João Paulo Mendez

Já quis ser punk, hippie e macumbeiro. Hoje não se limita a rotulos e aprendeu a não querer exceder expectativas, sabe sorrir do jeito certo e viver sem esperar por nada. Sabe dar bom dia e cativa sempre que pode.

Lições que aprendemos com Los Hermanos

Ensinamentos e análises, uma visão de mundo das feridas do nosso tempo, do descompasso entre as demandas da atualidade e os anseios profundos que de perto mostram que toda a anunciação é vã. Uma simples observação dada pela banda, assim com o amor e alegria, de quem tem o coração como guia, este artigo se anuncia.


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A princípio nunca achei nada incrível nas músicas que fizeram dos Los Hermanos uma banda popular, um amigo meu que é músico havia me apresentado a banda mas nunca dei muita atenção até que um belo dia em um ensaio dele o ouvi tocando "Cara estranho" me indentifiquei tanto com o som que passei a ouvir cada um dos cds com a devida atenção e percebi que quanto mais músicas ouvia, mais necessidade tinha de compreendê-las, pois muitas delas se encaixavam em situações da minha vida e, assim, fui atentando com mais cautela para o sentido da melodia e das letras. E nessa brincadeira acabei percebendo que em toda obra dos Los Hermanos existia algo muito peculiar: que há, quase sempre, um trato especial com o tom das palavras, com a melodia e com a composição das canções, um sentimento único simples e mais prosaico que possa parecer.

Um ouvinte casual dos Los Hermanos não percebe a profundidade do sentido que suas composições transportam. Isso porque, as vezes em tom de conselho, explicação, melancólia etc o eu-lírico passa a mostrar de forma simples, quase ingênua como são retratadas realidades cotidianas, numa grande maioria relacionamentos, tristezas, alegrias, nada mais do que momentos comumente vividos, eles conseguem deixar bem sintonizado em suas letras determinadas ocasiões como quando vozes se exaltam, se lamúriam e a felicidade fica pronúnciada de acordo com o ritmo da percussão e do arranjo da melodia, que pode ir aumentando ou divagando à medida que o tom torna-se mais agressivo, alegre, chateado ou decepcionado.

los-hermanos-colored.png Rodrigo Amarante, Marcelo Camelo, Bruno Medina e Rodrigo Barba

Pra ser direto quem nunca se sentiu um cara estranho?! Aquele que parece não encontrar lugar no corpo em que Deus lhe encarnou, que não sabe nem pra onde ir se alguém não aponta a direção, que deixa o ódio se esconder. Quem nunca se sentiu perdedor? Mas descobre uma hora ou outra, que os vencedores não são lá tão admiráveis ou dignos de inveja. O sucesso não passa de uma aparência, uma máscara social que deve ser atravessada pelo olhar atento. O eu-lírico observa de longe, quase com piedade o vencedor que não tem gosto de viver e nem tem a glória de chorar. Pra que ficar se fazendo de forte desse jeito se é pra viver assim, carrancudo e sem gosto? Perder não é ser menor na vida, pois é, é de lágrimas que fez-se mar pra se navegar com dois barcos.. E é só nos momentos de pessimismo que pode ser que a maré não vire, pode ser do vento vir contra o cais. Mas mesmo assim sobre estar só não é problema, afinal somos desafetos da felicidade como se ela recolhesse a mão pra não nos alcançar, estamos cansados de amores sofridos achando que sofrer é amar demais. Mas é amargo querer só pra si por isso deve-se aprender a reconhecer fracassos, não ser egoísta e simplesmente dizer: "pois é, não deu". E deixar ser como será, indo sem se preocupar. Acreditar nas reconciliações depois das brigas, dos choros e logo ver renascido amor, bento de lágrimas, que conhece bem a solidão e os dias em que, aflito e só, ao observar os pássaros aprende-se a perdoar e lendo jornal na fila do pão pode ser algo cheio de encanto, para quem sabe olhar bem e descobrir ali, detrás daquelas folhas, um apaixonado, que encontrou seu amor quando desistiu de procurar. Assim o desejo de ter um merecido descanso porque o coração já quer descansar até o fim raiar.

Índice.jpgLos Hermanos - 1999

Mas é impossivél se sentir plenamente feliz ou em casa nesse planeta. O mundo inteiro é hostil e mesmo que lá no fundo a gente só queria um amor ou alguma coisa pra amar. Estamos atrás de sossego ou paz. Paz no espírito e na consciência, querendo levar a vida devagar pra não faltar amor. E sempre oferecer uma mão pra quem quer que queira, procurando em qualquer confusão ser de utilidade e atender onde tem sufoco sendo afim de acompanhar. Fingir não haver competição não deixa chegar a calma, assim o fato é não entender como ser valente e saber ser melhor. Ficamos sabendo que a vida é passageira e a nossa estrela vai cair e a luz desperdiçada de manhã num copo de café dá força de começar novos dias. Talvez se procurar dividir-se em alguém, as lagrimas não sejam tão sofridas. Só Deus supõe o céu assim não é preciso se esconder, se proteger ou se calar. O mal não nos quer e ninguém escapa o peso de viver assim. Para viver entre pessoas emprisionadas, em suas máscaras, em seus fingimentos só é preciso abrir a janela e deixar que o sol nos veja, simplesmente viver querendo manter abertos os portões da alma. Quem não vive a esconder o coração que não divide com ninguém? Sozinho não tem graça, basta abrir os armários, e esperar por esse abismo que é pensar e sentir e mesmo que tudo dê errado, não tem problema. Olhe pro céu e invente uma nuvem que chove sorrisos.

01.jpg Bloco do eu sozinho - 2001

E voltar pra mudar o que fez não vai mudar agora o que somos e ter medo da mutabilidade constante sobre as decisões é natural, pois só o vento vai dizer lento o que virá, enquanto isso, navegando vá em paz e nada melhor do que brincar de ser feliz. O que somos é o que escolhemos ser, aceitemos a condição, a própria condição humana. Conhecemos a imprevisibilidade do futuro, e é melhor que seja assim: dispensando a previsão e as expectativas, até porque tentar prever só serviu pra se enganar. Se desse pra saber, antes de fazer algo, se esse algo daria errado, onde estaria a aventura de viver? Afinal sair de casa já é se aventurar, por isso é bom não saber o que o amanhã reserva e só cantar o encanto de quem é que nos tornaremos, deixa estar somente ouvindo a onda bater, não dá pra saber do estrago que faz parte dessa vida curta, só depois de muitos milênios de estarmos mortos é que a água do mar, de tanto bater na rocha, vai desintegrá-la. É escutando o não que se descobre a verdade que sobra além das coisas casuais. É um verdadeiro incômodo e existe razão quando dizem que precisamos de todo cuidado. Pois o passado é tão misterioso quanto o futuro, principalmente aquele que passou antes da gente nascer, as vidas atrás não são parte de nós? Então é preciso força pra sonhar e perceber que a estrada vai além do que se vê.

digitalizar0004-vert-tile.jpg Ventura - 2003

Nas letras de Los Hermanos só ouço o que convém, elas são de uma da poesia simples, que concentra versos pequenos e palavras esparsas numa imensa qualidade de sentido, mesmo que soe sentimentalóide e piegas, como tanto clichê deve não ser ao invés de se esconder detrás de palavras inusitadas o eu-lírico se sente sozinho e precisando de carinho, mas mesmo assim não muda a qualidade das canções, mesmo se for só assim, descobrindo que não é bom ceder, assim é preciso não levar as coisas tão a sério e poder rir logo que fio da maldade se enrola. Uma moldura clara e simples é aquilo que se vê. Pedir luz ao Deus do tempo e com ele estar em par e não ficar nem aí, se julgarem religiosidade, antiquado ou uma ética bobalhona, só o amor é luz pra se aprumar. Diz o que quer dizer, sem se importar muito se os cínicos vão rir, ou se silêncio falará alto, se vai virar objeto de piada ou se o seu romantismo vai ser considerado ingênuo. No fundo ele faz o melhor de que é capaz só pra viver em paz e sabe que, no fim, assim calado, vai ser coroado rei de si.

4444.JPG 4 - 2005

É preciso que o ouvinte se atente para a carga de sentido que cada letra poetizada carrega, buscando entender o conflito ali presente, são usadas várias metáforas e algumas vezes o uso de perguntas nas estrofes que nos fazem refletir sobre a situação do eu-lírico, mesmo sem termos todos os detalhes da situação. Ele é muito sutil, e fica demarcado na escolha da ordem dos fatos, bem como na argumentação as composições utilizam-se de razões centro-fálicas e lógicas. Apresentando-se totalmente libertas das obrigações sociais que tanto sentimento oprime.

Em cada letra somos levados a conhecer o amor, o conformismo, o cansaço, o saudosismo, o desprendimento, a vaidade, o ímpeto inconsequente, brigas e reconciliações, o pessimismo, o desabafo, a solidão, a vertigem, o arrependimento, a ansiedade daquilo que pode, ou não, lhe ocorrer no futuro conforme suas decisões, é possível ver surgir constantemente os versos na cabeça e no coração.

Muitas vezes, as palavras estão ali mais pela sonoridade agradável ou cômica do que pelo sentido que comunicam, simplesmente porque são palavras engraçadas, divertidas, bizarras, gostosas de pronunciar e ouvir. O que diabos quer dizer: "dei-te pra ancorar doces deletérios?!". Mas na maior parte do tempo suas palavras se ajuntam dum jeito ótimo e soam muito bem: Imbróglio, engodo, quiproquó, birra, cisma, amuleto, chulé, sacola, pá furada, chá de habu, à palo seco etc.

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Cada um pode tirar proveito na vida ouvindo Los Hermanos e eu ainda teria muita coisa pra dizer, mas vou deixar aí, meio jogadas, essas divagações, esses versos espalhados ao vento, como um mero convite para se atirar no universo da banda que assim eu me atirei. Mas são palavras demais, quando o que importa mesmo é ir e ouvir os albums, deixando-se penetrar pelo encanto. Músicas inesgotáveis e viciantes, que vão revelando novas liçoes, idéias e diferentes formas de pensar sobre determinadas ações. Bem como todo carnaval que tem seu fim, e é o fim. É o fim.


João Paulo Mendez

Já quis ser punk, hippie e macumbeiro. Hoje não se limita a rotulos e aprendeu a não querer exceder expectativas, sabe sorrir do jeito certo e viver sem esperar por nada. Sabe dar bom dia e cativa sempre que pode. .
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