Ágora

Construções verbais de colunas abstrativas

Alícia Madrid

Somos todos universos ambulantes com almas metamórficas.

Réquiem para Delírios e Substâncias Químicas

Ritmo acelerado, repetição de cenas, trilha sonora instigante... detalhes técnicos reforçam a aura pesada e reflexiva do filme "Réquiem para um sonho"


“Vícios” é um tema recorrente, abordado em diversas categorias cinematográficas, seja como assunto principal ou secundário da trama. “Réquiem para um sonho”, filme lançado em 2000 e dirigido por Darren Aronofsky, é uma narrativa densa e angustiante sobre como vícios e obsessões podem levar pessoas do ápice à decadência mórbida no decorrer de três estações do ano.

requiem-for-a-dream1.jpg

A palavra “réquiem” simboliza as preces ou cantigas cantadas em reverência aos mortos. No contexto, o termo homenageia os sonhos destruídos das personagens ao sucumbirem cada vez mais em sua própria devassidão.

No longa, acompanhamos as vidas de quatro pessoas: Harry Goldfarb (Jared Leto), sua namorada Marion Silver (Jennifer Connelly), seu amigo Tyrone C. Love (Marlon Wayans) e sua mãe Sara Goldfarb (Ellen Burstyn). Os três primeiros são usuários de drogas e a última (a que mais me chamou atenção na história) é uma mulher que fecha os olhos perante o problema do filho, mas em contrapartida, tem que lidar com monstros moram dentro de si mesma.

requiem_for_a_dream.jpg

Na busca por dinheiro para sustentarem seus vícios e concretizarem seus sonhos, os jovens se envolvem com narcotráfico e prostituição, o que acaba resultando no fim do relacionamento entre Harry e Marion - juntamente com todos os planos que ambos compartilhavam - e no culminante definhamento que assolaria a todos eles individualmente: Harry perde um braço, gangrenado pelo uso anti-higiênico de heroína, Tyrone encara violência por racismo, trabalho forçado e crises de abstinência e Marion segue vendendo o próprio corpo por gramas de cocaína.

artworks-000035368342-aenakf-original.jpg

Já a Sra. Goldfarb, tem uma trajetória diferente dos demais, contudo não menos desoladora: no início do filme, ficamos cientes de sua desenfreada devoção por programas televisivos, principalmente por um “game show” chamado “Tappy Tibbons Show”. Para sua surpresa, ela recebe um convite para participar de seu amado programa, porém, tal fato desencadeia nela um estado emocional patológico muito mais preocupante: a partir deste momento, a personagem se embrenha em uma batalha incessante para recobrar a juventude de outrora, através de remédios emagrecedores, em nome da aparição nacional que faria na TV.

requiemforadream-reddress.png

A situação de Sara, embora pareça um tanto hiperbólica, representa com clareza como a mídia pode estar relacionada à consolidação da cultura da aparência. Apesar da possibilidade de estar na TV ter dado um sentido à rotina insossa levada pela dona-de-casa, sua luta contra as marcas da idade torna-se sua ruína. Seu ponto alto como uma nova mulher de fisionomia mais jovem rapidamente se esvai, à medida que consome quantidades cada vez maiores de anfetaminas e sedativos, ainda ansiando angustiadamente por uma oportunidade que nunca chegará. Transtornada, ela acaba dependente das pílulas que, com o passar do tempo, lhe tomam não só a saúde física, mas também a mental. Seu drama pessoal termina em uma clínica psiquiátrica, onde é submetida a severos tratamentos de choque, sem jamais ter tido a chance de realizar sua tão idealizada fantasia.

“Réquiem para um sonho” é uma produção sobre como o excesso, motivado pela tentativa de fuga da realidade e de preencher uma vida vazia, pode se transformar na ferramenta torturadora que destrói as expectativas e as relações palpáveis de um indivíduo sem permitir qualquer experiência catártica.


Alícia Madrid

Somos todos universos ambulantes com almas metamórficas..
Saiba como escrever na obvious.
version 3/s/cinema// //Alícia Madrid