aforismos pensantes

Algumas provocações sobre a vida, sociedade, arte, música e cinema

Vitor Hugo Cid

um ser pensante, criador (sem ser criativo!), administrador, admirador da solitude e do mundo interior... buscando refletir sobre algumas questões da vida perturbadoras e ao mesmo tempo inspiradoras.

O tédio, a ociosidade e a curiosidade

Em 1843, Søren Kierkegaard nos deu um insight poderoso sobre o tédio e sua função na sociedade. Além disso, lançava um outro olhar sobre a questão com uma abordagem um pouco diferente da tradicional pela qual estamos nos acostumando na sociedade atual. O que é? Ajuda ou atrapalha?


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O tédio tem um efeito bem negativo nos dias atuais. Se eu procurar no dicionário por uma definição, podemos encontrar “desgosto profundo, que se faz que se olhem com repugnância as pessoas, as coisas ou os fatos” (MICHAELIS, 2009) ou até mesmo “aborrecimento, desgosto, enfado, fastio” (idem). NO Wikipedia encontramos descrito como “falta de estímulo ou ação repetitiva (...) ausência de coisas interessantes”. O tédio em si atua como esta condição, este estado de espírito quase maligno devendo ser exorcizado a qualquer custo por nós. Mergulhamos em milhões de atividades, na rotina frenética, no trabalho, nos relacionamentos, nos hobbies e tudo isso para evitar o tédio, evitar o tempo parado e “desperdiçado”. No entanto, já paramos para pensar nos efeitos do tédio? Søren Kierkegaard traz um pensamento interessante sobre o tema:

“O tédio é a raiz de todo o Mal. É muito curioso o tédio, que em si tem uma natureza calma e pacífica, pode ter a capacidade de iniciar o movimento. O efeito gerado pelo tédio é absolutamente mágico, mas este efeito não é de atração, é de repulsão”

Ao afirmar que o tédio é “a raiz de todo o Mal”, Kierkgaard está fazendo uma referência a um conceito muito difundido de mente vazia é a oficina do diabo. Porém, ao lutarmos contra o tédio, estamos no fundo nos ocupando em estar ocupados e encontramos um outro problema de exatamente limitar o nosso espaço de criação, o espírito criativo inerente dos seres humanos. Não fazer nada é errado no conceito atual de sociedade e produtividade, mas fazer tudo gera os melhores resultados como os gurus da “arte do fazer” se orgulham em apregoar?

Na tese de Kierkgaard, o tédio é inerente do ser humano tanto quanto o ato de respirar. A questão se inicia no primeiro homem, Adão, e se perpetua em toda a raça humana. Estamos lidando com um inimigo? Tal qual o medo que nos impulsiona, o tédio nos incomoda, nos deixa desconfortáveis e nos leva ao movimento. Uma provocação é: se trocarmos a palavra tédio por ociosidade, temos o que? Muitos se orgulham do termo “ócio criativo”, mas odeiam associá-lo ao tédio. Em que se diferencia esta questão? Seria apenas semântica? Ou estamos lidando com uma questão diferente aqui?

A questão a explorar seria o benefício de estarmos entediados sendo objetos da passividade, e por isso a repulsa por algo que não controlamos levando a um estado de espírito diferente, algo que nos incomoda porque queremos o movimento. Por outro lado, este tédio em primeiro lugar nos incomoda a sair do lugar e fazer algo. Seja nos ocuparmos ou não fazer nada, ele não passa incólume ao nosso cesto de emoções diárias. Precisamos fazer algo, certo? Não vejo assim, precisamos sim entender a nossa motivação com o tédio. Queremos estar assim por um momento ou estamos sofrendo isso e não sabemos lidar com a situação a ponto de agir? Depende de cada pessoa e encontrar essa motivação nos leva a fazer as perguntas mais inteligentes.

Por outro lado, uma abordagem ao tédio é a curiosidade. Essa sim é considerada uma virtude na sociedade atual, mas se pensarmos bem é o outro extremo da régua do tédio. Uma é a passividade (tédio, imobilidade) e a outra é a atividade (curiosidade). Neste espectro, temos uma variedade grande de locais onde podemos nos posicionar. O que é melhor, só uma autoanálise pode dizer. A curiosidade nos leva a questionar o status quo e entrar em movimento, diferente de ficar imóvel diante de uma situação qualquer da vida.

E se aproveitarmos os momentos de tédio para explorá-los com curiosidade? Isso faria a diferença na forma como enxergamos a vida? Acredito que sim! Mas é uma jornada que demanda paciência e muito treino para concretizar em ações.

Esta provocação é um ponto importante na jornada diária. Podemos encarar o tédio como um grande vilão ou aproveitar a oportunidade para ter uma atitude de curiosidade gerando movimento e, quem sabe, exercitando a nossa criatividade. Se é algo presente em nossa natureza, por que não entende-lo de forma a mudar nossa concepção? Fica o convite e se quiserem ler um pouco mais sobre os pontos de Kierkgaard, deixo o texto onde me inspirei bem abaixo.

Por isso, da próxima vez que se encontrar em uma situação entediante, lembre do seguinte:

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Fontes inspiradora: http://www.brainpickings.org/2015/01/14/kierkegaard-boredom-idleness-either-or/


Vitor Hugo Cid

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