traduzir sensações que podem denotar-se por agridoce. O que, muitas vezes possa depender de seu estado de espírito, mas o que penetra no mundo das palavras, e da profundidade dessas obras russas, se permeia pela indagação: ''Terá ele conseguido fazer-me sentir exatamente o que tinha em mente, independente mesmo do meu estado de espírito?''

Desenho-Volendam-de-Lasar-Segall.-O-trabalho-fez-parte-da-exposicao-de-1913-e-estara-na-mostra-dos-100-anos-em-SP.-Foto-DivulgacaoMuseu-Lasar-Segall.jpg

Quando um autor consegue tirar-lhe a paz mesmo que por um trecho ou verso, permitam-me dizer, mexer mesmo com a psiquê. É aonde habita uma certa genialidade, até perigosa. Ler coisas singelas e leves é sempre muito simples, é a qual coletivamente, impera. Difícil mesmo é ler o que não se compreende nem nas próprias palavras, transcende. Está dentro de você, da sua mente, dos sentimentos, imbuído no buraco mais fundo de seu ser.

da1.JPG

Eis Dostoiévski para mim, uma figura eternizada na minha memória com cada trecho visceral, facadas, pauladas, tiros, disparos. E que, paradoxalmente, acalma, e tranquiliza minha agonia, inquietação, e desassossego.

Excertos:

''Sou mestre na arte de falar em silêncio. Toda a minha vida falei calando-me e vivi em mim mesmo tragédias inteiras sem pronunciar uma palavra (Dostoiévski, A Dócil).''

''Existe nas recordações de todo homem coisas que ele só revela aos seus amigos. Há outras que não revela mesmo aos amigos, mas apenas a si próprio, e assim mesmo em segredo. Mas também há, finalmente, coisas que o homem tem medo de desvendar até a si próprio, e, em cada homem honesto, acumula-se um número bastante considerável de coisas do gênero. E acontece até o seguinte: quanto mais honesto é o homem, mais coisas assim ele possui (Dostoiévski, Memórias do subsolo, p.52-53).''

''O caso todo, a maior ignomínia, consistia justamente em que, a todo momento, mesmo no instante do meu mais intenso rancor, eu tinha consciência, e de modo vergonhoso, de que não era uma pessoa má, nem mesmo enraivecida; apenas assustava passarinhos e me divertia com isso. Minha boca espumava, mas, se alguém me trouxesse alguma bonequinha, me desse chazinho com açúcar, é possível que me acalmasse. Ficaria até comovido do fundo da minha alma, embora, certamente, depois rangesse os dentes para mim mesmo e, de vergonha, sofresse de insônia por alguns meses (Dostoiévski, idem, p.16).''

“Se me dói o fígado, que doa ainda mais.”(Dostoiévski, idem, p.15)

''Eu era doentiamente cultivado, como deve ser um homem de nossa época. Eles pelo contrário, eram todos embotados e parecidos entre si, como carneiros de um rebanho. É possível que eu fosse o único em toda repartição a ter continuamente a impressão de ser um covarde e um escravo, e talvez tivesse esta impressão justamente porque era cultivado. Mas não se tratava apenas de impressão; isto se dava na realidade: eu era um covarde e um escravo (Dostoiévski, idem, p.57).''

•Xilogravuras de Lasar Segall.


Raíza Teles

Um dia se vê e não se sente, outro se sente sem se ver. Eis a sua eterna condição..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/// //Raíza Teles